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SOPHIA, A VOZ QUE FICA
Selecta de Rui Mendes

Sophia O Poema a Levará no Tempo
Por POR LUÍS MIGUEL QUEIRÓS

Sábado, 03 de Julho de 2004
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O poeta como alguém tocado pela graça, dotado de uma aura comparável à dos santos, alguém cuja excepcionalidade seria tão óbvia que mesmo o mais grosseiro dos seres não poderia deixar de a pressentir, ainda que apenas lhe fosse oferecido um mero vislumbre da sua exterioridade física, é, todos o sabemos, uma invenção romântica. No entanto, lêem-se os testemunhos que os contemporâneos de Sophia foram deixando em jornais e revistas, por ocasião de um prémio ou de uma homenagem, e o retrato que emerge é o de um ser que não é bem deste mundo, talvez porque o tivesse sido mais radicalmente do que a maioria. Sophia de Mello Breyner Andresen morreu ontem, aos 84 anos, no Hospital Pulido Valente, em Lisboa. Tinha estado internada antes na Cruz Vermelha. O corpo ficará em câmara ardente na Igreja da Graça.

"Era uma noite de lua cheia. A Sophia, tenho a certeza disso, estava vestida de branco. Calças brancas, camisola branca. A certa altura começou a recitar. (...) Pela primeira vez, na minha vida, eu ouvia dizer versos assim, escandidas as sílabas, como só ela o sabe fazer (...)". As palavras, recentes, são de João Bénard da Costa, que tinha apenas 12 anos quando viu Sophia pela primeira vez. Mesmo admitindo que o presidente da Cinemateca possua uma memória privilegiada (e, na verdade, possui), de quantos momentos dos nossos 12 anos nos lembramos com uma tal exactidão?

"No momento em que conheci Sophia de Mello Breyner, senti que conheci também toda a sua poesia", diz o escritor, ensaísta e tradutor Richard Zenith, num depoimento recolhido na "Relâmpago", que dedicou à autora um dos número da revista.

E Eduardo Lourenço, evocando uma visita à então União Soviética, recorda: "Enquanto Manuel Gusmão e eu percorríamos as intermináveis galerias de algum palácio de Catarina, Sophia, longínqua filha de Rousseau, à falta do mar, do seu mar, perdia-se na contemplação extasiada dos lagos e dos choupos e das faias que a perder de vista os debruavam". E termina: "É assim que eu a revejo, não alheia, mas aquém ou além da História, inteiramente imersa na Natureza. De que é a incandescente musa e sílfide."

Num curioso testemunho, que abre com a declaração de que "havia duas mulheres em Lisboa que [lhe] davam que pensar", Agustina Bessa-Luís escreve: "Há mulheres que têm virtudes de rainha e por isso são mal compreendidas. Sophia é também assim. Creio que é, não tenho a certeza". O que surpreende, claro, é esta hesitação, esta confissão de perplexidade na mais incisiva catalogadora da nossa literatura contemporânea.

Outros, como Ramos Rosa, deixam que seja a própria poesia a procurar dizer a singularidade de Sophia: "Vejo-te sempre vertical num apogeu azul/ em que celebras as coisas e pronuncias os nomes/ com a claridade das cúpulas e das evidências solares."

Talvez tenha sido outro poeta, Eugénio de Andrade, quem andou mais perto de encontrar uma analogia satisfatória para essa contraditória sensação que Sophia parece ter transmitido a quem a conheceu - a de ser simultaneamente tão substantiva e terrena como uma videira e tão inefável como uma princesa de contos de fadas: "Foi sempre muito jovem, de carácter irrepreensível e segura de si, mas também distante, como se tivesse chegado doutro país e não tivera tempo de se adaptar àquele em que vivia." Num depoimento algo atrevido, para o já citado número da "Relâmpago", Eugénio escreve: "(...) tinha esse encanto de quem está sempre em estado de graça. A graça da poesia. Todos os seus amigos estavam, de um ou outro modo, enamorados dela. Talvez daí que, todos eles, tivessem discordado do seu casamento, e o considerassem um desastre. Mas havia nesse juízo alguma injustiça, como se viu anos depois. A Sophia ficou a dever ao Francisco [Sousa Tavares], além dos filhos, a consciência política, que lhe permitiu vir a ser ela a escrever os mais notáveis poemas da Revolução de Abril."

Um nome predestinado

Num célebre ensaio que abre a 4ª edição da "Antologia" da Moraes, Eduardo Lourenço sugere: "Há nomes predestinados. Ou talvez nomes que foram para os seus ocasionais suportes uma luz íntima que os guiou com infalível presciência para o lugar e a posse do que no nome mágico já se anunciava. Sophia - sabedoria mais funda do que o simples saber, conhecimento íntimo, ao mesmo tempo atónico e luminoso, do essencial, comunhão silenciosa e sem cessar reverberante com tudo aquilo que, por original, a reflexão e seus intérminos labirintos deixarão intacto".

Mas não é apenas o nome. À luz do que Sophia veio a ser, tudo nas suas origens e nos seus primeiros anos se diria planeado para criar um espírito pouco convencional: esse improvável dinamarquês aventuroso que desembarca no Porto não se sabe bem porquê, o casamento do seu neto com a representante de uma família aristocrática que, geração após geração, produziu homens com invulgar sentido de justiça e devoção à liberdade, a infância passada numa propriedade de dimensões francamente extravagantes, rodeada de pessoas como um avô médico apreciador de poetas, uma mãe que lia sem cessar, ou uma criada loura, com ar de princesa nórdica, que recitava versos do cancioneiro popular.

Se os que privaram com Sophia tendem a não esquecer o instante em que pela primeira vez a viram, também os seus poemas parecem ter o dom de se entranhar nos leitores. "Ainda hoje, aquilo que Jorge de Sena chamou de 'nobreza de dicção' da poesia de Sophia continua, mesmo sem a ler frequentemente, presente nos meus ouvidos como uma música de fundo", afirma Manuel António Pina num depoimento para o citado "dossier" da "Relâmpago".

O claro mistério da sua poesia não é menos opaco para ela própria do que para os seus leitores. "É-me necessário fazer versos, é-me vedado saber porquê", escreveu a Sophia adolescente, em latim, num caderno do colégio.

O seu primeiro livro, "Poesia", depois reintitulado "Poesia I", saiu em 1944, quando tinha 25 anos, mas os poemas mais antigos foram escritos aos 14. Apesar de só terem saído 300 exemplares, alguns foram parar às mãos certas, como as de Óscar Lopes, a quem logo impressionou a "depuração excepcionalmente acabada" deste livro de estreia.

Galeria de heróis

Muitas das características que a poesia de Sophia manteve de livro para livro, já aqui estão presentes: a simplicidade expressiva, a tal dicção "nobre" de que falou Sena, e que convida à oralidade, a completa ausência de habilidades oficinais - no sentido em que estas podem ser o oposto de uma oficina verdadeiramente hábil -, a confiança inabalável no poder demiúrgico da nomeação que tantos dos seus estudiosos assinalaram, o fascínio pela confiante magia do mundo grego antigo, a aspiração a restaurar, partindo das coisas visíveis e reais - que o poema lograria fixar num eterno instante extático -, a mítica aliança originária entre o homem e o mundo natural.

No entanto, se este primeiro livro contém poemas excelentes, incluindo alguns desses versos que todos os leitores de Sophia sabem de cor - "De todos os cantos do mundo/ Amo com um amor mais forte e mais profundo/ Aquela praia extasiada e nua/ Onde me uni ao mar, ao vento e à lua" -, a verdade é que os momentos mais altos da sua escrita são posteriores. E é difícil decidir o que é mais milagroso: ter sido capaz de escrever tão nova alguns dos poemas de "Poesia", ou ter escrito aos 70 anos essas comoventes obras-primas que são os poemas de "Ilhas" alusivos a Byron: "A Escrita" e "Glosa de 'So we'll go no more a roving' de Byron".

Ela própria, aliás, confrontada numa entrevista com a questão de saber se o essencial da sua poesia já estaria presente no primeiro livro, defendeu que "há coisas que só apareceram mais tarde", e considerou a sua "poesia actual" - falava em 1991 - "mais elaborada do que inicialmente". Tinha razão, sem dúvida.

Foi preciso, por exemplo, esperar por "Geografia" para que nos desse as primeiras das suas admiráveis "Artes Poéticas". E um eixo tão importante da sua obra poética como é o seu diálogo com Pessoa, só começa a desenhar-se, como nota Eduardo Lourenço, em "Livro Sexto", para depois se aprofundar, bastante mais tarde, em "Dual", com os seus sete poemas de homenagem a Ricardo Reis, e, sobretudo, em "O Nome das Coisas", com esse longo poema de abertura, "Cíclades", que se apresenta como uma evocação de Pessoa, mas que talvez fosse mais adequado classificar como uma invocação.

No pano de fundo mais lato que são os temas da verticalidade e da coragem, da ética e da justiça, temas que atravessam toda a obra de Sophia, incluindo os "Contos Exemplares", e mesmo as suas histórias para crianças, um dos motivos mais fascinantes da sua poesia é o da figura do herói, cujo retrato vai compondo com as feições de heróis aparentemente tão díspares como Ifigénia, cujo "rosto voltado para o vento,/ Como vitória à proa de um navio,/ Intacto destrói todo o desastre", ou Santa Clara de Assis, "Inteira onde os outros se dividem", ou o Duque de Gandia, fechando os olhos para não ver o cadáver de Isabel de Portugal, ou o Infante D. Pedro, "Aquele que fundou glória e grandeza/ E recebeu em paga insulto e morte", ou Pessoa e seu "corajoso ousar não ser ninguém", ou Catarina Eufémia e Che Guevara, ou esses navegadores anónimos dos Descobrimentos, que "Navegavam sem o mapa que faziam" e aos quais foi dado ver "o brilho do visível frente a frente", ou Ulisses, rei de Ítaca, que "carpinteirou seu barco/ E gabava-se também de saber conduzir/ Num campo a direito o sulco do arado", ou ainda Byron, que sabia que "a escrita exige solidões e desertos/ E coisas que se vêem como quem vê outra coisa".

   
   

 

 

 


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