Armando Nascimento Rosa

A ILUSÃO CÓSMICA
VIAGEM AO FUTURO NO PALCO

Terceiro Acto
Candidato Ideal

Cena 2

(O painel-parede em fundo a enquadrar a cena mostra um cartaz de propaganda eleitoral, colorido e de grande formato, com uma pose calma e sorridente de OLÍMPIO AREIA; lê-se nele a frase de ordem: LiberAres confia em Olímpio . Uma outra foto de grupo, em tamanho grande, integra as imagens frontais de OLÍMPIO, LUCY, FRANZeANGE ROI, abraçados em muralha humana completada por vários jovens; no rodapé consta a seguinte frase: Todoscom Olímpio Areia na construção do futuro!

Visivelmente depauperado, OLÍMPIO está sentado junto a uma secretária, ocupada por um teclado e respectivo monitor com câmara incorporada. Tenta pôr-se de pé, mas depressa desiste por sentir-se sem forças para o fazer. Nas suas mãos segura um comando, preparando-se para iniciar uma gravação. A sua voz é arrastada e penosa; por vezes, ele interrompe mesmo o discurso, limpando a testa. )

OLÍMPIO: (Parece inicialmente balbuciar algo sem a voz lhe obedecer, pelo que só os lábios mexem num esgar silencioso.) Drª Nária... Drª Nária Steinshelley, perdoe-me as condições em que me dirijo a si, mas o meu estado de saúde não me permite mais... A minha esperança é que receba esta mensagem sem intermediários. É muito difícil comunicar o que tenho a dizer-lhe, não só pelo estado em que me encontro, mas também porque é doloroso admitir a traição daqueles que julgávamos nossos amigos... os meus colaboradores mais próximos nos quais toda a minha confiança era depositada. Sempre admirei a força de Lucy, acompanhada de perto pela competência de Ange Roi. Quanto a Franz, muito eu julgava dever-lhe, tanto como meu médico pessoal como da minha saudosa Salira Fétova... Pensar eu durante estes anos, desde a morte da minha mulher, que ele tudo fizera pela minha saúde. E agora, já não tenho certezas, só me restam suspeitas de conspiração dos três, para me substituirem por um andróide, com a máscara do meu corpo. Nunca desconfiei das colheitas de tecidos que o Franz me fez para acertar diagnósticos... Confesso a minha ingenuidade... Cumpri sempre com disciplina as medicações que ele me receitou, e é terrível, tremo até às vísceras só de supô-lo, que dia a dia as drogas que eu ingeri foram um veneno para me matar lentamente, até ao dia em que os três tivessem concluído um duplicado de mim mesmo. E então o meu destino seria a fossa dos detritos, como um pedaço vulgar de sucata biológica... Pelo modo como me sinto, acho que essa hora está próxima e não tarda que o meu duplo entre em cena e continue a representar o meu papel, sem nenhum espectador notar a diferença. (Pausa. Bebe, com dificuldade, uns goles de água, que verte para um copo, de uma garrafa que tinha sobre a secretária.) Mas ainda não lhe expliquei as razões deste apelo... Se existe alguém em LiberAres com poderes para me ajudar é a Drª. Eu sei que a sua máquina armazena a energia psicovital de uma pessoa, desde que antes se faça a cópia virtual do cérebro. Ora o modelo do meu cérebro já a Drª o tem no seu bancos de dados. Se esta crise que atravesso não for fatal, ainda vamos a tempo de me salvar a alma, como se diria noutros tempos, mas desta vez guardada numa máquina capaz de a tranferir para o robô que Ange Roi fabrica no Instituto. O meu corpo não parece ter remédio, mas ao menos seria eu, a minha consciência, que continuaria à frente dos destinos de LiberAres, conforme foi desejo do eleitorado. (Pausa. Retoma a fala com esforço.) Recebi há dias uma mensagem anónima informando-me de que estava a ser concebido um duplo para ocupar o meu lugar. Falava também do trio responsável por essa conjura. Desde então juntei as peças do jogo... Deixei de tomar as drogas receitadas por Franz que, supostamente, travariam a minha doença. Será mais uma impostura para me aniquilarem? Talvez ainda tenha tempo, não sei... Seja o que for que me aconteça, peço à Drª que use esta mensagem para desmascará-los. Eles podem sequestrar-me, drogar-me, transformar-me num ser vegetal ou num cadáver, mas a opinião pública tem o direito de conhecer os facínoras que pretendem instalar um fantoche tecnológico na presidência de LiberAres. (Parece querer continuar, mas falta-lhe o fôlego. Carrega no comando a custo, digita no teclado da secretária e acaba por cair com a cabeça sobre este, aparentando uma perda total dos sentidos.)

 

 

 

 




 



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