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JOSÉ RÉGIO
Três máscaras

INDICE

COLUMBINA – Estou então entre dois fogos?

Um bando de mascarados cruza a cena

Um casal de mascarados, foliando, entra pela esquerda

PIERROT (um pouco mais baixo) – Às vezes, de noite

Um criado entra pela direita

Saem ambos. Um silêncio

PIERROT (um pouco mais baixo) – Às vezes, de noite
 

PIERROT (um pouco mais baixo) – Às vezes, de noite, certas noites, ponho-me a seguir os homens bem vestidos. Conheço-os até de longe, pelo andar: os que vivem nos meios que sonho, na elegância que me usurparam. Odeio-os! Desprezo-os! E tenho por eles uma curiosidade insaciável, sigo-os fascinado... Sei que não valem mais do que eu. Mas se um deles – qualquer! qualquer um! – me estendesse a mão e sorrisse, me dirigisse a palavra, sentiria faltar-me a voz, tremerem-me as pernas... Não, não consigo desprezá-los.

MEFISTÓFELES – Uf!... És doente, Pierrot. Tenho de te mandar calar.

PIERROT (voltando-se brusco para Mefistófeles) – Tu... deves ser de eles. Odeio-te! desprezo-te! invejo-te! Com certeza já te segui de noite, como um rafeiro vadio...

MEFISTÓFELES – Não exageres a doença, Pierrot. Pode tornar-se desgostante. Aliás já sabes que esses teus homens bem vestidos não passam de cabides.

PIERROT – Com certeza já te segui de noite! Tens bom ar, tens o tipo...

MEFISTÓFELES (erguendo-se) – De bom grado satisfarei um dos teus caprichos dessas noites. (Curva-se ligeiramente, estende-lhe a mão.)

PIERROT (de braços caídos, hirto) – Cobarde!

MEFISTÓFELES (olha um instante a própria mão estendida, baixa o braço) – eu devia saber que Mefistófeles não pode dar esmolas.

PIERROT – A não ser para humilhar.

MEFISTÓFELES (voltando a sentar-se) Tens razão: a não ser para humilhar.

PIERROT (voltando-se para Columbina, que se levantou) – Perdoa-me, Columbina: Suponho que houve uma fífia.

MEFISTÓFELES – Sabes que davas um bom actor, Pierrot? Quase te admiro. Julgo que terei prazer em travar conhecimento contigo. Que famílias frequentas?

Imagem da peça "Três máscaras", encenada por Nuno Nunes no Teatro da Trindade,
em Lisboa (Abril-Maio de 2005)
 

PIERROT (deixa-se cair de joelhos, com modos lassos, aos pés de Columbina. Dobra a cabeça sobre o peito, bamboa-se um pouco, e grita em falsete, num tom meio dramático meio humorístico) – Estão a desfazer o Pierrot!... O Pierrot ainda não acabou...

COLUMBINA (sentando-se) – Continua então, Pierrot. Ainda não contaste como conseguiste ser convidado.

PIERROT (levantando-se, retoma o tom natural) – Anteontem, eu ia por uma rua deserta. Era noite, uma das tais noites... Adiante de mim, caminhava um desses homens que invejo. Eu espiava-lhe todos os movimentos. Admirava-o... já por vício. É um vício, não é?

MEFISTÓFELES – Continuas a exagerar a doença?

PIERROT – Sonhava que levava na mão um punhal envenenado; que me ia abater sobre o homem ao dobrar duma esquina; que lhe roubava os papéis e a fortuna, tudo com a facilidade das coisas num sonho; que partia para o estrangeiro; que o meu ar sombrio, as minhas liberalidades, o meu mistério, o meu fausto, ecoavam no mundo. Monsieur X, Don X, Lord X, ninguém me conhecia; ninguém sabia quem era, ou fora. Mas os jornais noticiariam a chegada do enigmático dândi aos hotéis de primeira categoria...

MEFISTÓFELES – Perdão: não achas tudo isso um pouco romântico? fora do nosso tempo?

PIERROT (sem olhar Mefistófeles, e como respondendo a Columbina) – Sabes?, leio muitos romances policiais, a par de bons livros; mas prefiro sempre os de fantasia. Demais, estava luar. Inútil quererem desclassificar o luar! favorece todos os sonhos. Em dada altura, o homem que eu seguia tirou um lenço do bolso. Gesto simples, não é? Mas caiu-lhe um cartão. Apanhei-o com avidez. Fugi como se lhe tivesse roubado a carteira! Li-o debaixo da primeira lâmpada. Era um convite para um baile de máscaras, na próxima segunda-feira de Entrudo...

MEFISTÓFELES (recostando-se na cadeira) – Tem graça! Há duas noites, perdi o meu convite. Não dei importância, entro sempre onde quero.

PIERROT (voltando-se bruscamente para ele) – A que horas recolheste?!

MEFISTÓFELES – Duas e meia... três horas.

PIERROT (depressa, com a voz alterada) – Passaste pela rua de...?!

MEFISTÓFELES (negligentemente) – Já não sei bem. A noite estava linda, com efeito. Despedi o táxi. Vagueei um pouco pela velha Mouraria... E na verdade: julgo lembrar-me de ter ouvido passos atrás dos meus, durante algum tempo.

PIERROT (com desespero e raiva) – Mentira! Mentes!

MEFISTÓFELES – Não dês outra fífia, Pierrot. Por que há-de ser mentira? Como queres tu que eu adivinhe...?

PIERROT (esconde a cara nas mãos, baloiça-se inesperadamente, grita no mesmo tom meio dramático meio humurístico) – Aqui del-rei!... aqui del-rei!... aqui del-rei!...

COLUMBINA (um pouco mais baixo) – Pierrot..., quisera poder ser tua amante esta noite.

PIERROT (caindo novamente aos pés de Columbina) – Não digas isso, Columbina! minha Columbina! Deixa-me beijar-te o vestido. Esta noite..., pois talvez me suicide esta noite! (Desata em soluços, deita a cabeça nos joelhos de Columbina. Mas, por entre os soluços, grita no seu falsete de ventríloquo, meio humorístico meio dramático) Não quero! não posso! não devo tornar a ver mangas de alpaca...

MEFISTÓFELES (levantando-se com enfado e um suspiro de tédio) – Uf!... não tolero homens que choram. Gostas do género, Columbina?

COLUMBINA – Cala-te.

PIERROT (ergue-se devagar, fica diante de Mefistófeles. Silêncio breve) – Continuo a ser um bom actor?

MEFISTÓFELES – Nem bom nem mau. Acredito na realidade do que disseste. Não posso deixar de ter certa curiosidade por ti... que se paga com desprezo. Desculpa! eu não procuro conquistar as mulheres sendo mulher. Nem choro.COLUMBINA – Como as conquistas? Mas suponho. Conquista-me..., se és capaz.

MEFISTÓFELES – Perdoa, Columbina. Desinteressei-me da tua conquista.

COLUMBINA – É assim..., mostrando-te petulante e grosseiro...?

MEFISTÓFELES (dobrando-se para ela) – Compreendes perfeitamente... não é verdade?, que as minhas palavras não passam de um meio de começar.

COLUMBINA – Achas um bom começo?

MEFISTÓFELES – Deixa-me falar-te sem me aninhar a teus pés. Não é a minha posição perante as mulheres.

COLUMBINA – Achas bem continuar a ser grosseiro?

MEFISTÓFELES – Preferes que imite Pierrot?

PIERROT – Não o conseguirias. Os homens como tu são escravos do seu papel único.

MEFISTÓFELES (sem responder a Pierrot, voltado para Columbina) – Permites-me que fale como quem sou?

COLUMBINA – Fala. Sou uma rapariga tolerante.

MEFISTÓFELES – Pois, apesar de tudo, começo condescendendo contigo: Vejo que aprecias o género trágico..., também te vou falar da minha tragédia.

COLUMBINA – Também tens uma tragédia?..., tu?

MEFISTÓFELES – Sou várias vezes milionário. Fiz trinta anos há dias. Já corri quase todo o mundo. Em toda a parte me desejam. Nunca estive doente. Sei que sou belo; que sou inteligente; que sou distinto. As mulheres procuram-me, disputam-me. Os homens adulam-me. Não me lembro de ter chorado na minha vida..., ou talvez só em criança.

COLUMBINA – A tua tragédia é essa?

MEFISTÓFELES – Bem: detesto o género trágico.

COLUMBINA – Não disseste que me ias falar da tua tragédia?

MEFISTÓFELES – Falei.

COLUMBINA – Só enumeraste vantagens.

MEFISTÓFELES – Que vazio!

COLUMBINA – Queres dizer que sofres de não sofrer?

MEFISTÓFELES – Pouco mais ou menos.

COLUMBINA – Como paradoxo, é banal: Não podes ter consciência da tua felicidade.

MEFISTÓFELES – Não creio na felicidade.

COLUMBINA – É natural. Só quem sofre crê na felicidade, e sabe o que ela é. Uma coisa bem simples, afinal: deixar de sofrer. A ti faltam-te os pontos de comparação..., os contrastes.

 
 

 

 

 

 

 


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