Bento Domingues - Triplo II: O blog do TriploV - Revista TriploV de Artes, Religiões e Ciências
 
 
 
 
 
 

BENTO DOMINGUES, op

 

Frade da Ordem dos Dominicanos, teólogo, professor, escritor

Público, 17 de Julho de 2011

Peregrinações de Verão
 

1. Quem gosta de barulho tem, nas férias, novas oportunidades. Conheço um lugar muito frequentado, um rectângulo à beira mar – junto a uma praia imensa e quase deserta – com um café-restaurante que despeja, sobre as pessoas, dia e noite, um barulho doido a fazer de música, regado a cerveja e publicidade. Quando se reclama, a resposta é sempre a mesma: “é disto que a juventude gosta”.

Os seduzidos pelo silêncio pedem, às férias, mais sossego. Sossego não é isolamento. Num dos seus livros, Juan Masiá cita o conhecido ensaio – Soledad – de Miguel de Unamuno (1864-1936): ”Os homens só se sentem verdadeiramente irmãos quando se ouvem uns aos outros no silêncio das coisas, através da solidão… A solidão derrete essa espessa capa de pudor que isola uns dos outros; só na solidão nos encontramos; e, ao encontrarmo-nos, encontramos, em nós, todos os nossos irmãos… Só na solidão elevamos o nosso coração ao coração do Universo… Só na solidão podes conhecer-te a ti mesmo como próximo; enquanto não te conheceres a ti mesmo como próximo, não poderás chegar a ver, nos teus próximos, outros ‘eus’. Se queres aprender amar os outros, recolhe-te em ti mesmo” (1).

Segundo o mestre Dogen – “mestre da arte do olhar contemplativo” –, não basta retirar-se para a montanha em busca de solidão. Seria melhor ter o espírito da montanha dentro de si, no meio do inevitável ruído. Atribui a Buda, no seu último sermão aos seus discípulos, algumas atitudes para a vida quotidiana: aprender a desejar; aprender a conversar sem discutir; aprender a perseverar no caminho interior; aprender a viver no tempo sem obsessão do tempo; aprender a relacionar-se com tudo e com todos de forma contemplativa; aprender a saborear a solidão; aprender a não exagerar; aprender a cultivar a sabedoria lúcida e compassiva. Não basta praticar Zen, importa converter-se em Zen a vida inteira. De outro modo, sofre-se a mudar continuamente de lugar, à procura do retiro ideal sem o encontrar: para onde quer que vá, levará consigo os seus desejos desorientados.

2. Começámos com Unamuno, o autor de um livro de amizade ibérica (2), passámos pelo Japão e voltamos a Espanha ao encontro de um monge português, Carlos Maria Antunes – que foi pároco em Santarém e assistente do MCE –, radicado, agora, no Mosteiro Cisterciense de Santa Maria de Sobrado, na Galiza, também ele tentando adentrar-se na solidão como humilde peregrino: “ainda que alguns passos sejam especialmente duros, é o nosso mais original contributo para a grande sinfonia da vida, para a qual toda a criação está convocada. (…) Solidão tantas vezes experimentada como dor, quando atravessada, pode transfigurar-se em festa” (3).

Peregrinos de nós mesmos. Quem melhor o diz é o brasileiro Guimarães Rosa, no Grande Sertão Veredas: “o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando”.

O muito premiado escritor angolano, Ondjaki, cita-o com outra liberdade: “cada criatura é um rascunho a ser retocado sem cessar… nas madrugadas da noite” (4).

3. Etty Hillesum (1914-1943), uma judia marcada pelo Evangelho, foi transformando a solidão imposta numa descoberta: “Como vos amo, minhas noites de solidão! Fico estendida de costas na minha cama estreita, completamente abandonada à noite… com um sentimento de fazer parte de um grande processo de crescimento. Ontem à noite, senti de repente que a minha paisagem interior era como um vasto campo de milho a amadurecer… dentro de mim há campos de milhos que vão crescendo e amadurecendo”. Ajoelhava-se, “cobrindo o rosto com as mãos, tentando desta forma, encontrar uma certa paz e escutar essa fonte oculta dentro de mim” que fazia crescer a sua paisagem interior (5). Foi morta em Auschwitz.

Se Etty cobria o rosto para ver, outros santos do século XX foram mortos por andarem a abrir os olhos àqueles que queriam construir e manter o mundo à base da cegueira racial: Mahatma Gandhi (1869-1948) e Martín Luther King (1929-1968). Gandhi, moldado pela Bhagavad-Gita e pelo Sermão da Montanha do Evangelho, tendo começado na África do Sul a sua luta não-violenta, fez dela, não só uma organização sistemática do protesto contra a segregação racial, mas também o meio de uma revolução das consciências, da transformação das pessoas, que conduziu a Índia, dominada pelo poder colonial britânico, à vitória da independência. Foi morto a tiros. No seio das contradições da sociedade norte-americana, Luther King, pastor da Igreja Baptista, discípulo da resistência não-violenta, organizou e liderou um longo processo de peregrinações para a liberdade do povo negro segregado, descriminado, humilhado e sem direitos. Resistiu a todos os obstáculos e contrariedades. Quando, no seu último sermão, anunciou que já estava a ver a vitória e a glória do Senhor, foi morto a tiro.

Gandhi e Luther King prefiguraram, com a vida e com a acção não-violenta, uma nova civilização que continua em dores de parto. Não desertemos do mistério do tempo, da nossa responsabilidade em imaginar e fazer o impossível.

   
  (1)El otro Oriente. Más allá del diálogo, Sal Terrae, Santander, 2006.
(2)Por terras de Portugal e Espanha, Assírio e Alvim, Lisboa, 1989.
(3)Atravessar a própria solidão, Paulinas, Lisboa, 2011
(4)Quantas Madrugadas Tem a Noite?, Caminho, Lisboa, 2010
(5)Patrick Woodhouse, Etty Hillesum. Uma vida transformada, Paulinas, Lisboa, 2011.
   
 
 

http://www.we-are-church.org/pt/

   
   
   
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