Armando Nascimento Rosa

A ILUSÃO CÓSMICA
VIAGEM AO FUTURO NO PALCO

Nota de Abertura
A Ilusão Cósmica : Uma Fábula Futurológica

 

«PRIDAMANTE: Um tão raro benefício não se pode agradecer; mas, grande mago, pelo menos crede que no futuro
a minha alma disto guardará a recordação.»
PIERRE CORNEILLE, A Ilusão Cómica

 

Imaginemo-nos projectados daqui a uns (pouco) longínquos cem anos: toda a vida que subsiste no nosso planeta é artificialmente mantida; proliferam megalópoles em estações orbitais no espaço próximo da Terra, de Marte e na superfície da Lua; a manipulação biónica e genética da espécie humana atinge requintes de um self-service personalizado; um pai idoso espera a visita do filho numa cidade portuguesa, enquanto a materialização teatral da sua mulher morta em seu torno paira...

Viajemos para esse tempo através do palco, tendo os pés na terra de uma Évora futura, com teleféricos e conchas vítreas anti-solares, num primeiro acto, para depois levantarmos voo em direcção a LiberAres, a colónia humana mais recente, a girar em torno do planeta vermelho, que tanto estimulou a curiosidade e o prazer do enigma ao longo das épocas. Regressaremos no epílogo - que se sucede ao terceiro acto - à Taberna dos Mercadores, um restaurante típico que inventámos para a cidade alentejana; nele se cantam melodias, joviais ou melancólicas com sabor popular, em língua lusa.

No entretanto, assistimos a um enredo no qual a mais sofisticada das tecnologias psicobiónicas se mostra cúmplice da política para resolver o problema de um presidente em reeleição que, subitamente, morre na conjuntura menos favorável ao grupo de interesses que promove a sua candidatura. Fica bem longe de nós, no espaço e no tempo, a República de LiberAres, se bem que, por exemplo, a tirania do pequeno écrã que por lá reina nos familiarize com essa ficção urbano-espacial.

Os sentimentos humanos de sempre: as vaidades e ambições, a vontade de domínio, a violência, a lucidez resignada, a busca pelo conhecimento, as paixões (im)previsíveis, o desejo de saber notícias de um além da vida e de evocar os que partiram; ingredientes dramáticos que se distribuem pelas onze personagens (nas quais se inclui uma expedita robô com o deceptivo nome de Giralda-sem-Amor) a quem coube a missão de tornar realizável esta nossa digressão pelo futuro, entre o sorriso e a reflexão. Por isso, nem comédia, nem tragédia, apenas uma ficção dramática, feita de fantasia segregada por realidades identificáveis que o autor julgou propícias à função. E como diz Hélio Jorna, no papel de apresentador inicial: - preparem-se, que a viagem começou!

Possamos nós no término dela murmurar a última fala de Pridamante, em epígrafe, com que Corneille encerra A Ilusão Cómica, peça que o nosso título elegeu, imodestamente, para sua antepassada.

Lisboa/Évora, Fevereiro de 2003
ANR

 

 

 

 




 



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