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S. FREI GIL EM CINEMA
Maria Estela Guedes

 

 

 

 

ANTÓNIO DE MACEDO
As Furtivas Pegadas
da Serpente
Editorial Caminho
Lisboa, 2004

António de Macedo é um homem do cinema, realizador de "A Promessa", entre muitas mais longas e curtas metragens. Não espanta, assim, que "As furtivas pegadas da serpente" sejam o romance da rodagem de um filme. Mais inusual será a temática do filme: uma história de S. Frei Gil de Santarém, personagem acerca da qual está em linha um trabalho meu, no qual chamo a atenção para a existência de uma literatura egidiana, que infelizmente ignora o romance de António de Macedo (1).

De facto, a literatura acerca deste pretenso santo, um dos primeiros grão-mestres da Ordem dos Dominicanos, é imensa, e abarca uma quantidade de áreas: ensaio científico, histórico, literário, teatro, poesia, romance, etc.. E porque fui apanhada por esta enxurrada de livros a meio de um trabalho que julgava fácil e rotineiro, propus aos meus colegas habituais de trabalho, e António de Macedo é um deles, que um dos temas do VI Colóquio Internacional "Discursos e Práticas Alquímicas" fosse a Literatura Egidiana. É preciso ficarmos com uma noção correcta do volume de obras que tratam de S. Frei Gil, o homem que assinou um contrato com o Diabo.

António de Macedo escreve um duplo, isto é, o seu romance é constituído por 16 cenas que, alternadamente, apresentam uma equipa de filmagens que se debate com vários obstáculos para acabar a rodagem de um filme; e as cenas do próprio filme. O dois, devo ter aprendido algures, talvez com os naturalistas, é o número do Diabo. Portanto, o duplo também é diabólico, seja ele uma simples imagem nossa no espelho, seja a pessoa que executa as cenas arriscadas de um filme, em vez do actor. O duplo é um burlador. Ao ser dois, rompe com a unidade divina, por isso aponta o Demónio. Ou a Mulher, mas a diferença, no caso, é nenhuma...

Este duplo, tão alternado como as casas brancas e pretas de um tabuleiro de xadrez, repete-se, de forma mais ostensiva, nas cores emblemáticas dos puros, por oposição aos demoníacos. E assim, temos o ponto de vista do realizador do filme, ou do alquimístico António de Macedo, sobre a personagem de Gil. Os milagres creio que nem são tocados, o que remete logo para um cepticismo muito radical nas coisas da Igreja Católica Apostólica e Romana; os Dominicanos, sobre os quais recai o maior peso da responsabilidade pelos horrores da Inquisição (o extracto escolhido do romance, a cena 10, é disso que trata - do modo como os corpos reagiam aos diversos processos e às diversas máquinas de torturar), vestem de negro, quando o seu hábito também comporta o branco, querendo isto dizer que os maus da fita são eles, exactamente como nos filmes de cowboys essas duas cores identificam, esquematicamente, o herói bom e o vilão. No romance, vivos e mortos coabitam, não porque os elementos da equipa de rodagem do filme se possa conceber que estão vivos, por oposição às personagens medievais, que estão mortas, mas porque Idouane de Montalban, a amada de Gil Rodrigues, no filme, contracena com ele e com outros, tendo morrido na fogueira, acusada de heresia. Ela era cátara, uma pura, daí que o seu emblema sejam os lírios. Noutras versões da história, Gil Rodrigues estava apaixonado por Teresa de Castela, uma rainha divorciada, que entrara, em Toledo, para um convento de beguinas.

A convivência de vivos e mortos no mesmo plano narrativo e a convicção do realizador de que Gil não se converteu, sendo um opositor dos métodos dos dominicanos e um simpatizante do catarismo, são os principais desvios da obra de António de Macedo em relação às versões que conheço da biografia de Frei Gil.

Uma nota a deixar aqui, inevitável, é a de que só temos um filme de papel, dentro de um romance, porque certamente os tempos não estão de molde a facilitar a António de Macedo a realização do filme, que não seria o correspondente ao guião interno do livro, pois este é algo burlesco, algo satírico. Mas é uma pena que um tema tão apaixonante para tanta gente, no curso de ai uns nove séculos, e não só em Portugal, não possa de facto concretizar-se numa obra de cinema.

 
(1) S. Frei Gil, um santo carbonário
 

Para uma bibliografia egidiana

 

 


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