:::::::::Floriano Martins:::::
Bela Humana Raça de Mário Montaut
BELA RAÇA HUMANA: EM QUEM ACREDITAR?

Talvez haja um fascínio acentuado em desvencilhar-se da verossimilhança, esse gesto deliberado de ausentar-se do mundo. Não me refiro a um princípio de abandonar meio e época, como quem escava à procura do essencial. Penso nessa ausência de sinais de vida, que é o revés do largar tudo defendido por Rimbaud ou Almada Negreiros ou Breton. Decerto que o verossímil não é suficiente, não preenche a vida de quem quer que seja. E a arte por vezes parece ser o território sagrado do inverossímil.

O fato é que um artista deve agir sempre contra o espírito de seu tempo, como dizia Milan Kundera de Chopin. Com isto se quer dizer que o grande dilema do artista seria tornar o improvável em provável? Talvez nem lhe passe pela cabeça tal preocupação. Mas se percebe algo bem presente hoje, que é justamente o artista a buscar inserir-se no universo do provável, do aceito, do crível, do verossímil.

Ele se desfaz da idéia de largar tudo e trata de abandonar-se a si mesmo. Dissolve-se em um suposto projeto geral, já não mais de cunho ideológico mas sim inteiramente definido pelo mercado. Ao despersonalizar-se o artista torna-se um alvo fácil nas mãos do espírito de seu tempo.

Quando a arte se encontra tão demarcada por esse plano ilusório de alcance popular, estabelecendo uma condicionante imediata para tal ilusão, é natural que não se perceba a presença de uns tantos abnegados que teimam em recusar a persuasão do que não lhes parece essencial na criação artística. Me parece que neste delicado âmbito é que se pode inserir uma obra absolutamente singular como Bela Humana Raça, de Mário Montaut.

Em uma primeira audição se percebe claramente tratar-se de um musical. Possui uma nítida estrutura teatral, tema central desdobrado, personagens, diálogos, inter-relação entre as peças constitutivas. Poeticamente está afinado pelo diapasão da ironia, uma leitura crítica esmerando-se em um sarcasmo demolidor, que põe o dedo na ferida de um tempo que perdeu de todo a consciência, o entendimento do que seja ético ou não no tratamento básico das relações humanas.

Este seria o eixo central da poética de Mário Montaut. Mas o poeta que sabe arriscar-se a um jogo lúdico que mescla um fabulário tradicional a recortes de jornal, sem deixar-se alheio a pontuações caras à música popular de seu tempo, é o mesmo que se esmera em arranjos musicais que não perdem em momento algum o que disse certa vez Kundera do jazz, deliciosamente salientando que nele "podemos entrever um sorriso que se infiltrou entre a melodia original e sua elaboração". Este sorriso não se mostra sempre como uma enganosa exaltação, mas antes como uma alegria perene, um sentido de entrega ao que se está fazendo, deixando entrever a relação amorosa entre criador e criação.

Montaut tem um controle lúdico desse sorriso. Mesmo ouvindo em separado as 15 peças que compõem Bela Humana Raça é possível perceber-lhe o humor adstringente. E recorre às estruturas musicais como parte essencial dessa idéia de uma transcrição lúdica da realidade, do verossímil, transcrição que não se dá alheia a um registro crítico da mesma. Todo o trabalho se mostra como uma finíssima tessitura irônica, aí incluindo a recorrência a diversos ritmos, como se buscasse, mais do que uma viagem pela diversidade musical, um realce de que estamos nos despersonalizando de qualquer maneira. Um dia o compositor John Cage escreveu: "nossa poesia é a consciência de que não possuímos nada". Sempre achei esse verso suficientemente elucidativo para que entendêssemos em grande parte o blefe desta presente época em que vivemos.

Bela Humana Raça reafirma a idéia valiosa de Cage: "não possuímos nada". Sendo um musical em sua concepção básica, é provável que se mostre algo desatado se apenas ouvido em CD, pois requer um cenário, uma trama, uma dinâmica plástica que decerto lhe daria uma dimensão maior. Contudo, se pode ouvir canções de uma riqueza raramente encontrada nos dias atuais em nossa desconcertada MPB, como é o caso de «Divino só». O risco de Montaut, em quebrar a relação de acanhamento ou submissão existente em seus contemporâneos, é o de isolar-se em um castelo de devoção e nenhuma interferência em termos de diálogo. É fato que o que se tem chamado de tradição da música popular brasileira é algo maculado por uma pressa na reverência, um exagero na negação, uma ignorância fundamental nos desdobramentos muitos que orgulhosamente temos.

A rigor, o mercado tem contado com a primorosa cumplicidade de parte considerável de vozes que coincidentemente são alicerces que havíamos conseguido erguer contra esse mesmo tipo de desnorteamento cultural. Tudo no Brasil lembra aquele roteiro de filme em que somos levados o tempo todo a achar que o traidor é uma óbvia figura, um arquétipo dos mais previsíveis, e acabamos surpreendidos com o fato de que fomos traídos por nós mesmos. Este é o nosso melhor filme. A todo momento estamos sendo traídos por nós mesmos.

Ao ouvir um CD como o de Mário Montaut, penso justamente nisto: quando nos desvencilharemos de nossa verossimilhança construída? Estamos forjando uma realidade brasileira baseada em um modelo imposto, o que inclui sobretudo a reação ao mesmo. Não digo aqui que Bela Humana Raça aponte solução alguma. O que cobra de nós é que precisamos urgentemente nos desfazer de certos vícios e preconceitos. Esta é sua principal contribuição.

 
 

 

 




 



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