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CLAUDIO WILLER
GNOSE, GNOSTICISMO, A POESIA DE HILDA HILST
6. A conexão Bataille

A conexão Bataille - gnosticismo é comentada por Eliane Robert Moraes, em O Corpo Impossível (O corpo impossível: a decomposição da figura humana, de Lautréamont a Bataille, Iluminuras - FAPESP, 2002), a propósito dos abraxas, do registro iconográfico do gnosticismo feito de imagens que sobreviveram a seus textos, resistindo à destruição:

As concepções gnósticas do início da era cristã propõem uma subversão dos ideais da antigüidade greco-romana ao introduzir em seu discurso "os fermentos mais impuros", substituindo as formas elevadas pelas figuras mais baixas. Por recusarem a linearidade e a homogeneidade próprias das representações acadêmicas, as imagens polimorfas da gnose provocam intensas "desordens filosóficas", o que por certo está na origem de sua desqualificação enquanto "pensamento decadente". Ora, o leitmotiv do gnosticismo seria justamente "a concepção da matéria como um princípio tendo existência eterna autônoma": ao contrário da filosofia tradicional, que lhe atribui um papel passivo, a gnose confere à matéria um estatuto novo, até então reservado à idéia.

Portanto, nada de extravagante em enxergar gnosticismo em Hilda Hilst. Equivale a situá-la em uma tradição ou linhagem de poetas. E de magos e visionários como, na Renascença, Giordano Bruno, Cornelius Agripa ou John Dee, com seus projetos de um saber amplo, unificando ciência e magia, tão bem examinados por Frances A. Yates, em seus livros sobre iluminismo rosacruz e sobre Giordano Bruno e a tradição hermética.

A valorização ou sacralização gnóstica do conhecimento é evidente, por exemplo, neste belo poema de Hilda Hilst, o VI da série Poemas aos homens do nosso tempo, publicado em Júbilo, memória, noviciado da paixão (Editora Globo, 2001), que transcrevo na íntegra:

Tudo vive em mim. Tudo se entranha

Na minha tumultuada vida. E porisso

Não te enganas, homem, meu irmão,

Quando dizes na noite, que só a mim me vejo.

Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam

Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza,

O olhar aguado, todos eles em mim,

Porque o poeta é irmão do escondido das gentes

Descobre além da aparência, é antes de tudo

Livre , e porisso conhece. Quando o poeta fala

Fala do seu quarto, não fala do palanque,

Não está no comício, não deseja riqueza

Não barganha, sabe que o ouro é sangue

Tem os olhos no espírito do homem

No possível infinito. Sabe de cada um

A própria fome. E porque é assim, eu te peço:

Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta

O homem está vivo.

Hilda equipara o poeta ao eleito gnóstico. Associa liberdade e conhecimento, transformando os dois termos em um par, de tal forma que um implica o outro: o poeta é [...] Livre, e porisso conhece. Conhecer é ser livre, e vice-versa. Mas o que é esse conhecer? É descobrir além da aparência, diz ela. Trata-se, portanto, de um conhecimento iniciático, esotérico. E qual é o objeto desse conhecimento? É o escondido das gentes, o espírito do homem, um possível infinito. Algo oculto no íntimo de cada um, revelado pelo poeta. Ela confunde ou, antes, funde o objeto do conhecimento e aquele que conhece, a percepção e o percebido: Quando dizes na noite, que só a mim me vejo./ Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passa . Saber enxergar-se é enxergar os outros - e vice-versa. Quer a superação da dualidade entre sujeito e objeto, lembrando o trecho citado acima do Evangelho de Tomé, e também o que sugeriu Baudelaire em A Arte Filosófica: O que é a arte pura segundo a concepção moderna? É criar a magia sugestiva que contenha ao mesmo tempo o objeto e o sujeito, o mundo exterior ao artista e o próprio artista. (a citação é de Charles Baudelaire - Poesia e Prosa , organizado por Ivo Barroso, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1996).

É possível não apenas identificar uma expressão gnóstica na escrita de Hilda Hilst, mas também uma atitude gnóstica, evidente em sua vida. Notoriamente agitada antes de recolher-se à Casa do Sol nas imediações de Campinas, em 1963, manifesta a vontade de conhecer e experimentar; de conhecer pela experiência. Assim também seu interesse não apenas por filosofia, por religiões (em Estar sendo, ter sido , relata como adquirira o Baghavad Ghita ainda adolescente de um livreiro perplexo), mas pela ciência. Daí sua amizade e diálogo com físicos como ninguém menos que Mário Schemberg e César Lattes, comentada no já citado Cadernos do IMS, por Carlos Vogt. E suas próprias experiências no campo de uma parafísica (a parafísica está para a física assim como a parapsicologia está para a psicologia), com as gravações de "vozes dos mortos", que tiveram tanta repercussão (também comentadas no Cadernos do IMS). E a amplidão de sua criação, abrangendo poesia, prosa, teatro e artes visuais, pois criar é conhecer, através da exploração do novo.

Retornemos ao escondido nas gentes, e revelado pelo poeta, conforme o poema transcrito acima. Em passagens de Hilda, especialmente em Amavisse, há uma luz interior, que corresponde a uma dimensão oculta da pessoa: o poeta preexiste, entre a luz e o sem-nome . Algo foi esquecido, desaprendido: Ai, Luz que permanece no meu corpo e cara:/ Como foi que desaprendi de ser humana?. Há um avesso, um oco fulgente num todo escancarado, que é da altura de dentro. Só pode ser descrito Na minha língua esquecida, e captado através da iluminação e arrebatamento que equivalem à loucura: E do ouro que sai/ Da garganta dos loucos, o que há de ser?

 

 

 

 


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