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MARIA DO SAMEIRO BARROSO
JOÃO CURVO SEMEDO - EM BUSCA DA QUÍMICA DA VIDA

JOÃO RUI PITA reforça a ideia de que JOÃO CURVO SEMEDO estaria bastante actualizado, em relação aos progressos do seu tempo, pois há sinais de que conheceria o Cours de Chimie de LÉMERY, autor que nunca foi traduzido em Portugal (1). As mezinhas de JOÃO CURVO SEMEDO foram vendidas até ao século XIX. Durante este século foram possíveis as grandes conquistas da ciência e a química destronou definitivamente a antiga alquimia. Às grandes obsessões sucederam-se as pequenas conquistas, o método experimental, o nascimento do método científico que acabaram por pôr termo à busca da pedra filosofal, ou ao elixir da eterna juventude.

No século XVII, MORGAGNI (1682-1771) , não sendo o primeiro a praticar autópsias, foi o primeiro que as realizou sistematicamente, em busca das lesões responsáveis pelas doenças (2). O corpo vai-se libertando da esfera do sagrado e começa a ser estudado e entendido e a ideia de finitude, inerente ao destino humano começa a impregnar a existência, em vez de a protelar para o além. O enfraquecimento das crenças religiosas permite uma abordagem positivista da vida. No século XVIII, obras como o Don Giovanni de MOZART, as obras do Marquês de Sade ou o lirismo de HÖLDERLIN e dos românticos alemães assinalam a alteração que se verifica entre o homem e o seu destino (3). A magia existe, continua a existir mas é já encarada de outra forma, tal como já referia NOVALIS, no final do século XVIII:

«A magia: é a arte de utilizar, à nossa vontade, o mundo dos sentidos.» (4).

Outro Poeta, FRIEDRICH SCHILLER (5), contemporâneo e amigo de GOETHE, o único, dos autores clássicos, com formação médica (6), com os pés bem assentes na terra, no final do poema An die Freunde (Aos amigos), refere-se à fantasia, como a única coisa que não envelhece:

«Tudo se repete no decurso da vida,

Jovem eternamente é só a fantasia,

Só o que nunca, em lugar algum aconteceu,

É que não envelheceu, um dia.» (7).

A imortalidade continua a viver, em nós, através da arte, juntamente com a certeza, de resto bem antiga, da nossa finitude. Na primeira epopeia suméria, GILGAMESH partira em busca da imortalidade, que encontrou, na forma de uma planta, mas acabou por a perder, aceitando, simbolicamente, a sua finitude. Na Odisseia , essa imortalidade é oferecida a ULISSES pela deusa CALÍOPE, mas este recusa-a, preferindo PENÉLOPE, assumindo, também o seu destino humano e mortal (8).

No mundo moderno, ficou-nos a linguagem poética, para representar a complexidade da vida e da morte. Para os olhos de um poeta, o corpo e o mundo continuam a ser um espaço de magia e descoberta.

Fiquemos pois com JOÃO CURVO SEMEDO e a sua Polianteia que, desactualizada e desvirtuada pelos actuais filtros terapêuticos, ainda funcionou, para nós, como um poderoso elixir poético, desdobrado entre metáforas puras, fórmulas ingénuas, refazendo um mundo, um universo mágico, repleto de metáforas perdidas, trazidas de um tempo irreal.

(1) JOÃO RUI PITA, História da Farmácia, Minerva, Coimbra, 1998, pg. 16o.

(2) MAURICE TUBIANA, Op. cit., pg. 151.

(3) MAURICE TUBIANA, Op. cit., pg. 153 .

(4) In Fragmentos de Novalis, Assírio & Alvim, Selecção, tradução e desenhos de RUI CHAFES, Lisboa, 1992, pg.44 .

(5) FRIEDRICH SCHILLER (1759-1805) foi cirurgião militar, ao serviço do príncipe Karl Eugen, em Stuttgart, antes de se dedicar à literatura (CLAUDIA PILLING, DIANA SCHILLING, MIRJAM SPRINGER, Friedrich Schiller, Rowohlt Taschenbuch Verlag, Hamburg, 2002, pg. 18).

(6) Segundo ERNST LAUTENBACH, SCHILLER encarava a Medicina como um sistema filosófico e , ao pensar o homem como um todo, anteviu a Medicina psicossomática, dois séculos antes de esta vir a ser equacionada (ERNST LAUTENBACH, Lexicon Schiller Zitate aus Werk und Leben, Iudicium Verlag Gmbh, Munique, 2003, pg. 7).

(7) «Alles wiederholt sich nur im Leben,

Ewig jung ist nur die Phantasie,

Was sich nie und nirgends hat begeben,

Das allein veraltet nie!»

(Tradução nossa).

(FRIEDRICH SCHILLER, Sämtliche Gedichte , Insel Verlag, Frankfurt, 1991, pg. 519).

(8) Sobre este assunto ver NUNO SIMÕES RODRIGUES, Ulisses e Gilgamesh, Actas do Congresso "Penélope e Ulisses", Associação Portuguesa de Estudos Clássicos, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2002.

Publicado em Medicina na Beira Interior, Da Pré-História ao Século XXI, Cadernos de Cultura, Nº 18, Novembro de 2004, Castelo Branco, pp. 53-57.

 




 



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