CORSINO FORTES.

Hoje chovia a chuva que não chove

a)
Quando a África incha seus músculos de sangue & secura
Não há Sahel que não queime
No coração da noite
A sua salina de solidão

*

Não há boca Que não chova a sua gora de corpo & alma
Nem gota
De água doce Que não seja
Um espaço! para amar & habitar

b)

Por vezes! o relâmpago
Escreve coisas vivas na boca do arquipélago

*

E as ilhas soerguem-se
pelo arquipélago das patas
E vão

De cratera em cratera
Erguer
na boca das sementes
A força contida dos vulcões

c)

Homem! deus é grande entre duas ilhas
Se baleias emergem da gota do teu rosto

Na Ilha! a cicatriz de deus é grande
Mas a ferida do homem é maior

*

Canção! no arbusto da viola

*

Que chove
A lírica de deus é grande
Mas a música do homem é maior

k)

Mulher! quando o céu da tua boca
Arrasta o corpo da terra
Até à goela da água longínqua
A febre conta no arco-íris
Da carne que sangra
A montanha roída dos dentes...

E da cicatriz da mão
brotam raízes
Que vicejam a memória dos séculos

Corsino Fortes nasceu na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, em 1933. Formou-se em Direito (em Lisboa), fez parte de alguns governos de Cabo Verde e foi embaixador em Lisboa. De 2003 a 2006, foi Presidente da Associação dos Escritores de Cabo Verde. Tem vários livros publicados, entre os quais Pão e fonema e Árvore e tambor. O poeta é detentor de uma obra considerada inovadora e de valor singular para a trajectória cultural de Cabo Verde, que expressa uma nova consciência da realidade cabo-verdiana e uma nova leitura da própria tradição cultural do Arquipélago.

In: http://www.ipleiria.pt/portal/ipleiria?p_id=60600

 

 

 

 

 

 

 

 




 



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