CUNHA DE LEIRADELLA

A SOLIDÃO DA VERDADE

ROMANCE

II PARTE - A SOLIDÃO

Dois

"Andréa Marcondes Campanella, 19 anos, solteira, candidata a recepcionista bilíngüe. Idiomas: fluência em inglês e italiano, com conhecimentos básicos de francês e de espanhol. Ótima apresentação. Não tem experiência hoteleira, mas sugiro admissão imediata. Ferraz, gerente da Recepção."

O memorando do Sr. Ferraz era preciso e não deixava nenhuma dúvida. A candidata merecia ser entrevistada. Reli a primeira frase. Andréa Marcondes Campanella, 19 anos, solteira, candidata a recepcionista bilíngüe. Parei de ler e murmurei as palavras, cadenciando as sílabas como se solfejasse uma pauta musical, e, de repente, elas pareceram criar vida e começaram a dançar em cima do papel. Assustado, fechei os olhos e agarrei os braços da cadeira. Estava bem e estava calmo, e não havia motivo para aquele descompasso. Respirei fundo e abri os olhos, e olhei o memorando. As palavras já não dançavam e estavam alinhadas. Andréa Marcondes Campanella, 19 anos, solteira, candidata a recepcionista bilíngüe. Acendi um cigarro e puxei uma tragada. Tinha certeza que estava bem e estava calmo, e só podia ser um mal-estar passageiro. Nada a ver com o memorando do Sr. Ferraz ou com a candidata. Não a conhecia e a entrevista seria apenas mais uma das muitas que já tinha feito no Mangabeiras Palace Hotel.

Gostava do Sr. Ferraz. Já tinha trabalhado com muitos gerentes de Recepção, mas ele foi o único que ficou meu amigo. Puxei uma tragada e lembrei da nossa primeira conversa, há três anos, nesta mesma sala, eu recém-nomeado gerente geral e procurando conhecer a estrutura informal do hotel, e ele tentando justificar a aparência e o comportamento do pessoal da Recepção. Sete homens de terno preto e gravata-borboleta, mais solenes e circunspectos do que agentes funerários num enterro.

- O senhor me desculpe, Sr. Eduardo, eu sei que o senhor é uma pessoa muito viajada, mas Belo Horizonte não é o Rio de Janeiro, não. Mineiro não gosta de novidade, não, Sr. Eduardo. Eu tou neste hotel desde que ele foi inaugurado, isto já lá vão quase trinta anos, fez vinte e nove mês passado, e tem coisas aqui que ainda são daquele tempo. E funcionam, o senhor entende? Mineiro, e eu digo isto porque também sou mineiro e vejo por mim, mineiro não é muito de mudar, não. O senhor quer ver? O Mangabeiras foi o primeiro grande hotel de Belo Horizonte, foi até o presidente Juscelino que inaugurou a suite presidencial, e ainda hoje temos hóspedes que tão aqui desde aquele tempo, o senhor entende? Pessoas finíssimas, que só tão aqui porque o Mangabeiras ainda continua do mesmo jeito. E não é só isso, não. Pro senhor fazer uma idéia, os senadores, os deputados, todo aquele pessoal de Brasília, quando vem pra Belo Horizonte, só vem pro Mangabeiras. O senhor precisa de ver este hotel quando tem convenção de político. Tudo assim, ó, o senhor precisa de ver. Por isso é que eu sempre digo, e tou dizendo agora pro senhor, a gente não pode mudar o Mangabeiras, não, Sr. Eduardo. Por exemplo, eu não tenho nada contra homem de barba ou de bigode, não, mas, e isso eu aprendi com o senhor Romanelli, que foi o primeiro gerente geral do Mangabeiras, numa Recepção como a nossa, a gente não pode bobear, não. Quer usar barba ou bigode, acha bonito, vai trabalhar noutro lugar. Eu sei que no Rio de Janeiro é outra coisa, mas eu duvido, o senhor me desculpe, eu nunca estive no Rio de Janeiro, mas eu duvido que lá tenha um hotel igual ao nosso. Com a tradição que o nosso tem, o senhor entende? Por isso é que eu digo pro senhor, esse negócio de admitir moças pra trabalhar na Recepção não serve pro Mangabeiras, não, Sr. Eduardo. O senhor já pensou um desses hóspedes que tem agora, de repente, um deles se engraçar com uma moça da Recepção, ou, então, a moça se engraçar com ele, sim, porque nos tempos de hoje tudo pode acontecer, por mais que a gente fiscalize a gente nunca sabe o que tá na cabeça das pessoas, o senhor já pensou na desgraça que ia ser? Talvez até tenha algumas coisas por aí que possam ser mudadas, não digo que não tenha, não, mas botar moças na Recepção, conforme o senhor tava falando, o senhor me desculpe, Sr. Eduardo, mas isso eu não concordo, não. O senhor já pensou, à noite essas moças subirem pros apartamentos dos hóspedes, a vergonha que ia ser? Eu não tenho nada contra essas coisas de mulher trabalhar igual a homem, graças a Deus não sou casado, não senhor, mas tudo tem o seu lugar, o senhor entende? Quer fazer o que não deve, vai prum motel, não faltam motéis por aí, o senhor não concorda comigo, não?

- Não, Sr. Ferraz. Não concordo, não.

Mesmo discordando, levei meses para convencer o Sr. Ferraz que não seriam as recepcionistas que transformariam o Mangabeiras Palace Hotel num puteiro. O Sr. Ferraz era uma excelente pessoa, não se importava de chegar de madrugada ou de dormir no hotel, ou até de varrer a própria Recepção, mas jamais sonhara contradizer as normas da fundação do Mangabeiras. E elas eram claras. Mulheres só no Centro Telefônico, na Lavanderia, na Rouparia, na Governança e no Escritório. Na Recepção, só homens. Sem barba e sem bigode, e de terno preto e gravata-borboleta.

Assumi a Gerência Geral em agosto de 1988 e só em dezembro o Sr. Ferraz admitiu a primeira recepcionista. E, mesmo assim, só em caráter experimental. Foi admitida no horário da manhã e, naquele mês, o Sr. Ferraz não tirou nenhuma folga. O comportamento e o trabalho eram analisados passo a passo e o Sr. Ferraz não saía da Recepção, nem para tomar café ou almoçar, sempre atento ao que ela fazia e dizia, e ao que os colegas e os hóspedes diziam dela. Nunca me falou nada, nem eu lhe perguntei, mas, quando venceu o primeiro período do contrato de experiência, a batalha estava ganha. O Sr. Ferraz entrou na minha sala e, pela primeira vez em meio ano de convivência, acendeu um cigarro na minha frente.

- Sr. Eduardo, se o senhor permitir, vou prorrogar o contrato de D. Maria Lúcia. O senhor acredita que até os hóspedes mais antigos me procuraram e disseram, Ferraz, até que enfim o Mangabeiras tomou jeito? Assim mesmo, Ferraz, até que enfim o Mangabeiras tomou jeito. E o senhor precisa de ver o tanto que D. Maria Lúcia tem recebido de flores. Sr. Eduardo, se o senhor permitir, eu vou mudar a Recepção. Ah, vou. Vou mesmo. Quando D. Maria Lúcia ficar cem por cento, admito outra moça pra ficar junto com ela, e, logo, logo, vou procurar mais duas pro turno da tarde. E se me aparecer uma que queira trabalhar de noite e mais uma de tornante, e o senhor concordar, eu troco tudo, Sr. Eduardo. Troco mesmo.

O Sr. Ferraz, do mesmo modo que passara quase trinta anos convencido que o Mangabeiras Palace Hotel não podia ser mudado, era, agora, o maior defensor de mudanças. Pediu que eu entrevistasse também as candidatas e desse um parecer, mudou os uniformes, ele próprio deixou de usar gravata-borboleta e transformou a Recepção. A satisfação era tanta que, sempre que algum dos hóspedes mandava um buquê de flores às recepcionistas, ele fazia questão de o expor no balcão como se fosse um troféu. E a experiência profissional, antes condição sem a qual as fichas não eram sequer consideradas, até ela deixou de ser analisada.

- Sr. Eduardo, se o senhor me permite, experiência é bobagem. Na Recepção é bobagem. O que é bom pros outros não é bom pra nós, e quem é bom é bom, e tá acabado. O importante é a pessoa ter potencial, o resto a gente ensina. O senhor não concorda comigo, não?

Concordei. E foi aí que o Sr. Ferraz ficou meu amigo. As mudanças iniciadas por ele estenderam-se a todas as áreas do hotel. Os setores deixaram de ser estanques e os chefes passaram a solicitar funcionários uns aos outros. Sempre que um cargo ficava vago, era feita uma chamada interna, ao invés de se admitirem novos funcionários, como sempre fora feito. Com isso, o quadro de pessoal diminuiu e os salários aumentaram, e o ambiente melhorou. A Matriz enviou um memorando, felicitando a Gerência Geral, e eu anexei outro, parabenizando todo mundo, e mandei afixar os dois no quadro de avisos da Portaria de Serviço. O Sr. Ferraz sorria, como se tivesse ganho um prêmio, e dizia a todo mundo que o sucesso tinha começado com ele, na Recepção.

- Sr. Eduardo, é como diz o outro, quando a gente quer, a gente faz, o senhor não concorda comigo, não?

Reli o memorando e a solicitação de emprego da candidata, e chamei D. Beth. D. Beth estava no Mangabeiras há cinco anos e tinha sido secretária do gerente anterior. Tinha trinta e cinco anos e era solteira, e fazia questão que todos soubessem que era taquígrafa e formada em Administração de Empresas. Não era bonita, mas era eficiente e não atrapalhava a minha vida particular. Por isso, não a troquei.

- Como é ela, D. Beth?

- Bonitinha. Bonitinha, mas vulgar, Sr. Eduardo.

Não respondi e D. Beth olhou-me durante alguns instantes, como se quisesse mergulhar no significado mais profundo do meu silêncio.

- É. Bolsa de pano, calça jeans, tênis, essas coisas.

D. Beth tinha quatro paixões. Vestir-se como se o trabalho fosse uma recepção de casamento, ler todos os romances que falassem sobre a sociedade VIP de Nova York, cidade que ela não conhecia mas adorava, comprar livros de auto-ajuda e de dieta, e esmiuçar as colunas sociais. D. Beth lia todas. De todos os jornais que circulavam no hotel. Olhei outra vez a solicitação de emprego. Esferográfica verde e caligrafia firme, sem floreados.

- Boa aparência?

- É como eu disse pro senhor. Calça jeans e tênis.

Olhei o tailleur de D. Beth e sorri. Para D. Beth, jeans não significava apenas falta de gosto, era também falta de educação.

- Mande entrar, por favor.

Esmaguei o cigarro no cinzeiro e ajeitei os papéis na mesa, e D. Beth trouxe a candidata.

- Obrigado, D. Beth.

D. Beth não respondeu. Saiu e fechou a porta. Olhei a moça. O memorando do Sr. Ferraz dizia tudo. Mas não foram as aptidões profissionais que me fizeram gastar o tempo que gastei na entrevista. Foi ela. Quando a vi parada junto da porta, me olhando e sorrindo, foi como se uma mola, de repente, tivesse disparado as minhas pernas. Levantei-me sem pensar e fiquei duro, sem ação. Nunca na minha sala tinha entrado uma mulher como aquela. Tão à vontade e tão exuberante. Não sei se ela notou o meu espanto. Mas, se notou, não pareceu surpreender-se. Ajeitou a alça da bolsa de pano no ombro e sorriu e cruzou os braços, e o sutiã estofou o tecido branco e quase transparente da blusa e os seios, grandes, cheios e muito brancos, apareceram no decote. Engoli em seco e um arrepio desceu pela espinha. Ela continuou sorrindo e rodou a cabeça. Com o movimento, o cabelo esvoaçou. Era liso, muito comprido e cor de cobre, e caiu sobre os ombros como um véu. Ela ergueu os braços e ajeitou-o, e os seios levantaram. Senti a garganta apertar e as palmas das mãos umedeceram, e os ouvidos começaram a zumbir. Apoiei as mãos na mesa e respirei fundo, e ela deu dois passos e encostou-se na cadeira. Quis dizer-lhe que se sentasse, mas a voz não saiu da garganta. Pigarreei e fiz um gesto, e ela sentou-se e colocou a bolsa na mesa. Ajeitou-se na cadeira e cruzou as pernas, e as calças marcaram as coxas, junto das virilhas. Sentei-me devagar, com medo que ela pudesse escutar os estalidos dos meus ossos. Cruzei as mãos na mesa e respirei fundo, e, sem querer, olhei o memorando e lembrei das palavras dançando em cima do papel. Será que tinha sido mesmo premonição ou eu não estava tão bem, nem tão calmo como pensei que estivesse?

Antes que as palavras dançassem outra vez, desviei os olhos do memorando e olhei-a. Ela ainda me olhava e sorria, e os seios levantavam a cada inspiração. Não sei como, nem por quê, mas a pergunta bateu de repente. E se aqueles seios também começassem a dançar? Assustado, fechei os olhos. Tinha a boca seca e a garganta apertava e os ouvidos zumbiam, e sabia que ainda não podia articular nenhum som. Mas também não havia muito que dizer. Nem que dizer, nem que pensar. O Sr. Ferraz queria uma recepcionista bilíngüe e eu queria continuar olhando aqueles seios. A contratação estava feita.

Aliviado, respirei fundo e abri os olhos. Ela continuava sorrindo e olhando para mim. Senti a pele do pescoço grudar no colarinho e afrouxei a gravata. Sempre tive dificuldade em falar com as pessoas. Nunca sabia o que dizer e tinha medo que elas percebessem. Mas, naquele momento, o importante não era mais o meu medo. O importante era ela continuar ali na minha frente e eu poder olhar aqueles seios. Peguei a solicitação de emprego, mas nem a li. Não precisava. O que eu precisava era descontrair a garganta e pensar em assuntos que a obrigassem, se possível, a ficar na sala a tarde inteira. Coloquei a solicitação de emprego na mesa e olhei-a, e ela ajeitou-se na cadeira e cruzou as mãos no colo. Comprimidos pelos braços, os seios uniram-se e dobraram de tamanho. Senti um estalo na nuca e um calor repentino subiu pelas virilhas. O Sr. Ferraz precisava de uma recepcionista bilíngüe e eu precisava tirar o sutiã daqueles seios. Respirei fundo e pigarreei com força.

- A senhorita já conversou com o Sr. Ferraz, certo?

- Já sim, senhor.

- E ele já lhe deu uma idéia do serviço.

- Já sim, senhor.

Faz uma pausa, sorri e inclina a cabeça sobre o ombro.

- E o senhor sabe? Do jeito que ele falou, o serviço é fácil, fácil. Basta conversar com as pessoas, não é, não? E eu adoro conversar com as pessoas, o senhor sabe? Adoro mesmo.

Cala-se e passa as mãos na nuca, e levanta o cabelo. Os seios erguem-se e estofam o sutiã. A garganta aperta e engulo em seco, e penso acender um cigarro. Mas as mãos tremem e não quero que ela note. Respiro fundo e olho o calendário, e as palavras e os números parecem saltar na minha frente: quarta-feira, 31 de julho de 199l. Olho o relógio e os ponteiros também parecem saltar no mostrador: 2 horas, 18 minutos e 27 segundos, exatamente.

- Hoje é quarta-feira, dia 3l. Que tal a senhorita começar na segunda-feira, dia 5?

Ela debruça-se na mesa e os seios saltam do decote.

- Quer dizer que eu tou contratada mesmo, é?

Sorri e recosta-se na cadeira, e eu não sei mais o que fazer. Tenho certeza que notou a minha confusão e um calor intenso me queima as faces e as orelhas. Passo as mãos no rosto e respiro fundo, e penso na melhor forma de ganhar tempo. Olho o maço de cigarros e acendo um, e puxo uma tragada profunda. Fecho os olhos e tento imaginar como seriam aqueles seios, se ela tirasse a blusa e o sutiã, e eles ficassem soltos, abanando. Abro os olhos e ela sorri e aponta o meu maço de cigarros.

- Posso pegar um?

- Mas claro.

Acendo o cigarro e ela puxa uma tragada profunda.

- Obrigada.

Puxa outra e fecha os olhos, como se estivesse degustando um vinho de boa safra, e puxa mais outra, com o mesmo prazer e a mesma sofreguidão. Apago o meu cigarro e coloco o cinzeiro na frente dela, e peço a Deus que me ajude. O importante, agora, é que ela não se levante e vá embora.

- Toma um café?

Ela abana a cabeça.

- Odeio café.

- Odeia café? Mas você fuma...

- Adoro fumar. Adoro fumar, adoro cerveja e adoro vinho. Adoro mesmo.

Bate o cigarro no cinzeiro e sorri.

- Quando é bom.

Respiro fundo, satisfeito, e, ao mesmo tempo, espantado por me sentir tão à vontade, e ela puxa duas tragadas profundas e seguidas, e esmaga o cigarro no cinzeiro. Todos os seus gestos são rápidos, como se tivesse um tempo determinado para fazê-los e fosse importante fazê-los dentro desse tempo. Descruza as pernas e alisa as calças nas coxas, e ajeita-se na cadeira.

- É difícil encontrar alguém que goste de vinho, o senhor sabe? O meu pai era italiano e lá em casa a gente sempre tomava vinho...

- Tem uma atriz italiana que eu gosto muito.

Ela ri.

- É mesmo? E eu conheço?

- Chama-se Stefania Sandrelli, e parece muito com você.

Ela inclina-se sobre a mesa e os seios saltam do decote.

- Que barato.

Aperta os braços e os seios aparecem ainda mais, e a minha garganta começa a formigar.

- Ela parece comigo mesmo? De verdade?

Os meus olhos estão fixos nos seios e ela sorri e levanta as mãos, e joga o cabelo sobre a testa.

- É no cabelo que parece?

Não respondo e ela ri, e ajeita o cabelo.

- Sabe o quê que meu pai dizia? Ele dizia que a diferença entre as italianas e as brasileiras, era que as brasileiras não falavam italiano.

Cala-se e acena com a cabeça.

- Mas eu adoro vinho, sabe? Adoro mesmo.

- Eu também.

Ela olha-me e sorri, e ajeita-se na cadeira.

- É mesmo? Que barato. E na terra do senhor tem vinho?

- Claro que tem. Em Portugal tem muito vinho.

- E o senhor tem fazenda que tem vinho?

- Minha mãe que toma conta, lá na Serra da Estrela.

Ela passa as mãos no cabelo e joga-o pelos ombros.

- Deve ser um barato. Ter uma fazenda e ter vinho, deve ser um barato.

Cruza as pernas e ajeita-se na cadeira, e as coxas parecem rebentar as costuras das calças.

- E a sua esposa? Também é portuguesa?

- Eu sou solteiro.

- Solteiro? Eu não acredito.

- Não acredita? Não acredita por quê?

- Porque...

Cala-se e olha-me, e cruza as mãos no colo. Depois, lentamente, fecha os olhos. Não sei por que fechou, mas gostei. Parece um abandono e me faz sentir ainda melhor. Estou bem e estou calmo, e a conversa me deixa cada vez mais à vontade. É uma mulher bonita. Bonita, realmente. E, além de bonita, exuberante. Não usa batom ou qualquer outra maquiagem e a pele do rosto é branca e fina, e os lábios são vermelhos e úmidos. As sobrancelhas são louras e contrastam com as pálpebras e as olheiras ensombreadas. Debruço-me na mesa, para olhá-la mais de perto, e ela abre os olhos e parece dizer, desculpe. Não respondo, e ela endireita-se na cadeira e abre a bolsa, e pega um maço de cigarros. Marlboro, de caixinha. Olho o meu maço de Benson e decido mudar para Marlboro. Nunca fumei Marlboro, mas tenho certeza que será muito mais gostoso do que Benson. Ela pega um cigarro e coloca-o na boca, e eu acendo-o. Ela agradece e puxa uma tragada profunda, e sopra o fumo com força, pelo nariz e pela boca.

- Você fuma sempre assim?

Ela guarda o maço na bolsa e acena com a cabeça, e o cabelo espalha-se pelo rosto. Recosta-se na cadeira e ajeita-o, e puxa outra tragada.

- Adoro fumar. Adoro mesmo.

Puxa mais uma tragada e olha-me. Os olhos são grandes e marrons, e, de repente, parecem brilhar mais.

- São poucas as coisas que eu gosto. Mas quando gosto, gosto mesmo.

Foram horas de conversa. Ela rindo, com um jeito especial de rir, como se degustasse o próprio riso, os lábios arredondando-se e a língua aparecendo entre os dentes, e, de repente, o riso explodindo e a cabeça e os seios balançando, acompanhando as gargalhadas. Eu estava bem e estava calmo, nunca tinha estado tão bem nem tão calmo, e só não queria que a conversa terminasse. Mas, eu sabia, infelizmente o momento de terminar chegaria. Já tínhamos falado da cor de cobre do cabelo, pintado com Majirel 7.46, já tínhamos falado do meu signo que, eu não sabia, era Escorpião e cheio de problemas, e do signo dela, que era Câncer e cheio de esperanças, e, de repente, para meu espanto, no meio de uma gargalhada, ela pára de rir e, num gesto repentino, fecha os olhos e finca as mãos nos braços da cadeira. Fica assim algum tempo e eu não sei o que fazer, e a minha garganta aperta e os ouvidos começam a zumbir. Debruço-me na mesa, assustado, e peço a Deus que ela não se levante e vá embora.

- Andréa...

Ela não responde e a minha garganta aperta mais.

- Me desculpe. Eu não...

Os ouvidos parecem colméias de besouros e, de repente, ela cobre o rosto com as mãos e abana a cabeça com força. Depois de algum tempo tira as mãos do rosto e olha-me, e ajeita-se na cadeira.

- Nada, não. Só lembrei do meu pai. Odeio lembrar dele.

Ajeita o cabelo outra vez e cruza as mãos no colo. Respiro aliviado. Ainda não sorri, mas, pelo menos, não se levantou nem foi embora.

- Posso fazer uma pergunta?

Ela não diz nada, mas acena com a cabeça.

- Por quê que você fala do seu pai sempre no passado? Ele...

- Ele separou da minha mãe.

Ela não hesita na resposta e a segurança com que fala me confunde. Coloco o cigarro no cinzeiro e olho-a, e a garganta aperta e os ouvidos zumbem outra vez.

- Desculpe. Eu não...

- Tudo bem. Ele só separou da minha mãe e voltou prá Itália.

Pega o meu cigarro e puxa uma tragada profunda. Sopra o fumo com força e puxa outra, e coloca o cigarro no cinzeiro.

- Pra falar a verdade, eu nem sei pra onde ele foi. A minha mãe é que diz que o dinheiro vem da Itália.

Sem saber o que dizer, acendo outro cigarro.

- Desculpe. Eu não devia ter perguntado. Eu...

Andréa ri e aponta o cigarro no cinzeiro.

- Eu também não devia ter roubado o seu cigarro.

Olho o cigarro fumegando e, não sei por quê, a garganta relaxa e os ouvidos param de zumbir.

- Tá melhor com você do que comigo.

- Eu também tou melhor sem o meu pai.

Respiro fundo e sorrio. Se quisesse ir embora já teria levantado.

- Eu também não gostava do meu pai.

- Ele também era italiano?

- Não. Era português.

Ela abana a cabeça com força e ri, como se nada do que aconteceu tivesse acontecido.

- Eu tive um amigo que também era português. De Lisboa. Chamava Eduardo. Eduardo Manuel.

Debruça-se na mesa e os seios saltam do decote.

- Nome bonito, não é, não?

Esmago o cigarro no cinzeiro e penso no quanto desejo tirar aquele sutiã.

- Eu também sou Eduardo.

- O Sr. Ferraz falou. E é Eduardo de quê, hem?

- Da Cunha Júnior.

- Também é um nome bonito.

- Todos os nomes são bonitos. As pessoas é que são feias.

Andréa abana a cabeça e pega o meu maço de cigarros.

Andréa tira um cigarro do maço e acende-o, e puxa uma tragada, rindo.

- Tá vendo? Eu não falei? O senhor não parece gerente de hotel mesmo, não.

Não posso deixar de rir.

- O senhor tá rindo? Mas é verdade, viu? Sabe por quê?

Puxa uma tragada profunda e deixa o fumo sair pelo nariz e pela boca.

- Faz uma semana que eu tou procurando emprego e já conversei com muito gerente por aí. Mas nenhum conversou comigo do jeito que o senhor tá conversando, não. Teve um até que nem quis me receber. E teve outro que me disse que o teste final seria ser feito num motel. Assim mesmo, fofinha, o nosso teste final será feito no motel, tá bom assim?

Puxa outra tragada e sopra o fumo com força, num gesto brusco.

- Me deu uma raiva.

Não sei o que dizer, olhando os seios ainda balançando, e digo a primeira bobagem que me vem à cabeça.

- O importante não é o que as pessoas dizem. O importante é o que elas deveriam dizer e têm medo de dizer. Isso é que é importante.

Ela ri e debruça-se na mesa, e os seios ficam outra vez na minha frente. Grandes e cheios. Pára de rir e olha-me, e balança a cabeça com força.

- Eu sabia. Sabia mesmo. Juro que sabia.

Os seios balançam e entram nos meus olhos, e a garganta começa a formigar.

- Sabia o quê?

- Que ainda ia ser a melhor coisa da minha vida ter passado na porta deste hotel e ter entrado. O senhor não acredita em signos, não, mas o meu signo hoje...

Batem na porta e Andréa cala-se. D. Beth entra.

- Desculpe interromper, Sr. Eduardo, mas estes memorandos têm que ir hoje prá Matriz.

Olha Andréa, debruçada na mesa, e abana a cabeça. Andréa esmaga o cigarro no cinzeiro e levanta-se, e encosta-se no peitoril da janela. D. Beth coloca os memorandos na minha frente. Olho Andréa, os seios estofando o sutiã e o cabelo caído pelas costas e os quadris marcados pelas calças, e comparo-a com D. Beth. Coitada de D. Beth. Apesar do corte impecável do tailleur, o busto nem aparece por baixo da blusa e o cabelo, cortado à la garçonne, nem parece cabelo de mulher. Assino os memorandos e D. Beth sai, e deixa a porta aberta. Andréa bate-a com força e senta-se, e fica olhando pela janela. Não sei o que a fez ficar assim, nem o que pensa, mas não gosto da imobilidade e do silêncio. Parece que, mesmo sem ter saído, já não está dentro da sala. Se pudesse, matava D. Beth.

Andréa fica assim algum tempo e, de repente, começa a coçar o peito com força, por baixo do seio direito. Os dedos parecem garras e enterram na carne, e ela tem os olhos fechados e o rosto contraído, e o corpo está duro e retesado na cadeira. Não sei por que faz isso, mas não pergunto. As minhas mãos, às vezes, também fazem coisas aparentemente sem motivo, e até sem eu querer. Andréa coça durante algum tempo, cada vez com mais força, e mais velocidade, e, de repente, pára e o corpo parece amolecer. As mãos caem no colo e a cabeça inclina-se sobre o peito, e os pés escorregam no carpete. Não sei a causa do mal-estar, mas sei que não está bem, e penso chamar o Dr. Jarbas, no Departamento Médico, mas Andréa recompõe-se. Recosta-se na cadeira e pega o meu cigarro, e puxa uma tragada profunda e sorri, como se nada tivesse acontecido.

- Quando eu tava esperando lá fora, essa senhora só faltou me perguntar se eu cobrava por hora ou por encontro.

Puxa outra tragada e coloca o cigarro no cinzeiro.

- Ô mulherzinha xereta. Nunca vi.

- Não ligue, não. D. Beth é assim mesmo. Mas é boa secretária.

- Boa? Boa é apelido. Ela é um cão de guarda, isso sim.

Volta-se e olha a porta fechada.

- O senhor viu o jeito dela? Viu como ela olhou pra mim? Se ódio desse tiro, eu tava morta.

Ajeita-se na cadeira e cruza as pernas, e o gesto brusco me faz rir.

- O senhor tá rindo?

- Coitada de D. Beth.

- Coitada? Coitada é de mim.

Pega o cigarro e puxa uma tragada profunda, e sopra o fumo com força.

- Essa senhora tá gamada. Gamadíssima.

- D. Beth?

Andréa puxa outra tragada e esmaga o cigarro no cinzeiro.

- É, D. Beth, o cão de guarda.

- Pelo que eu sei, D. Beth é gamada em Nova York.

- Nova York? Essa senhora tá é gamada, fissurada no senhor, isso sim.

Faz uma pausa e estala os dedos da mão direita com força.

- Agora é que eu tou entendendo por quê que ela não foi com a minha cara, putzgrils.

Fala com tanta indignação que não consigo conter o riso.

- O senhor tá rindo? Pois só não vê quem não quer. O senhor quer ver? Quer que eu chame, pro senhor ver?

Olho os seios grandes e cheios de Andréa e comparo com D. Beth.

- Coitada de D. Beth.

- Coitada? Coitada é de mim, isso sim. Essa senhora vai é fazer de tudo pra eu não dar certo aqui dentro, o senhor vai ver só.

Cala-se e endireita-se na cadeira, e olha-me durante alguns instantes.

- Tomara que eu me engane, viu?

Não respondo e Andréa balança a cabeça com força.

- Tomara. Tomara que eu me engane mesmo.

Num gesto brusco, levanta o braço esquerdo e olha o relógio.

- Cinco e meia. Deixa eu ir.

Ditas assim de repente, as palavras atordoam-me e a garganta aperta e os ouvidos começam a zumbir. Sei que, em algum momento, ela teria que ir, mas ainda não quero que vá.

- Escute.

A minha voz quase não sai da garganta, de tão trêmula. Andréa olha-me e abana a cabeça.

- Eu tenho que ir. O senhor me desculpe, mas se eu não for agora, esse cão de guarda ainda é capaz de me morder.

Levanta-se e pega a bolsa.

- Dia 5, então?

Os besouros dos ouvidos parecem ter enlouquecido e a garganta aperta tanto que mal posso respirar. Andréa olha-me e sei que só espera que me despeça, mas não consigo falar. O tempo passa e a garganta aperta mais, e as mãos começam a tremer. Se pudesse, matava D. Beth. Andréa encosta-se na mesa e ajeita a alça da bolsa no ombro.

- É melhor eu ir. Sinceramente.

Fecho os olhos e respiro fundo, e peço a Deus que me ajude. Se Andréa não voltar segunda-feira, dispenso D. Beth. Abro os olhos e Andréa rodeia a mesa, e estende a mão.

- Até segunda, então.

Quero levantar-me, mas não consigo. As pernas estão geladas e tenho certeza que não agüentarão o peso do corpo. Faço um esforço enorme e consigo controlar-me.

- Posso lhe fazer mais uma pergunta?

Andréa sorri e acena com a cabeça, e o gelo das minhas pernas parece derreter-se.

- Por quê que você usou tinta verde?

A mão estendida recolhe-se e Andréa olha-me, como se a pergunta a espantasse.

- Foi errado, é?

- Não. Não. De jeito nenhum. Foi diferente.

A mão volta a estender-se e Andréa volta a sorrir.

- Ás vezes, eu gosto de fazer coisas diferentes.

Faz uma pausa e olha-me durante alguns instantes.

- A vida da gente é muito estranha. Ou a gente faz e se arrepende, ou a gente não faz e se arrepende do mesmo jeito.

Não respondo, não sei o que responder, e Andréa abre a porta e anda em direção ao elevador, e eu fico olhando os quadris, balançando na cadência do andar. Dobra a esquina do corredor e desaparece, e eu sento-me e fecho os olhos, e não são mais os quadris que balançam na minha frente. São os seios. Desde menino que não via, tão de perto, uns seios tão grandes, tão cheios, tão brancos e tão redondos. Abro os olhos e o maço de Benson está bem na minha frente. Amasso-o e jogo-o no lixo, e chamo D. Beth.

- A senhora me manda comprar, por favor, um pacote de cigarros Marlboro, de caixinha. Agora.

 
 
 

Cunha de Leiradella
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