Cristovam Pavia

Quatro poemas de Cristovam Pavia

Sobre Cristovam Pavia: Nicolau Saião

Requiem

(ao menino morto, eu próprio)

A tarde declina com uma luz ténue.

Estou grave e calmo.

E não preciso de ninguém

Nem a luz da tarde me comove: entendo-a.

Até as imagens me são inúteis porque contemplo tudo.

 

Os ventos rodam, rodam, gemem e cantam

E voltam. São os mesmos.

Como os conheço desde a infância!

E a terra húmida das tapadas da quinta...

O estrume da égua morta quando eu tinha seis anos

Gira transparente nesta brisa fria...

(Na noite gotas de orvalho sumiam-se sob as folhas das ervas)

Oh, não há solidão, nas neblinas de inverno

Pela erma planície...

 

E foi engano julgar-te morto e tão só nas tapadas em silêncio...

 

Agora sei que vives mais

Porque começo a sentir a tua presença, grande como o silêncio...

Já me não vem a vaga tristeza do teu chamamento longínquo

Já me confundo contigo.

Litania da Rua dos Fanqueiros

Ó porque será este chulé ibérico

Em Espanha é pitoresco mas aqui é pindérico

 

Ó Rua dos Fanqueiros

Ó Salazar com teu rebanho de sacristas

Pensar que isto já foi terra de sardinha assada e de fadistas

 

Ó Rua dos Fanqueiros

Ó Lisboa ó Lisboa enjoada e indecente

Ó cidade sifilítica, são carochas ou gente?

 

Ó Rua dos Fanqueiros

Ó Portugal minha pátria de meia-tigela

 

- Aqui para nós, passa-se tão bem sem ela!

Na noite da minha morte

Na noite da minha morte

Tudo voltará silenciosamente ao encanto antigo...

E os campos libertos enfim da sua mágoa

Serão tão surdos como o menino acabado de esquecer.

 

Na noite da minha morte

Ninguém sentirá o encanto antigo

Que voltou e anda no ar como um perfume...

Há de haver velas pela casa

E xales negros e um silêncio que eu

Poderia entender.

 

Mãe: talvez os teus olhos cansados de chorar

Vejam subitamente...

Talvez os teus ouvidos, só eles ouçam, no silêncio da casa velando,

Uma voz serena de infância, tão clara e tão longínqua...

E mesmo que não saibas de onde vem nem porque vem

Talvez só tu a não esqueças.

Ao meu cão

Deixei-te só, à hora de morrer.

Não percebi o desabrigado apelo dos teus olhos

Humaníssimos, suaves, sábios, cheios de aceitação

De tudo... e apesar disso, sem o pedir, tentando

Insinuar que eu ficasse perto,

Que, se me fosse, a mesma era a tua gratidão.

 

Não percebi a evidência de que ias morrer

E gostavas da minha companhia por uma noite,

Que te seria tão doce a minha simples presença

Só umas horas, poucas.

Não percebi, por minha grosseira incompreensão,

Não percebi, por tua mansidão e humildade,

Que já tinhas perdoado tudo à vida

E começavas a debater-te na maior angústia, a debater-te com a morte.

E deixei-te só, à beira da agonia, tão aflito, tão só e sossegado.

Cristovam Pavia, de seu nome civil Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho, nasceu a 7 de Outubro de 1933 em Lisboa, vindo a falecer sob o rodado dum comboio, na mesma cidade, em 13 de Outubro de 68.

  Seu pai era o presencista Francisco Bugalho, oriundo de Castelo de Vide e ali residente.

  A partir de 1940, o poeta morou em Lisboa, ali finalizando os estudos liceais.

 Frequentou a Faculdade de Direito de Lisboa, que abandonou para ingressar na Faculdade de Letras. Entre 1960 e a sua morte trabalhou na construção civil e viveu entre Lisboa, Castelo de Vide, Paris e Heidelberg, tendo nesta última recebido acompanhamento psicoterapêutico. Deu a lume, em 1959, “35 Poemas”, a sua única obra poética publicada em vida. Anteriormente tinha publicado colaboração poética em jornais e revistas, como Diário Popular, Árvore, Anteu, Távola Redonda, Serões. Usou, além de Cristovam Pavia,  os pseudónimos, ou "semi-heterónimos", Sisto Esfudo, Marcos Trigo e Dr. Geraldo Menezes da Cunha Ferreira.

  "A poesia de Cristovam Pavia é a revelação de si próprio, de uma personalidade em conflito com o mundo em que vive e que procura uma fuga pela recuperação da infância morta, pela aceitação do seu conhecer-se diferente e despojado do que lhe é mais caro (a infância, o amor, o espaço e o tempo em que ambos se situavam), a transformação do seu próprio ser pelo sofrimento, num movimento de ascese e de autodestruição, quando o poeta atinge a consciência de si próprio e da sua voz.", diria José Bento em "Sobre a Poesia de Cristovam Pavia", in Poesia de Cristovam Pavia, Lisboa, 1982, p.15).

 
 

 

 

 




 



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