JÚLIO CONRADO
Pedro & Afonso
O nosso Romeu
O rei verdugo
O REI VERDUGO
Ao actor João Vasco, um bravíssimo “Afonso IV”

O que imploraste ouviu-o o rei tirano
como apelo ao gesto soberano
só ao alcance de quem tem compaixão
não preenchendo ele a condição.
 
Diz-se que vacilou: que não se quis vilão
no momento de a História lhe fixar o alarde
deixando ao arbítrio dos lestos matadores
a solução final. Mas era tarde.

A História já tomara a decisão
de fazer do vencedor do Mouro
carrasco da mulher
mãe dos seus netos.

Do último choro e das lágrimas de sangue
com que as paixões se cobrem
quando as retalham a golpes de punhal
brotou a lenda do teu nome mártir.

Sujas as mãos do  “Bravo”
de nada lhe valeu culpar os sequazes.
A Memória, primando no ofício,
coroou, generosa, o sacrifício.

O “Bravo” rei verdugo, íntimo da dor
desconhecia na força do amor
algo mais alto que do Estado o rito.
Hoje ninguém lembra o vencedor do Mouro
hoje ninguém esquece o fundador do mito.

Tu, a de colo de garça, resplandeces
todos os dias
não só na pedra trabalhada
como nos pensamentos dos amantes.

O autor moral
cumpre degredo eterno
por cortesia de um inferno
de brandos costumes para os reis.
Tinha, ao morrer, o coração no sítio
imerecidamente.

 

                                                                   2006

 

 

 

 




 



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