JOÃO GARÇÃO..
A importância da Arte
na construção de uma nova sociabilidade

3. Arte é necessidade

Pelo que atrás afirmei, lógico é concluir que a Arte é uma necessidade e não um luxo ou uma frivolidade de salão mundano como tantas vezes se tenta fazer crer; e que não deverá, portanto, ser algo exclusivo de uma minoria de iniciados, de estudiosos e de privilegiados, habitualmente inacessível ao comummente denominado “grande público”.

Contudo, apesar desta constatação, verificamos que, para este último, a Arte aparece-lhe frequentemente como uma realidade na qual, pelo menos, dificilmente pode penetrar, ficando assim estabelecida uma separação entre o seu quotidiano e a Arte. É lícito e inevitável que nos questionemos então: que factores contribuirão para este divórcio entre o artista criador e a obra de arte enquanto seu veículo de comunicação, por um lado, e o Público, por outro? E quais as características que o mesmo reveste? Busquemos a resposta a estas duas perguntas.

Consideremos primeiramente o Artista. Já acerca dele teci algumas considerações, mas impõe-se agora que recordemos e sobretudo reafirmemos o que atrás em parte já foi referido: que ele deve ter um correcto ( e tão perfeito quanto possível ) conhecimento dos meios e da sua aplicação; que deve ser persistente na expressão das suas propostas, ou seja, das suas criações; e que - questão fundamental - deve possuir um espírito criativo inovador. Significa isto que o criador que possua estas características pode imediatamente incorporar excelência e qualidade no seu trabalho? Respondo que em princípio sim, naturalmente - se isso corresponder a uma autenticidade assumida. É que não será um Artista verdadeiro aquele que constranger o seu talento para agradar a facções, a grupos ou a modas ou que forneça produções artificiosas tendo em vista conseguir vastos proventos à custa de ingénuos ou de novos-ricos ou que busque apenas o reconhecimento de largos sectores populacionais frequentemente alienados por manipulações sociais. Ou seja, o Artista autêntico deverá ser dotado de corajosa persistência de molde a poder resistir a ambientes habitualmente adversos.

Como exemplo daquilo que agora afirmei, reparemos no que se passou com algumas personalidades: comecemos pela denominada Escola de Barbizon que reuniu, entre outros, os pintores Rousseau, Millet e Corot. Sendo sobretudo um grupo de amigos, sem uma unidade teórica e conceptual, estiveram colocados sob a suspeita de serem perigosos anarquistas e a polícia tentou várias vezes prendê-los e difamá-los, ainda que sem êxito. Millet, por exemplo, sofreu diversas tentativas de agressão a que só escapou por ser um homem forte e decidido. Quanto aos Impressionistas a que no início aludimos, foram continuamente caluniados pela imprensa do regime de então que chegou mesmo a tentar dá-los como loucos. Cézanne foi caracterizado como “uma criança de mama que faz borradelas”; a Monet criaram problemas tais, impedindo-o de ganhar o sustento quotidiano, que a sua primeira mulher faleceu, tanto por não poder comprar os remédios de que necessitava como por subalimentação. E os exemplos poderiam multiplicar-se. Só com a chegada de uma nova mentalidade diminuiu esse franco ambiente de hostilidade. Poderemos perguntar-nos: porquê tanta animosidade contra simples pinturas de gente pacífica? A resposta residirá no facto de estes, ao proporem uma nova visão das coisas, autêntica e liricamente salubre, porem em causa muitas das estruturas mentais e de comportamento em que assentava a sociedade da época - e isso era evidentemente inquietante para quem detinha o poder político. Quanto aos pintores ditos oficiais - muitos dos quais já desapareceram das salas de exposição dos museus, tendo sido remetidos para as suas caves ou depósitos - viviam no conforto económico e social, muito respeitados, pintando aplicadamente e sem faísca de originalidade retratos de importantes personalidades da chamada “boa sociedade” e enviando aos Salons oficiais medíocres exemplares da sua “arte” lambida e artisticamente morta. Alguns deles tinham capacidades técnico-artísticas, mas não tinham ética, autenticidade e independência de espírito; pelo que, passado o período em que estiveram na moda, foram colocados pelo Tempo - que alguém já disse ser o maior dos críticos - no justo limbo do esquecimento.

No que diz respeito a determinados artistas nossos contemporâneos promovidos pela publicidade - ou são Artistas autênticos (e nesse caso não há jogadas de interesses económicos que os aniquilem, porque a sua obra resistirá), ou não passam de episódicas vedetas que a breve trecho os conhecedores sérios e informados desmascararão como simples bluffs.

Tenho vindo a fazer assentar os exemplos mais no campo da Pintura. Mas se passássemos para outra disciplina, ou o panorama seria afim (caso da Música) ou, até, mais marcado (caso da Literatura, uma vez que o seu universo é, devido à especificidade de comunicação da palavra escrita, mais “interveniente” ou aparentemente mais perceptível ).

Passemos agora, de forma breve, a considerar a Obra de Arte. Em função daquilo que já disse, tornar-se-á evidente que aquilo que nela o Artista deseja explanar é, prioritariamente, a sua Ideia, isto é, elementos (ou mesmo a totalidade, aí sintetizada) das suas concepções existenciais. Os meios expressivos são uma consequência, evoluindo a partir dessa mundividência. A inexistência, no Artista, de uma profundidade filosófica específica a que já aludi, traduz-se inevitavelmente na pura reprodução mecânica de uma linguagem plástica adoptada de outrem, a qual foi aprendida e mesmo, eventualmente, compreendida, mas que lhe não é própria. Uma obra nestas condições não é uma obra “viva”, mas sim “morta”.

Nesta altura, já tereis compreendido que não sou partidário das teorias puramente formalistas da análise da obra de arte, que não buscam o que subjaz às formas evidenciadas pelo quadro. É que um trabalho artístico põe-nos o problema da necessidade da sua decifração, como se depreende do que atrás referi. Ora, esta tentativa de obtermos uma correcta compreensão implica sempre a necessidade de se proceder à sua leitura completa, pelo que não pode limitar-se à análise plástica e histórica da obra, como tantas vezes ainda se faz, mas necessita de ir mais longe, dirigindo-se tanto ao consciente do artista como ao seu inconsciente. Estudiosos como Emile Mâle, Elie Faure, André Malraux e Ernst Gombrich, entre outros, perceberam-no perfeitamente, tendo aberto, com os seus trabalhos ligados à Psicologia da Arte, novas e mais proveitosas perspectivas no que se refere à possibilidade de decifração dos artistas e das suas obras.

Ou seja, não basta “sentir” a obra de Arte. Há também que compreendê-la, procurando simultaneamente compreender o artista. Só com esta disponibilidade e abertura de espírito é possível que entre em acção a magia comunicativa que a Arte constitui.

Isto conduz-nos ao terceiro ponto que há que considerar: aquilo a que habitualmente se chama “o público”. Esta denominação, talvez cómoda, é, afirmemo-lo desde já, profundamente incorrecta pois, na verdade, não existe “o público”: existem “públicos”. “Isto é óbvio”, podereis dizer-me com razão. Contudo, tal perspectiva generalizadora e unitarista é inúmeras vezes afirmada para salientar um acentuado divórcio entre os Artistas, a Arte e os seus possíveis receptores, o que tem contribuído para, paulatinamente, se radicar nos espíritos a ideia de que a Arte é um produto de difícil acesso apenas destinado a uma elite, mais ou menos endinheirada, a qual, tendo satisfeitas as suas elementares necessidades materiais, dispõe então da oportunidade de se deleitar na ociosa contemplação de tais criações.

Urge que repudiemos este equívoco tão divulgado com intuitos que provêm de uma certa má-fé. Evidentemente que a satisfação das necessidades materiais pode assegurar a disponibilidade espiritual necessária ao estímulo da compreensão da obra de arte e ao crescente refinamento do gosto, da sensibilidade e da inteligência cultivada. No entanto, verdadeiramente fundamental na adesão ao prazer superior que a boa obra de arte proporciona é a disponibilidade interior de base que o eventual receptor pode cultivar, no sentido de aprofundar, com maior ou menor dificuldade da sua parte, as condições mentais que lhe permitam fruir as propostas artísticas. E estas coordenadas interiores têm menos a ver com condições sócio-económicas do que com uma adequada atitude perante a Arte. Aliás, diria mesmo que a boa situação económica dos indivíduos conta menos do que se pensa, na medida em que, muitos destes, quando se interessam pelo fenómeno artístico, são geralmente muito mais atraídos por modas e por outros ditames propiciados pela sociedade, ligados à superficialidade do culto das aparências e da publicidade, do que propriamente por um apelo interior derivado da sua condição humana de sujeitos detentores de capacidade estética ligada à sensibilidade e ao intelecto.

Dito isto, deve ser salientado que todo o descobridor e inovador é a princípio pouco compreendido. Consideremos alguns exemplos: El Greco foi considerado louco e autor de borrões; Ingres foi acusado de fazer retrogradar a pintura francesa; Renoir foi tido por um “verdadeiro malfeitor que corrompeu a juventude”; Géricault foi violentamente atacado devido ao seu conhecido quadro A Jangada do ‘Medusa’ - isto para nos mantermos no campo da pintura. Daí que com razão tenha dito o grande poeta espanhol Federico Garcia Lorca, em carta dirigida a Carlos Morla, que “na vida, aquele que caminha à frente, revestido de esplendor, é aquele que leva consigo um pequeno vaso de lágrimas, e não aquele que aperta na mão um punhado de diamantes”.

Todos os pintores atrás referidos nos parecem agora clássicos, na medida em que fazem parte do que de mais rico possui o património artístico da Humanidade. Actualmente, só um espírito verdadeiramente tacanho - ou apenas insensível e ignorante - é que ainda pode achar ridículas as figuras femininas de Renoir, distorcidas as naturezas-mortas de Cézanne ou absurdos os retratos pintados por Picasso. Quero com isto dizer que a incompreensão a que o artista inovador tem sido votado decorre inúmeras vezes do facto de as pessoas não terem ainda aprendido a ler os seus trabalhos, condenando imediatamente aquilo que, para elas, é invulgar, porque apenas diferente do que lhes é habitual. E esta rejeição tanto pode derivar do facto de o espectador se sentir inferiorizado ante aquilo que é diferente e que ainda não consegue decifrar, como pode ser consequência de um néscio sentimento de altaneira e vaidosa superioridade perante o inesperado, optando a pessoa, neste caso, por - de forma deliberada - não procurar compreender a novidade. Existe um tipo de público para quem a sua experiência no contacto com a Arte fossilizou a dada altura, impossibilitando a análise e a interpretação da obra que ainda não faz parte - e poderá nunca fazer - do seu espaço mental e das suas vivências, razão porque aquela criação é rejeitada ou, na melhor das hipóteses, olhada com desconfiança.

Mas desde que se faculte, através da instrução e da educação, a iniciação nas concepções do artista reveladas pela forma de expressão por que este opte, a breve trecho estaremos na posse dos instrumentos culturais que poderão possibilitar o entendimento das suas propostas. O consequente gostar, gostar menos ou não gostar já dependerá, então, da inclinação esclarecida e não somente da inculta impressão imediata, a qual em geral determina aceitações ou rejeições irracionais e levianas. Aquilo que pode ser, à partida, uma proposta confusa e enigmática, através da conjugação de esforços da educação, da inteligência e da sensibilidade é passível de tornar-se um todo ordenado e profundamente enriquecedor, que o espectador poderá entender caso, não é demais repeti-lo, se deixe absorver na contemplação da obra e se fizer um esforço verdadeiro para a compreender. Olhar é diferente de ver; ouvir não é o mesmo que escutar. Ver e escutar exigem simultaneamente tempo, concentração e reflexão. A Arte necessita de ser lida, de maneira a não captarmos apenas a sua forma mas também a sua ideia, isto é, toda a estrutura ideativa subjacente à forma por nós imediatamente perceptível. Saber ver é muito diferente do apenas limitarmo-nos a olhar, exige mais esforço mas é, igualmente, bem mais gratificante. Da mesma maneira que uma criança, através da leitura continuada, mais facilmente aprenderá a ler e, especialmente, a compreender aquilo que lê, assim o observador terá que treinar a visão, a sensibilidade e a inteligência para poder, de forma profícua, aceder à magnificência transmitida por uma excelsa obra de arte. Como referiu o escritor Mário Dionísio, “uma obra dificilmente acessível não tem que ser necessariamente detestável”. O importante é aceitar ou rejeitar com conhecimento de causa e não por mero capricho ou provincianismo. E, de acordo com esta perspectiva, facilmente se compreenderá que o papel desempenhado pelos educadores poderá ser absolutamente decisivo na formação artística dos sujeitos e, logo, na construção de uma cidadania completa que, por isso mesmo, rejeite preconceitos e acredite na possibilidade do aperfeiçoamento dos indivíduos e das sociedades.
 
 

 




 



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