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JOSÉ RÉGIO
Três máscaras

INDICE

COLUMBINA – Estou então entre dois fogos?

Um bando de mascarados cruza a cena

Um casal de mascarados, foliando, entra pela esquerda

PIERROT (um pouco mais baixo) – Às vezes, de noite

Um criado entra pela direita

Saem ambos. Um silêncio

 
COLUMBINA – Estou então entre dois fogos?

COLUMBINA – Estou então entre dois fogos?

PIERROT (avança um passo, com ambas as mãos no peito) – O do meu coração, Columbina!

MEFISTÓFELES (avança também um passo, dobra-se numa leve reverência) – Columbina..., o do meu desejo.

COLUMBINA – Sois perseverantes, vejo-me reduzida a ouvir-vos. Já é um triunfo vosso. Ainda bem que sois dois, um neutralizará o outro. (Puxa de uma cadeira, senta-se a meio da cena, voltada para o público.) Vem cá Pierrot! (Pierrot, de salto, vem cair a seus pés) Vem também, Mefistófeles! (Mesfistófeles adianta-se com aprumo e graça, pára a seu lado, espera.) E agora divirtam-me! conquistem-me! façam-me esquecer que me obrigam a ouvi-los.

PIERROT e MEFISTÓFELES (a um tempo) – Quando aqui entrei Columbina... (Calam-se ambos, entreolham-se; cada um espera que o outro prossiga. Silêncio breve.)

COLUMBINA – Não comecem por falar ambos a um tempo! e não principiem assim. Que vão dizer-me? O comum: «Quando aqui entrei, Columbina, não supunha vir encontrar...» Ou então: «Quando entrei, Columbina, já trazia a certeza de vir encontrar...» Pelo amor de Deus! lembrem-se que sou uma rapariga mais ou menos moderna.

PIERROT – Eu não ia dizer isso, Columbina.

COLUMBINA – Apostamos que sim?

MEFISTÓFELES – Veio-te à cabeça que o dissesse eu?

PIERROT – Bem, Columbina: é verdade! Eu ia dizer: «Quando aqui entrei, Columbina, já sabia que me aconteceriam grandes coisas...»

COLUMBINA – Aconteceram, Pierrot?

PIERROT – Encontrei-te, minha Columbina.

COLUMBINA – Vês? Caíste na cilada.

PIERROT – Também a não evitei, Columbina.

COLUMBINA – Mas porquê? Por que disseste exactamente o que eu queria... isto é: o que eu receava que dissesses? Não sabes nada menos repetido?

PIERROT – As palavras mais repetidas podem tornar-se novas. Toda a gente as diz, quase ninguém as sente.

COLUMBINA – Ninguém! Só tu.

PIERROT – Sou poeta, Columbina. Descubro a virgindade das coisas gastas.

COLUMBINA (para Mefistófeles) – Socorre o teu amigo, Mefistófeles! Pierrot está em grande perigo.

PIERROT – Em grandes perigos. A qual te referes?

MEFISTÓFELES – Não sou amigo de Pierrot. Não o conheço.

PIERROT (imediatamente) – Não sou amigo de Mefistófeles; nem pretendo conhecê-lo.

MEFISTÓFELES – Só perdes. Tenho algum interesse.

PIERROT – Talvez também tu percas. E a falar verdade, não me parece que tenhas grande interesse.

MEFISTÓFELES – Estás a ser pouco amável, Pierrot. Não é uso, cá na roda, tratar-se um rival com essa falta de cortesia.

PIERROT – Quem te diz que pretendo aprender os costumes da tua roda?

MEFISTÓFELES – Sou mais gentil do que tu: Não quero crer que os ignores. (?)

COLUMBINA – Mas tem graça!: estamos aqui os três sem nos conhecermos. Tanto melhor... assim nos podemos interessar uns pelos outros. Que interesse podem ter as pessoas conhecidas?

Imagem da peça "Três máscaras", encenada por Nuno Nunes no Teatro da Trindade, em Lisboa (Abril-Maio de 2005)
 
 
 

 

 

 


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