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******************************Eugénia Vasques

“Um Caso de Teatro Político:
O «Teatro de Ambiente» de O Bando

INDEX
Acção e Evolução de um «Teatro de Ambiente»
Do Uso da Estranheza no «Teatro de Ambiente»
O Método « Personagem Intermédia»
Um Encontro na Natureza
Bibliografia
Um Encontro na Natureza

Se é pela reiterada apropriação do espaço urbano-rural quotidano como lugar de confluência flexível de ficção e de realidade, numa simbiose não eufórica da vida com a arte, segundo pressupostos programáticos ideologicamente orientados, que se pode aferir a possibilidade de caracterização do trabalho artístico de uma Companhia como pertencendo à categoria estética de «teatro do ambiente» (ou «teatro ambiental» para manter uma maior proximidade fónica com a expressão em inglês environmental theatre), então é evidente que o historial de espectáculos de O Bando demonstra amplamente essa possibilidade de pertença.

O conceito, de raiz antropológica, que seria cunhado, justamente por Richard Schchner e Theodor Shank, nos anos 60, na sequência de trabalhos de artistas e colectivos como, entre outros, o americano Environmental Theatre (1), terá tido a sua origem imediata nas experimentações das artes plásticas (environments, land art, etc.), como já referido, mas, um pouco mais atrás no tempo encontra a sua raiz em experimentos de recorte simbolista de finais do século XIX (de Jarry, por exemplo) e sobretudo nas experimentações radicais das vanguardas do início do século XX que envolveram ruptura com as tradições canónicas das artes eurocentradas e ruptura com as fronteiras estanques entre as diferentes artes estabelecidas ou as emergentes (fotografia, cinema).

Encontraríamos, adoptando esta perspectiva, uma larga linhagem de influenciadores que de Gertrude Stein a Le Corbusier, de Lloyd Wright aos artistas da Bauhaus e de Jacques Copeau ao Living Theatre ou a Bob Wilson nos conduziriam à galeria Alternativa Zero, à Fundação Calouste Gulbenkian, a Jorge Listopad, a Victor Garcia e a outros estrangeiros que foram deixando a sua marca cosmopolita na cena portuguesa (alternativa) antes do regresso da vaga de artistas portugueses exilados, após 1974, oriunda das várias capitais do mundo (como Bruxelas, no caso de João Brites).

A recusa, voluntária ou involuntária, do edifico “teatro” em prol de um encontro na natureza (mata, jardim, rio, paisagem urbana ou rural, etc.), com regresso ao espaço convencional para melhor o desfigurar e cenografar como Natureza (A Terceira Margem do Rio, por exemplo), é uma das linhas de força reiteradamente perseguida no historial artístico de O Bando.

Em síntese, este caso de «teatro ambiente» português encontrou o seu território próprio caracterizado pela «instalação» nas paisagens (humanas) mais diversas. A presença de objectos de cena«estranhos» ao realismo quotidiano, a opção por uma linguagem da distorção, a dominância de entidades narrativas super figurativas de intensa prolixidade, a subsequente necessidade da fisicalização das acções cénicas e pelo confronto dos actores com as escultóricas “máquinas de cena” ou com as construções urbanas (castelos, casas, etc.), edifícios rurais ou elementos da Natureza (montes, árvores, rios, etc.) constituem um dos vectores desta dinâmica.

Outro dos vectores reside na opção pela negação do conceito de interpretação a favor do work in progress no trabalho de criação dos actores, na paradoxal manutenção de uma convenção dramatúrgica que se constrói sobre alicerces técnicos oriundos das artes plásticas (ou do cinema) e na procura de projectos de criação artística partilhada ou de co-criação teatral.

E se há um lugar utópico – o seu Jardim, o seu Éden – que este «teatro ambiental» persegue esse seria um lugar de possível encontro entre as vanguardas da arte e a revolução.

 

Colares, 17 de Julho de 2006

 
(1) Cf. Cohen, p. 101.
Eugénia Vasques é analista de Teatro e Professora Coordenadora na Escola Superior de Teatro e Cinema.
   
   

 

 

 


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