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OS LIVROS DA WALKYRIA
JÚLIO VERNE
VINTE MIL LÉGUAS SUBMARINAS
CAPITULO XIV
Um convite
 

Passaram-se vários dias sem novidade, até que a 16 de novembro, ao voltar ao meu camarote, acompanhado por Ned e Conselho, encontrei sobre a mesa um bilhete a mim dirigido.

Abri-o com impaciência. O texto era o seguinte:

Professor Aronnax, a bordo do Nautilus

16 de novembro de 1867

O capitão Nemo tem a honra de convidar o professor Aronnax para uma caçada que se realizará, amanhã de manhã, nos bosques da ilha Crespo. Espero a sua cooperação, bem como a de seus colegas.

O comandante do Nautilus

Capitão Nemo

- Caramba! Uma caçada - exclamou Ned Land. - Será que ele pretende ir à terra?

- O convite está claro - respondi, tornando a ler o bilhete.

- Temos que aceitar! - exclamou Ned Land impaciente.

- Quando estivermos em terra firme, pensaremos como agir da forma mais conveniente possível. Além disso, já estou com vontade de comer alguns pedaços de carne.

Todavia estava um tanto desorientado, pois não compreendia aquele convite para caçar em terra firme, em vista da aversão manifestada pelo capitão Nemo quanto a sair de seu navio. Após a ceia, servida pelo impassível e mudo criado, fui dormir um tanto preocupado.

Ao acordar, reparei que o Nautilus estava completamente imóvel. Levantei-me depressa e fui para o salão.

Ali estava o capitão Nemo. Levantou-se e saudou-me. Limitou-se a perguntar se estávamos dispostos a acompanhá-lo. Então, respondi:

- O que não entendo capitão, é que tendo o senhor rompido seus contatos com o mundo civilizado, possua bosques na ilha Crespo.

- Os bosques de minha propriedade não são terrestres, e sim submarinos. Neles não vivem animais quadrúpedes que necessitam de luz solar.

- Bosques submarinos! - exclamei.

- Sim, professor.

- E o senhor me convida para caçar?

- Exatamente.

- Com armas de fogo? - insisti, no auge do espanto.

- Isso mesmo.

Fique olhando para o capitão do Nautilus , sem dar crédito a suas palavras. - Não há dúvida - pensei - de que este homem não está em perfeitas condições mentais. Deve ter tido um ataque que ainda a dias perdura. É impossível ser real o que está dizendo. O capitão Nemo pareceu ter percebido meus pensamentos, porém limitou-se a pedir que o seguisse. Obedeci-lhe, disposto a aceitar resignado os acontecimentos.

Entramos na sala de refeições do Nautilus, onde já estava servido o almoço. Aquela seção era o arsenal e vestiário do Nautilus. Havia pelo menos uma duúzia de escafandros, prontos para serem usados. Ned Land não pode esconder um ar de desgosto. Não estava disposto a vestir aquelas roupas e manifestou a sua contrariedade.

- Mas você não compreende, amigo Land - disse-lhe -, que não há outro remédio se quiser participar da caçada? Estes bosques são submarinos.

- E o senhor vai usar isso, professor? - perguntou Land, contrariado ao saber que não poderia comer carne.

- Não faço a menor objeção - disse.

- Faça o que quiser - respondeu o canadense, dando de ombros. - Quanto a mim, garanto-lhe que só entro dentro disso à força.

- Ninguém é obrigado a nos acompanhar - disse o capitão Nemo.

- E o senhor, Conselho, o que resolve?

- Eu vou aonde vai meu patrão - respondeu o leal criado.

O capitão Nemo chamou, então, dois homens da tripulação que nos ajudaram a vestir aqueles pesados trajes impermeáveis de borracha. Não tinham costuras e eram próprios para resistir a grandes pressões. O traje era constituído de calças e jaquetas. A calça terminava com pesados sapatos de solo de chumbo. A jaquera era feita de pequenas lâminas de cobre que protegiam o peito contra a pressão da água. As mangas tinham nas pontas luvas flexíveis, que não impediam movimento algum das mãos. Não havia dúvida de que o capitão Nemo havia aperfeiçoado bastante o escafandro. Era muito diferente daqueles inventados no século XVIII. O capitão Nemo, um dos tripulantes, eu e Conselho, preparamos os nossos respectivos escafandros.

- Como poderemos sair para o mar? - perguntei com um sorriso.

- Nesse momento, o Nautilus está parado a dez metros da superfície. Basta apenas sairmos daqui.

- Mas como?

- Já vai ver.

O capitão enfiou a cabeça dentro do capacete esférico, e Conselho e eu o imitamos. Porém, antes ouvimos a voz do arpoador, que se despedia em tom irônico:

- Façam bom passeio e boa caçada.

Com grande espanto, percebi que não podia dar um só passo. Achava-me cravado ao solo por aquela pesada vestimenta, por causa dos sapatos de chumbo. Porém, o capitão Nemo havia previsto tal acontecimento. Senti que me empurravam até a sala vizinha, assim como a Conselho. Uma porta provida de vedação fechou-se atrás de nós e permanecemos alguns instantes no escuro. A água do exterior nos cobria, e logo inundou toda a cabina. Então, abriu-se uma outra porta, no costado do navio, e logo depois nossos pés tocavam o fundo do mar. O capitão Nemo ia na frente e seu companheiro nos seguia a poucos passos. Eu e Conselho estávamos juntos. Posso garantir que não sentia a menor sufocação. Não me incomodavam as roupas, os sapatos e o recipiente de ar. Usufruía uma relativa liberdade de movimentos. Fiquei muito admirado com a quantidade de luz que penetrava até trinta pés abaixo da superfície. O casco do Nautilus ia desaparecendo aos poucos, porém sua claridade permitia a nossa volta a bordo no momento mais oportuno.

Já fazia uma hora e meia que saíramos no Nautilus. Pelos raios solares calculei que devia ser meio-dia. Aos poucos foi desaparecendo aquela magia de cores que tanto havíamos admirado. Caminhávamos a passo normal até chegar a uma profundidade de cem metros com uma pressão de dez atmosferas. Apesar disso, não me sentia cansado e nem me incomodava aquela pressão. Meus movimentos, auxiliados pela água, eram realizados com facilidade. Chegamos a uma profundidade de trezentos pés e ainda se distinguiam os raios solares, embora muito fracos. Um crepúsculo avermelhado substituíra a luz intensa que havia anteriormente. Seja como for, posso garantir que se via o suficiente para poder prosseguir andando sem obstáculos. Houve necessidade de ligar os aparelhos de iluminação. O capitão Nemo parou um instante, esperando que eu o alcançasse. Com o indicador, apontou para umas massas escuras que se destacavam na penumbra a pouca distância.

- Deve ser o bosque da ilha Crespo, pensei.

Chegamos finalmente às proximidades do bosque, considerado pelo capitão Nemo de sua propriedade exclusiva. Era evidente que ele tinha razão se considerarmos a lei natural do primeiro dono, direito concedido também aos primeiros povoadores do mundo. Quem poderia se intitular dono daquelas propriedades submarinas? O bosque era constituído por plantas arbóreas, e chamou minha atenção a posição especial de seus ramos. Todas as ervas que cobriam o solo e todos os arbustos somente seguiam a posição vertical. Os filamentos e talos elevavam-se para cima. As algas e os cipós cresciam em posição perpendicular, em virtude da pressão da água.

Acostumei-me logo à escuridão que nos rodeava. O solo era formado por pequenos seixos e os vegetais prendiam-se pouco a eles. Não tinham raízes e só dependiam de si próprios. O princípio vital estava na água que os mantinha e nutria. Em vez de folhas, achavam-se cobertos de pequenas lâminas ou tiras de formato caprichoso, restritos a poucas cores: rosa, vermelho, azeitonado, verde, fulvo e castanho.

Pude ver com espanto, em pleno verdor, exemplares que vira anteriormente na coleção do capitão Nemo, ou seja, padinas de pavão real em forma de leque; ceramisas vermelhas, laminárias, merecitas filiformes, ramalhetes de acetábulas e outras plantas pelágicas, todas sem flores.

Entre os arbustos desenvolvidos, amontoavam-se moitas de flores vivas, colônias de zoófitos, e para aumentar minha ilusão, vi peixes-mosca, que voavam de ramo em ramo, como se fossem bando de beija-flores. Estava extasiado contemplando tanta beleza da natureza, que não me lembrava de mais nada. Por volta de uma da tarde, o capitão Nemo fez sinal para pararmos. Não foi preciso repeti-lo, pois logo depois estávamos deitados sob um caramanchão de árvores, cujos ramos se erguiam como flechas. Realmente, o descanso causou-me grande satisfação. Senti falta apenas de um pouco de conversação, pois era impossível trocar palavras. Tive que me conformar encostando meu capacete de cobre no de Conselho. Calculei que o passeio já durava cerca de quatro horas e estranhei o fato de não sentir fome. Em compensação senti uma certa sonolência, como ocorre com todos os mergulhadores. Quando acordei, o sol já estava próximo do horizonte. O capitão Nemo encontrava-se de pé, e eu começava a ficar desesperado, quando uma aparição inesperada fez-me endireitar o corpo, dando um salto. Perto de mim posicionara-se uma enorme aranha-marinha que se preparava para atacar-me. Não pude conter um gesto de horror. Conselho e o marinheiro acordaram naquele instante e perceberam o perigo que eu corria. O capitão Nemo fez um sinal ao marinheiro, e este se lançou sobre o terrível crustáceo, sem demonstrar o menor receio. De um só golpe, fê-la rolar pelo chão retorcendo as patas em convulsões. Logo depois, ficou imóvel.

Aquele perigoso encontro fez-me pensar em outros animais mais ferozes que talvez estivessem à espreita, à procura de alimento. A um sinal do capitão Nemo, todos paramos e iniciamos o regresso. De repente, o capitão aproximou a arma do rosto e apontou para um objeto que se movia no meio da mata. Atirou, produzindo um ligeiro salto e um animal caiu morto perto de nós. Era uma lontra marinha, o único quadrúpede que vive apenas na água. Media um metro e meio de comprimento e representava um valioso achado. Sua pele era castanho-escuro e o brilho do pêlo garantiam-lhe um valor mínimo de dois mil francos.

Levantamo-nos e continuamos a caminhada. Meia hora depois, graças à luz do Nautilus, pudemos localizá-lo. A porta externa do navio permanecia aberta, e o capitão fechou-a quando entramos no primeiro compartimento. A seguir, ele apertou um botão. As bombas no interior do Nautilus começaram a funcionar e senti que a água baixava ao meu redor. A cabine ficou completamente vazia em poucos minutos. Depois, abriu-se a porta interna e passamos para o vestiário, para tirarmos os escafandros. Isso nos deu trabalho, porque estávamos cansados e sonolentos. Logo depois, fui para o meu camarote, quase inconsciente, pensando apenas em estirar-me no leito e descansar.

 

 
   
   

 

 

 


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