ARTE DE EX_CITAR
MARIA ESTELA GUEDES


O lugar que mais me excita no TriploV, como webmaster, é o Zoo_Ilógico. Há muitos estímulos nele, desde o mais óbvio - a imagem é algo que excita mais do que a palavra - até ao quase nulo - os animais não me excitam nem um bocadinho, nunca sonhei com avestruzes, atuns, e nem sequer com a chita, gueparda ou gato pardo, que aparece várias vezes nesta colectânea de citações, certamente por excitar muito os pintores.

É preciso arte para excitar, não basta fazer olhinhos ao leitor, para não dizer que piscar o olho, seja em facto seja em arte, é forma abominável de apelar para a cumplicidade, motivo por que muitos textos publicitários, e a publicidade vive disso, se tornam intoleráveis quando exageram. A ostensividade, neste domínio, é exibicionismo - no limite, pornografia.

O discurso que mais excita é o que facilita a citação, e esse é o sentencial, o que resolve os problemas com receitas, apresentando explicação para tudo, ao qual nada resta já saber por se auto-instituir em repositório do conhecimento universal. Este discurso sapiencial, capaz de proferir sentenças tão formidáveis como "Deus não existe", ou "Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer", é tão execrável como o piscar de olho publicitário. É no entanto o discurso do Poder, seja lá ele qual for, político, religioso, económico ou universitário, e é ele que gera o consenso, rede de informação comum para defesa de interesses de um grupo, que nada tem a ver nem com a realidade, nem com a verdade. A uniformização do saber transmitido é um uniforme, uma farda, uma insígnia de pertença a um grupo dominante.

É preciso cuidado com a citação, até porque, além de certa extensão, ela fica sujeita a pagamento de direitos de autor, mas saliento agora só os problemas do discurso científico. O excitado perde a noção da realidade ao abeirar-se do verbo magistral. Ora o magister, se o é no sentido da Tradição, entende que ter um discípulo é o ideal, dois é bom, mas três já é popularização do conhecimento. Por isso defende-se, oferecendo para repasto dos que não deseja iniciar um banquete de asneiras do mais alto nível, como Augusto Nobre, ao situar a Figueira da Foz na região do Douro, como Baltasar Osório, ao criar em Portugal o Rio Matosinhos, como Gray, ao garantir que o lagarto de Cabo Verde (Macroscincus coctei) tinha metro e meio de comprimento, e tantos outros exemplos que pululam nos meus textos sobre o naturalismo.

Esta silva de imagens levantou problemas de vária ordem no exercício de as citar. Algumas são más citações, fiz desaparecer o contexto em que se integra o pormenor animal usando filtros ou liquefazendo a imagem no Photoshop (Boucher, Rafael, Van Dick, Tintoretto, Le Nain, Poussin). Noutras, não foi possível recortar o elemento pretendido, porque ele está vinculado ao todo, e neste caso foi preciso mostrar quase tudo, o que é perigoso, como já fiz notar (Goya, Emanuel de Witte, Willem Claez Hede, Willem Kalf, Sir Edwin Landseer). Seja o elemento animal um pormenor acumulado, seja ele o tema central da pintura, o recorte perde quase todo o impacto semântico, fica em estado de orfandade, limitado aos aspectos técnicos. O mais forte motivo da impossibilidade da citação, e da orfandade em que fica o elemento recortado, decorre da circunstância de grande parte dos elementos zoomórficos (pomba, pelicano, corvo, galo, serpente, vaca, burro, touro, escorpião, cordeiro, etc.) serem dotados de função simbolizante, e não só na arte sacra, o que pode não ser explícito quando se retira o elemento do contexto.

Qual a principal diferença entre os modos de os pintores e ilustradores científicos citarem a natureza? A arte existe de um lado e do outro, e a contaminação também: a arte mais realista tende à imitação, alguma ilustração científica tende para a sugestão (caso de Luiz Saldanha, oceanógrafo português cujos livros têm muitos desenhos seus). Basta porém olhar para a paisagem de Van Gogh para se notar que a sugestão pode assumir características tais que a citação, a fazer-se, a anularia, pois o pormenor do cavalo e do burro, em grande plano, perderia o elo de ligação anafórico com a suposta realidade dos animais.

No Zoo_Ilógico há muita ilustração científica. O que a define é a revelação dos caracteres diagnosticantes das espécies, não dos animais. O autor da espécie, quando a cria, fornece dela uma descrição, baseada em caracteres aceitáveis pelo consenso do grupo de especialistas: comprimento do metatarso, número de dedos, número de fiadas de escamas na face dorsal, etc.. Os caracteres podem ser externos, internos, de comportamento ou outros. Este modo de referência não tem por modelo a realidade, sim uma convenção. Por isso as imagens científicas são tantas vezes "naturezas mortas", tanto mais abstractas quanto a imagem cita o interior (os órgãos) e não os caracteres externos. A arte integra as citações de elementos da natureza num todo, a ilustração científica retira um tipo (um animal modelo) do seu ambiente para fazer dele o modelo de um conceito, o de espécie. Por muito que o pintor seja um Van Gogh, ele está mais ligado à terra do que o cientista.

Hoje, nenhum pintor aceitaria dizer que a sua arte tem a natureza por modelo, desde pelo menos o Romantismo que a originalidade se tornou valor estético e ela é incompatível com o verismo, a cópia do existente. Mesmo a lagosta de Willem Kalf, tão realista que se diria verdadeira, é menos verdadeira que uma lagosta cozida, porque muito mais apetitosa, colorida, obscena quase no seu exibicionismo que me obriga a negar o que acima escrevi, sobre a incapacidade de os animais me excitarem... Esqueci-me de que há muita espécie de apetites... Eis pois a grande diferença entre a criação pura e a ilustração científica: a arte excita todos os sentidos, a ciência apela só para o intelectual .