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MARIA DO SAMEIRO BARROSO:
JOÃO CURVO SEMEDO - EM BUSCA DA QUÍMICA DA VIDA

A astrologia, a adivinhação, já ligada à prática da medicina desde a Babilónia (1), as crendices e as superstições de uma forma geral, continuaram a fazer parte do saber médico, aos quais as crenças religiosas se sobrepunham, dificultando a observação e a objectividade. A alquimia (2) que, através da Medicina árabe, dera um valioso contributo para o desenvolvimento de novos processos e para a descoberta das novas substâncias, também prosseguia até ser destronada por LAVOISIER e o aparecimento da química.

As doenças eram entidades mágicas, misteriosas, consideradas, a maior parte das vezes, castigos divinos que era preciso tratar com contravenenos, panaceias ou antídotos universais. Um dos mais célebres destes antídotos é o Mitridaticum (3), que, mais tarde, evoluiu e se passou a chamar Triaga ou Teriaga (4).

Os minerais também eram utilizados, desde a Idade Média, com fins terapêuticos (5). Além das pedras preciosas e semipreciosas, havia o bezoar (palavra que se utiliza na medicina actual para designar concreções de substâncias não digeridas que se acumulam no estômago) e que teve uma importância na história da medicina. A palavra, de origem persa bâd-sahr, significava antídoto para venenos e era uma concreção calcária produzida no segundo estômago de alguns ruminantes asiáticos. Acreditava-se que esta pedra era eficaz na cura de algumas doenças, tais como a melancolia e a epilepsia. A pedra era reduzida a pó e dissolvida em vinho, que era tomado, na forma de bezoártico. Devido às suas qualidades mágicas e pretensamente curativas, o bezoar era extremamente valioso e oferecido como prenda principesca (6), tendo sido largamente utilizado por JOÃO CURVO SEMEDO, que o receitava contra as «febres malignas e venenosas», quando as febres não cediam aos outros remédios, ou quando, como refere: « a malignidade peccar sómente na qualidade oculta» (7). Digna de nota é esta hipálage - a febre peca - traduzindo a ideia que a doença tem origem pecaminosa, bem como a sua origem oculta, denotando, evidentemente a influência, na Medicina, dos conceitos da alquimia.

A doença, entendida como entidade autónoma, expressa por uma semiologia própria, surgiu, por esse altura, com Van Helmont. Este desenvolveu a visão ontológica ou parasitológica da doença, tendo aberto o caminho para o diagnóstico clínico, para a etiologia e para a anatomia patológica. Recordemos que, na Antiguidade, a doença não tinha um significado real. A atenção do médico voltava-se para o indivíduo doente e via-se a braços com um amontoado de queixas e sintomas, sobre os quais tinha pouca capacidade de discernir. A ideia de doença, como entidade exterior, que toma conta do indivíduo e o destrói, é uma concepção moderna, bem como a actual nosologia (classificação das doenças) (8).

Deste facto JOÃO CURVO SEMEDO, que fala de febres, ocultas, malignas, venenosas, bexigas, sarampos, febres vermelhas, fluxos, fluxos uterinos, fluxos involuntários de sémen, flatos, ventosidades, supressões de urina, hidropisia, lombrigas, acidentes uterinos, paralisias, estupores, faltas de respiração e sufocação, icterícia, enfim, quadros semiológicos confusos, nos quais reconhecemos síndromas e doenças.

As condições de higiene, nesse tempo, também eram bastante precárias. Só na segunda metade do séc. XVIII é que os médicos voltarão a receitar os banhos e as lavagens.

Do livro Observaçoens Medicas Doutrinaes, ROLANDO MOISÃO (9) faz a transcrição de um poema, que lhe foi dedicado, escrito originariamente em latim:

«Tão douto, claro e suave

Escreveis, ó Grão Semedo,

Que só com vos ler, bem podem

Cobrar saúde os enfermos.

Milagres fazeis maiores

Que Hipócrates e Galeno,

Que eles curavam os corpos

Mas vós os entendimentos».

 

(1) LYONS/PETRUCELLI, História da Medicina, tradução MARIA JOÃO DA COSTA PEREIRA, Farmapress Edições, Lisboa (original editado pela Harry N. Abrams, Incorporated), Volume I, pgs. 63-67.

(2) TAVARES DE SOUSA, Curso de História da Medicina, Das Origens ao Século XVI, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1996, pgs. 160-161.

(3) A. TAVARES DE SOUSA, Op. cit., pg. 56.

(4) MARTIN MÁDL, Op. cit., pg. 56.

(5) MAURICE TUBIANA, Op. cit., pgs. 56- 57.

(6) Existem exemplares de destas misteriosas ornamentadas de ouro e pedras preciosas, dois dos quais no Kunsthistorisches Museum, em Viena, um colocado num anel de ouro, rodeado de esmeraldas, repousa sobre um pedestal de três leões de ouro; quatro fitas, ornadas de esmeraldas seguram o bezoar, que é encimado por uma coroa de esmeraldas (ROTRAUD BAUER, Kunsthistorisches Museum, Verlag Christian Brandstätter, Viena, 1988, pg. 169). Outro destes objectos foi transformado em taça de esmalte dourado, objecto artístico de grande qualidade, assinado por JAN VERMEYEN (Bruxelas, 1559-1606) pertenceu ao Imperador RUDOLFO II, que, no final da sua vida, tinha medo de ser envenenado. O bezoar era então considerado dez vezes mais valioso que o ouro (ROTRAUD BAUER , Op. cit., pg. 209).

(7) JOAÕ CURVO SEMMEDO, Op. cit., pg. 10.

(8) WALTER PAGEL, apud PEDRO LAIN ENTALGO in Historia Universal de la Medicina, Volume IV, Salvat, Barcelona, 1972, pg. 265.

(9) ROLANDO MOISÃO, A Biblioteca Histórica da Ordem dos Médicos, Celom, Lisboa, 2001, pg. 41.

Publicado em Medicina na Beira Interior, Da Pré-História ao Século XXI, Cadernos de Cultura, Nº 18, Novembro de 2004, Castelo Branco, pp. 53-57.

 




 



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