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CECÍLIA BARREIRA (UNL)

"O Fulgor É Móvel",
de José Augusto Mourão

 

 

 

 

 

 

 

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO
O FULGOR É MÓVEL
Em Torno da obra de
Maria Gabriela Llansol
Roma Editora, Lisboa, 2004

José Augusto Mourão é um ensaísta de fulgurante veia. Nota-se em toda a sua vasta obra de pendor fortemente filosófico. Ora sendo eu uma crítica literária mais ao nível das ideias sociais e sociológicas do que da filosofia, muito do que possa escrever sobre JAM, será sempre redutor.

Mas convenhamos: só filósofos podem ler outros filósofos? Só sociólogos se entendem com outros sociólogos? Penso que poderá haver questões transversais a diferentes domínios do saber.

Maria Gabriela Llansol é uma escritora que não se lê de uma vez só. Tem de se ler, e tresler, porque não é de fácil entendimento. Penso aliás que os filósofos têm a ver com essa escrita elaborada e densa.

A obra divide-se da seguinte forma: "Figuras da metamorfose na obra"; "Onde vais, drama poesia"; "Os lugares da utopia"; "O texto-viagem-comum"; "Literatura e comunicação"; "O corpo das Comunidades"; "Utopias da linguagem"; " Teoria da Litaratura sentada sobre o dicionário"; "Notas sobre o Parasceve"; "Batendo a uma parede do lado da rua". Temos ainda um posfácio e "Maria Gabriela Llansol retrato de um legente".

A escrita de JAM é poética e filosófica simultaneamente, algo críptica para o leitor comum. Mas há passagens admiráveis que nos remetem para os lugares preferenciais de Llansol: "O desejo, liberto do espartilho da psicanálise que o trata como "falta", conduz, produtivamente, para associações novas, simbioses, reinos diferentes; estas passagens para o outro são devires: devir-mulher, criança, animal, planta, fundir-se nos elementos ou tornar-se imperceptível" (p. 179).

Llansol não tem uma escrita linear que contorne um conteúdo específico de pensamentos. É um trilho quase poético de afirmações que se desenrolam numa vibrante mutação. Porque, e aqui encontra-se um crítica forte à dominância comum, "é uma escrita até agora escondida e não canónica - tudo conspira para fazer deste mundo um lugar seguro, para conservar o património, para rentabilizar, para assegurar os circuitos da mesmice" (p. 181).

A "mesmice" também é configurada na dificuldade de certos receptores aderirem a esta escrita, "para quem perdeu a sensibilidade à escrita do diverso".

Depois há a sensatez dos sábios: "Ler não é ver. Os livros são silenciosos, só a escrita fala, se ouve. Ler é emaranhar-se pelos braços do rio adentro" (p. 182).

Escrita notável que entreabre a obra de uma escritora polémica, que quase toda a nossa intelectualidade diz que lê, mas cujos contornos mais recônditos são afinal desconhecidos. E que, como professora da área da literatura e da cultura portuguesas, sei que os alunos das humanidades pura e simplesmente ignoram o nome e a obra de Maria Gabriela Llansol.

Era bom que mais ensaios deste género fossem publicados para projecção de escritores de grande qualidade, ignorados como são pelos media e pelo sistema da "mesmice" em que nos enquadramos.

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Nota do TriploV
Alguns textos que integram o livro estão em linha. Veja o directório de JAM: http://triplov.com/semas
 

CECÍLIA BARREIRA é actualmente Professora de Cultura Contemporânea na Universidade Nova de Lisboa. Dedica-se ao ensaísmo e à poesia. Algumas obras publicadas: "História das Nossas Avós", 1994; "Salazarismo e outros ismos" 1997; "Ensaios Vários" I, II,III, 2003/2004. Encontra-se de momento numa linha de investigação no Instituto de Estudos Portugueses da UNL, no domínio dos universos do feminino.

 
   
   

 

 

 


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