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OS LIVROS DA WALKYRIA
JÚLIO VERNE
VINTE MIL LÉGUAS SUBMARINAS
CAPITULO XV
Quatro Mil Léguas Sobre o Pacífico
 

No dia seguinte, 18 de novembro, despertei com uma agradável sensação de bem-estar. Encontrava-me totalmente refeito das fadigas da véspera e das emoções sentidas naquele passeio submarino, no qual havia presenciado um dos espetáculos mais maravilhosos de minha vida de cientista. Subi até a plataforma no memento em que o imediato de bordo pronunciava a frase do ritual que, traduzida em nosso idioma, poderia significar "tudo sem novidade", ou "nada de importante acontece". De fato, o mar estava tranqüilo. Nem uma vela alterava no horizonte a serenidade das ondas.

Estava admirando a paisagem quando o capitão Nemo apareceu. Ia cumprimentá-lo, porém ele fingiu não me ver, ocupado em dar ordens aos tripulantes. Estes iam recolher as redes que o submarino havia arrastado durante a noite. Calculei que havia, nas redes, mais de mil libras de peixes. Não haveria de nos faltar víveres de ótima qualidade. O produto da pesca foi colocado imediatamente nas despensas. Uma parte seria servida de imediato e a outra seria posta em conserva. Uma vez renovada a provisão de ar, pensei que o Nautilus fosse submergir, e já me dispunha a voltar ao meu camarote quando o capitão Nemo, que até então não reparara na minha presença, virou-se e disse-me sem mais preâmbulos:

- O senhor não acha que o mar tem uma vida real? Ontem ele dormiu como nós, e agora desperta, depois de uma noite aprazível.

Aquele homem era desconcertante. Nem sequer havia me cumprimentado; pouco antes, havia evitado a minha presença e agora falava comigo quase em tom confidencial.

- Veja professor - prosseguiu ele. - O mar acordará agora sob as carícias do sol. Voltará a viver sua vida diurna, exatamente como um ser humano. É bom estudar organismo marítimo. Tem sua pulsação, suas artérias e sua circulação quase tão reais como a circulação sanguínea dos animais. Assim afirma o sábio Maury em uma de suas obras, e estou de pleno acordo com ele.

Não me atrevia a interrompê-lo. Notava que o capitão Nemo ia se transformando gradativamente enquanto falava.

- Que bom seria fundar cidades submarinas que, como o Náutilus, fossem respirar toda manhã na superfície do mar; cidades livres sem tiranos que as escravizassem. Um belo sonho, embora talvez com o passar do tempo, algum déspota...

O capitão Nemo interrompeu a frase; saudou-me com um gesto, dirigiu-se à escotilha e desceu a escada. Passei vários dias sem vê-lo. O imediato a bordo indicava regularmente a nossa posição; dessa maneira podia acompanhar com exatidão a rota do submarino. No dia 26 de novembro, às três horas da manhã, o Nautilus atravessou o trópico de Câncer. No dia 27 passou pelas ilhas Sandwich, onde Cook morreu no dia 14 de fevereiro de 1779. Tínhamos navegado mil oitocentos e sessenta léguas, desde a nossa partida. O navio continuou no rumo sudeste. No dia 1 de dezembro, divisamos o grupo das ilhas Marquesas. A três milhas de distância vi a ponta Martin, de Nonka-Hiva, a mais importante desse grupo, que pertence a França.

 

 
   
   

 

 

 


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