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JOSÉ RÉGIO

Três máscaras

 

INDICE

COLUMBINA – Estou então entre dois fogos?

Um bando de mascarados cruza a cena

Um casal de mascarados, foliando, entra pela esquerda

PIERROT (um pouco mais baixo) – Às vezes, de noite

Um criado entra pela direita

Saem ambos. Um silêncio

Imagem da peça "Três máscaras", encenada por Nuno Nunes no Teatro da Trindade,
em Lisboa (Abril-Maio de 2005)
 
(Saem ambos. Um silêncio)

PIERROT (voltando ao seu tom e atitude próprios) – Dizia eu, Columbina... Dizia que tu quererias furtá-lo à sua condenação: despertar nele o dom de amar. É uma bela tentação, bem sei. Mas o teu coração vem para mim! Pertence-me naturalmente. Manda que eu te leve comigo! E prometo suicidar-me ao romper da manhã. Ou achar um tesoiro, tirar a sorte grande, por o mundo a teus pés, reconquistar o Paraíso terreal... Será como quiseres, Columbina! Ambos precisamos que nos salvem, salvar-nos-emos um ao outro...

MEFISTÓFELES (inclinado para Columbina, com doçura) – Obrigado, Columbina. Não te pedirei mais nada.

COLUMBINA – Julgas que to agradeço?

MEFISTÓFELES – Deves agradecer-me: É o único meio de conservar de ti uma lembrança gentil.

COLUMBINA (erguendo-se com um grito de indignação) – Sai!

MEFISTÓFELES (perfilando-se um pouco) – Ordenas que tão depressa renuncie ao meu papel?

COLUMBINA (de pé, a voz quebrada) – Peço-te que me deixes.

MEFISTÓFELES – Sairei se mo ordenares. Mas levarei de ti a lembrança de mais uma conquista fácil..., perdoa.

COLUMBINA (deixa-se cair na cadeira, com a face inclinada ao peito. Silêncio. Recomeça a falar devagar, em voz quase baixa) – És sem piedade, Mefistófeles: como quem és. Mas eu mereço o teu desprezo! mereço a tua brutalidade. Esta máscara mal me esconde; e basta para me dar a coragem de ser fraca, tal como sou... uma conquista fácil...

MEFISTÓFELES (brandamente) – Bem sabes que podes revelar a tua fraqueza com mais arte.

COLUMBINA – Também me queres com o meu papel de todos os dias?

MEFISTÓFELES – À sinceridade dos homens chamam cinismo; à das mulheres, impudor.

COLUMBINA (quase gritando) – Preciso falar! ao menos uma noite.

(Começa a ouvir-se agora uma valsa, que tocam no salão. É uma valsa fútil, antes maliciosa e alegre que melancólica. Chega abafada. Ouvir-se-á até onde for indicado.)

MEFISTÓFELES – Também tu?

PIERROT – Cuidado, Columbina! Bem sabes que és uma criancinha. E olha que ele não to merece...

COLUMBINA – Também eu! também eu preciso falar.

MEFISTÓFELES – Deixaste-me falar a mim?

COLUMBINA – Não te deixei?!

MEFISTÓFELES – Não. E podia dizer tanto!

COLUMBINA – Porque me enganaste? Supus que já tinhas falado.

MEFISTÓFELES – Experimentei-te, não te enganei.

COLUMBINA – Disseste-me que não quisesse compreender-te.

MEFISTÓFELES – Pois disse. Quem quer compreender já não compreende.

COLUMBINA (um pouco mais baixo) – Impeliste-me a abandonar-me. Abraçaste-me. Beijaste-me inesperadamente...

MEFISTÓFELES – Sonhei achar uma mulher que me resistisse.

COLUMBINA – Mas eu sou como as outras; como todas! Se resisto fora, sem máscara, é por não poder fugir à reputação que me criaram. Passo por ser inteligente, independente, e desprezar os homens. Sim, desprezo os manequins. Afinal, há em mim qualquer coisa que me distingue das outras...

MEFISTÓFELES – És muito mais inteligente, na verdade.

COLUMBINA – Mas tão fraca como elas! E todas as minhas ideias são dos livros que li, ou dos homens que me impressionaram. Sobretudo destes. A todos tenho sonhado pertencer. E se um deles já tivesse sido mais ousado, ou mais perseverante..., sim, já me teria mostrado o que sou: uma pobre mulher; uma criatura que precisa de se entregar e pertencer a alguém... (Pausa. Mudança de tom.) Estás admirado, Mefistófeles. As mulheres não costumam confessar estas coisas aos homens: São velhos inimigos galanteadores.

MEFISTÓFELES – Já vês que também nisso és diferente.

COLUMBINA – Esta noite.

MEFISTÓFELES – Pois eu também sou diferente dos homens que tens conhecido; e todas as noites! Sou tão ousado como perseverante; mas vou por caminhos ora directos ora sinuosos...

COLUMBINA – Bem vejo, Mefistófeles.

PIERROT – É a mim que tu pertences, Columbina!

COLUMBINA (olhando os dois) – A qual? a qual pertenço?

PIERROT – A mim!

MEFISTÓFELES – Mas não sei porquê, Columbina, despertas-me ora o desejo da crueldade, ora o capricho da bondade. Talvez o melhor fora ceder-te a Pierrot. Eu..., que posso dar-te? Só divertimentos perversos. Compreendo e lastimo o género humano. Mas de longe, à distância; como espectador; através dum monóculo. De perto, não posso! O enjoo sufoca-me. Nunca pude suportar os maus cheiros alheios. O meu me basta.

PIERROT (imitando o tom de Mefistófeles) – Uf!... És doente, Mefistófeles. Tenho de te mandar calar.

MEFISTÓFELES – Estás a plagiar-me, Pierrot. Mas a minha doença é mais limpa do que a tua.

PIERROT – Será?

MEFISTÓFELES – Creio que sim.

PIERROT – Pois ouve tu também: Só o sofrimento ensina a compreender. E eu julgo compreender-te, por isso te perdoo. Estou a falar-te a sério. Sei que também tens sofrido...

MEFISTÓFELES (atalha com um gesto. Voz seca, tom sarcástico) – Não, meu Pierrot: Tudo, – menos isso.

PIERROT – Isso quê?!

MEFISTÓFELES – Isso que aprecias: as confissões em voz comovida; os trémulos na garganta; as confidências com os olhos vítreos; as sociedades de socorros mútuos; a confraternização no sofrimento humano; as efusões nos braços do amigo; o tal amor da humanidade... Pf! sinto-me vexado ao falar nessas cantatas. Coro, só com a ideia... Não, meu Pierrot; meu terno Pierrot! Tudo, – menos passar pela tua compreensão. Dispenso a água-benta da piedade. Também me não cheira bem... (Breve pausa. Volta-se para Columbina.) Mas a ti, Columbina, acabo por te aconselhar que atendas Pierrot. O seu amor deve ser mavioso e lilás... Olha, podes fazer uma obra de caridade: tira-o de amanuense. E paga-lhe a edição dos versos. Ele é capaz de ter aquele género de talento que enternece o público. Assim conquistarás a gratidão do futuro.

PIERROT – Era amanuense. Não pude suportar aquilo, e despedi-me. Nos primeiros dias, a vida pareceu-me um sonho! Agora, estou pior que dantes: Sou um miserável desempregado que vive por esmola numa água-furtada. Já tenho passado fome. O dinheiro para alugar este fato, extorqui-o à minha hospedeira, que não é rica. Há misérias que te não atingem, Mefistófeles. Mesmo assim, tenho dó de ti.

COLUMBINA (de cabeça baixa) – Quisera pertencer a ambos sem trair nenhum...

(Deixa de se ouvir a valsa. Um rancho de mascarados entra de roldão pela direita. A Dona da casa vem à frente, sem loup.)

A DONA DA CASA (dirigindo-se particularmente a Columbina, Pierrot e Mefistófeles) – Não tarda meia-noite, senhores. Convido-os a tirar o loup ao fim das doze pancadas. Vai dar a primeira no gong da sala...

COLUMBINA (precipitando-se para ela, num grito) – Não!... Não!

(Um momento de silêncio geral, comprometedor.)

A DONA DA CASA (tomando Columbina nos braços) – Mas, minha querida amiga: Suponho que toda a gente a reconheceu. Bem difícil é a minha querida amiga disfarçar-se! E se algum dos presentes a encontrou hoje pela primeira vez, não compreendo que seja tão pouco generosa, vamos lá: tão caprichosa...

MEFISTÓFELES (adiantando-se para Columbina) – Columbina, respeito o teu capricho. Saio antes de caírem as máscaras. (Fala um pouco para todos.) Columbina intrigou-nos..., e empenha-se em manter o seu incógnito. (De novo se dirige a Columbina.) Pois bem, é preciso que nos voltemos a encontrar. Talvez amanhã: no chá da Olivais. Cheguei há pouco do estrangeiro, sou quase um desconhecido em Lisboa. Mas a Marquesa de Olivais não é só gentilíssima, dizem, como parece ter bom gosto: Quer que me levem amanhã a sua casa. Boa noite, Columbina. Por hoje, a comédia acabou. Reconhecer-te-ei no primeiro instante em que volte a encontrar-te. E espero que então me perdoes as petulâncias a que me obrigava hoje o meu papel... (Curva-se gentilmente, beija a mão de Columbina, depois a da Dona da Casa, saúda toda a gente com a capa e sai pela esquerda.)

COLUMBINA (adiantando-se até meio do palco) – Pierrot...!

PIERROT (caindo de salto aos pés de Columbina) – Adeus, Columbina! adeus, não te digo até amanhã. O nosso encontro não tem amanhã. Deus te pague esta noite que me deste. Nunca ninguém me fez tão bem como tu. E agora sim, terei coragem de partir. Já te disse que moro uma água-furtada. Tenho a Lua pertinho, até quando não haja Lua para os outros. A Lua, para mim, continua a mesma... (Ergue a fronte, suspende-se uns momentos. Declama.)

Dona Lua tem mistérios

Que bem no peito recata.

Por vezes, nos cemitérios,

Junto aos braços de uma cruz,

Despe os brocados de prata,

Chora lágrimas de luz...

Sim, terei a coragem de partir. Saio pelo postigo, subo ao telhado... e um salto; um pequeno salto à borda do céu; um grande voo... Pronto! Aonde poderei ir cair senão nos braços da Lua? E nas pedras da calçada um simples fato vazio, um fato de Pierrot que já se não usa... Nunca mais! nunca mais escrever datas nem fórmulas! nem dormir por esmola! nem espoliar qualquer amigo de momento! nem ser insultado pelos menores...! Adeus, Columbina. Lembra-te um bocadinho de mim.

A DONA DA CASA – És excêntrico, Pierrot.

(Os mascarados aproximaram-se. Um deles joga confetti sobre Pierrot. Depois dá a mão aos outros. Dançam todos, de mãos dadas, em volta de Pierrot e Columbina. Ouve-se longa, sonora, a primeira pancada da meia-noite no gong. Os mascarados param de dançar. Pierrot precipita-se para a porta da esquerda. Os mascarados vão sobre ele. Desaparecem de roldão. Ficam sós em cena A Dona da casa e Columbina. Ouve-se cair a segunda pancada no gong.)

COLUMBINA (arrancando o loup) – Que alívio.

A DONA DA CASA – Querida amiga, os seus admiradores pareceram-me um tanto exóticos.

COLUMBINA – Sim. Quem são?

A DONA DA CASA – Confesso que não cheguei a reconhecê-los. Também eu estou um pouco intrigada. Enfastiaram-na?

COLUMBINA – Pelo contrário. Mas vamos tomar um pouco de ar ao jardim.

(Vão saindo ambas. Ressoa a terceira pancada do gong. A cena fica deserta como no princípio desta fantasia. O pano começa a descer muito devagar.)

 

FIM

   

 

 

 


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