REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências


nova série | número 51 | abril-maio | 2015

 
 
LUÍS COSTA

Caravagiando

 

 

EDITOR | TRIPLOV

 
ISSN 2182-147X  
Contacto: revista@triplov.com  
Dir. Maria Estela Guedes  
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i

 

CORRO pelas ruas com o coração

de uma andorinha no peito

uma andorinha que morreu

no último inverno

e agora ressuscita sob o feitiço

dos teus beijos clandestinos

 

beijos húmidos como a redondez

dos frutos negros

 

ii

 

O SANGUE escorreu, aceso

daquele pescoço degolado

onde estava deus? alguns dizem

que se tinha ausentado

( talvez de férias ? )

em baixo: ratazanas e baratas

bebiam daquele sangue desgloriado.

 

iii

 

- Michelangelo Merisi -

 

QUANDO naquela manhã Caravaggio acordou de sonhos

irrequietos, correu pelos becos da Cidade Eterna

todo nu e irado.

a cabeça estremecia-lha. e gritava. e espumava.

espumava da boca como os cães raivosos.

nessa mesma manhã, seriam 10 horas, numa rixa de rua,

degolou um jovem e muito belo cavaleiro.

a partir dai a sua pintura não mais foi a mesma.

a clareza sensual e a pureza desapareceram das suas telas.

agora reinava uma luz nova,

uma luz original, poderosa e demoníaca.

há quem diga que era a luz da ira de deus

que o perseguia e não mais o deixou em paz.

 

com 38 anos Caravaggio morreu (sob circunstâncias

misteriosas) talvez decapitado pela mão do próprio deus.

 

iv

 

- A gaiola -

 

A LUA é um escarro verde

a janela está aberta

o pássaro terrível emerge

do fundo do pomar

e entra no sexo da mulher

que está sentada numa cadeira em fogo

com uma criança cega

ao colo, sentada

depois atravessa o sonho do homem

com um chilreio

um chilreio vermelho - estridente

por fim desfaz-se em cinza

e agora a loucura escorre

pelas paredes do quarto

escorre vermelha e ácida

escorre vermelha ácida e verde

e o velho poeta ajoelha - se

crava pregos na porta da cave

para que deus não possa escapar.

 

v

 

- Jazsus -

 

E DAI a alguns dias enterraram-lhe o dedo

no buraco do lado esquerdo

( esta era a prova que faltava.. )

um liquido mole como a dureza escorreu

um cheiro pestilento inundou o espaço

 

depois – comeram e beberam

e levantado as taças exclamaram: JAZSUS!

 

vi

 

- Primavera -

 

ERA um quarto obscuro

do tecto escorria um liquido branco

em baixo uma mesa redonda

com pé de galo

sobre ela: uma laranja, uma faca

um peixe morto e um batom

sentado à mesa: o velho poeta

a quem tinham podado os dedos

para que voltasse a florescer.

 

( Março 2015, Jena )

 

vii

 

- Primavera 2 -

 

DEITEMOS este cadáver

decapitado ao Aqueronte

pois deus nunca existiu

foi um mau sonho

uma rósea monstruosidade

é preciso a morte

o seu relâmpago higiénico

para que a primavera subsista.

 

( Março 2015, Jena )

 

viii

 

ESTA NÁUSEA que se faz em mim.

este vómito tremendo.

 

o nojo que estes tipos me provocam.

as suas palavras funcionais.

o seu hálito muito moralista.

a imunda higiene.

 

digo: nem o meu ódio merecem.

nem o meu desprezo.

isso já seria valorizá-los.

 

passo. viro a cabeça. escarro.

 

 

ix

 

VESTIRAM-LHE uma túnica branca

puseram-lhe uma coroa de louros

no altivo pescoço uma gravata

pentearam-lhe as barbas búdicas

depois colocaram-no

ao centro da praça como as estátuas

à volta acenderam tochas

adoraram-no e disseram: eis o HOMEM!

um dia chegaram os outros

enraivecidos ,o sangue novo aceso

e alvejaram-no e derrubaram-no

e arrastaram-no pelas ruas

como Aquiles fez com Heitor

 

( assim a história se vai repetindo

ad aeternum )

 

 

x

 

ESTA noite rasgarei o meu peito.

com uma navalha de ponta e mola

arrancarei o meu coração.

a cabeça engrinaldada.

 

uma mortalha cobrindo a nudez.

assim descerei aos teus aposentos.

sim. amar - te - ei sem coração.

serei febril. serei cruel.

 

mas, quando mais tarde olhares

para o lado esquerdo, verás o meu coração

ardendo,

 

manso e dourado,

como o pássaro canoro. 

 

 

© Maria Estela Guedes
estela@triplov.com
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