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JOSÉ RÉGIO
Três máscaras

INDICE

COLUMBINA – Estou então entre dois fogos?

Um bando de mascarados cruza a cena

Um casal de mascarados, foliando, entra pela esquerda

PIERROT (um pouco mais baixo) – Às vezes, de noite

Um criado entra pela direita

Saem ambos. Um silêncio

 

(Um casal de mascarados, foliando, entra pela esquerda. Pára a ouvir Pierrot. A mulher enfia o braço no do homem, apoia-se nele.)

O HOMEM MASCARADO – Contas alguma história, Pierrot?

PIERROT – A dum poeta infeliz.

O HOMEM MASCARADO – Aposto que és tu!

PIERROT – Não me permite a modéstia confessá-lo.

A MULHER MASCARADA – Gostava de ouvir versos teus, Pierrot.

PIERROT – Não sei nenhuns de cor. E é raro escrevê-los. Mas vou improvisar só para te fazer a vontade. Esta noite, sou capaz de tudo. (Levanta a cara, olha o espaço. Fica assim uns momentos, em silêncio: direito, os braços caídos. Declama sem mudar de atitude, e fazendo-se acompanhar pelo terceto que sempre se tem ouvido, abafado, e toca um pouco mais alto enquanto ele declama)

 

Dona Lua é uma princesa

De sangue azul verdadeiro...

O seu paço é uma lindeza,

Servem-lhe as Ursas de chão,

E o Sete-Estrelo é o craveiro

Que dá flor no seu balcão.

 

Dona Lua é branca e fria

Como a espuma ao rés da areia.

Por vezes, noite sombria,

Vem debruçar-se à janela:

E tudo em redor clareia

Do clarão do rosto dela...

(Como o terceto emudece no salão, cala-se também. Desmancha a atitude um pouco hierática, fala noutro tom) Estou envergonhado! Calou-se a música para me ouvir continuar, os pares deixaram de dançar... E eu a dizer chochices! Dona Lua já não é dona nenhuma, já não presta. Preciso mas é de achar um mundo novo. Ando a seduzir Columbina, vamos povoar nós dois outro planeta. Os nossos meninos nascerão com asas, terão os olhinhos fosforescentes... serão quase tão bonitos como a mãe e ainda mais inteligentes do que o pai! Olhem, desculpem! Eu não sei o que digo porque estou apaixonado...

Imagem da peça "Três máscaras", encenada por Nuno Nunes no
Teatro da Trindade, em Lisboa (Abril-Maio de 2005)

O HOMEM MASCARADO – Bonne chance, meu poeta! Creio que estejas apaixonado, também eu estou. (Procura arrastar a companheira)

A MULHER MASCARADA – Obrigado, Pierrot. Apesar de tudo os teus versos são lindos! Sê feliz. E boa sorte aos vossos meninos...

(Atira-lhe um beijo com a ponta dos dedos. Fogem ambos pela direita)

PIERROT (volta-se para Columbina, reata no tom interrompido) – Já escrevo mecanicamente, posso sonhar enquanto escrevo datas e fórnulas. Tenho sonhado tudo! tudo: Ser bailarino excêntrico, assombrar o mundo com o meu génio; fugir para um deserto; cometer o mais espantoso dos crimes; fazer-me chefe duma tribo selvagem; viver de imundícies em Paris; encontrar fabulosos tesoiros; descobrir o elixir da longa vida; atirar a repartição pelos ares... A imaginação de quem vive só, Columbina, é um mundo terrível! O tédio um monstruoso conselheiro. Vivo só com o meu tédio... e a minha imaginação...

MEFISTÓFELES – Permites que me sente, Columbina? Pierrot está sendo um pouco pesado.

COLUMBINA – Por que não...?

(Mefistófeles pega de uma cadeira, senta-se, cruza as pernas e os braços.)

PIERROT – Achas que posso continuar?

COLUMBINA – Ainda me não enfadaste.

PIERROT – Se ao menos tivesse génio...! Mas só tenho um amável talento. Sonho coisas medonhas, e faço versos bonitos. E nada do que sonho impede a regularidade da minha vida. Já disse que sou um funcionário modelo...

MEFISTÓFELES (com uma ligeiríssima vénia) – Um bom actor, vamos lá.

PIERROT – Um funcionário modelo. Por isso os meus colegas me julgam ainda mais idiota do que eles. Diante dos homens doutra esfera, sinto-me profundamente humilhado: um amanuense! e respeitoso, nulo, tímido, serviçal... Como repararão em mim? Columbina! foi preciso mascarar-me para dizer estas coisas uma vez na vida. Porque nunca se viu um nulo tão orgulhoso. Ah, se o senhor Barroso soubesse!... se o senhor Vidigal sonhasse!... O orgulho cresce na solidão como certas plantas na sombra; alimenta-se da própria humilhação...

MEFISTÓFELES – Estou a ver que também és um aforista. Deves começar a coleccionar as tuas máximas.

COLUMBINA – Sabes, Mefistófeles, que as tuas ironias são banais? (Volta-se para Pierrot.) Como conseguiste... ser hoje convidado?

 
 
   

 

 

 


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