Armando Nascimento Rosa

A ILUSÃO CÓSMICA
VIAGEM AO FUTURO NO PALCO

Segundo Acto
A Família Modelo

Cena 3

(O espaço cénico exibe alguns expositores - ou écrãs, conforme os meios de que a produção dispõe - com cartazes promocionais referentes à TvPhobos, canal televisivo de LiberAres. Podem ler-se neles frases como estas: Com a TvPhobos, diga adeus às fobias; TvPhobos, a droga doce sem efeitos secundários; TvPhobos, a televisão que liberta; Viaje no espaço sideral, com a TvPhobos. Se a encenação assim o entender, alguns televisores, estrategicamente situados no palco, emitem anúncios publicitários em simultâneo - a realização/produção desta peça poderá inclusivamente aproveitar para promover produtos de empresas patrocinadoras do espectáculo. Decorrido algum tempo, HÉLIOentra em cena, em pose de apresentador televisivo. Dirige-se ao público, como se este fosse uma audiência ao vivo de um programa em gravação.)

HÉLIO: Uma boa noite/tarde para todos os que nos acompanham, aqui no estúdio ou em qualquer lugar do espaço. Eu sou o Hélio Jorna e trago-vos um novo programa em que os convidados são reis absolutos. Neste Quem é Quem não há lugar para entrevistadores. São os convidados que falam de si mesmos. Vamos receber visitas de amigos que desejamos conhecer melhor; partilhar as suas experiências, aplaudir as suas vitórias, lamentar as suas derrotas. Mas derrotas é coisa que não consta na biografia da convidada de estreia. Nasceu na estação lunar de Blue Moon, de um famoso casal de colonos pioneiros. Desde cedo, manifestou a vocação para as rotinas da acção política e para as grandes causas da publicidade. Doutorou-se em marketing de lingerie usada, com uma tese que foi best-seller em livro interactivo. Quem dos nossos telespectadores não passou já os olhos por essa obra que se dá pelo nome de: A Influência da Roupa Interior no Carisma de Líderes Políticos e Gestores Financeiros? Pois já todos adivinharam: temos connosco Lucy Pet, mandatária global para a recandidatura do nosso presidente da república. Uma grande salva de palmas para ela. (HÉLIObate palmas e é acompanhado pelo som gravado de uma audiência que aplaude entusiasticamente. Os cartazes ou monitores de tv ostentam a frase: Aplaudir de pé com alegria.LUCY PETentra triunfalmente em cena. Veste um fato espalhafatoso de cores eléctricas fosforescentes, maquilhagem q.b. e provavelmente um penteado multicolorido. HÉLIOcumprimentaLUCY PETcom dois beijos afáveis, convida-a a sentar-se e sai de cena. Ela sorri, felicíssima e agradece, sentando-se numa cadeira que para o efeito se encontrará no centro da cena. Outras duas cadeiras vazias ladearão LUCY PET, destinadas aos seus dois maridos que mais tarde por ela serão chamados a comparecer.Hélio faz um último repto ao público antes de sair de cena.) [Não saia do seu lugar, não mude de canal, não feche a tv! A primeira edição de Quem é Quem tem 5000 viagens para oferecer. Basta estar com atenção ao rodapé do seu écrã. Responda rápido e receba a viagem com que sempre sonhou!] (Vira-se para a convidada do talk-show) E agora, Lucy Pet, o tempo de antena é todo seu! (HÉLIOsai de cena, entre o som gravado de uma assistência aplaudinte. LUCY PETdirige-se ao público em tom jovial e amistoso.)

LUCY PET: (Afectada, simulando embaraço.) Ah, isto é tão difícil, como hei-de começar? O Hélio convenceu-me a vir falar convosco, mas eu no fundo sou tão tímida. Não é essa a imagem que têm de mim. Julgam-me só a lutadora, que se bate por aquilo em que acredita. Mas há outro rosto meu que o público desconhece. A líder sensível que sou. E neste século XXII, tenho para mim um modelo de liderança feminina que nunca é de mais lembrar: a primeira mulher a chefiar o estado do Vaticano. Mesmo não sendo eu católica, foi com emoção que vi subir ao trono de Pedro a cardeala Fátima de Ávila, rodeada dos seus três filhos, e que tomou para si o nome simbólico de Papisa Joana II. Para falar com franqueza, pouco sentido fazem para mim as guerras de sexos. Eu mesma tenho sido alvo de ferozes críticas, em virtude da minha opção conjugal. Fosse eu cantora dos tops ou actriz da moda, e o facto de viver com dois maridos seria apenas motivo pr'áparecer na capa das revistas. Assim, com as minhas responsabilidades políticas, oiço todos os insultos... chamam-me muçulmana às avessas, nova prostituta da Babilónia - imaginem!... como se alguém soubesse ainda onde fica a Babilónia no mapa terrestre! (Ri-se) Mas isso não me tem feito desistir, nem no amor nem na carreira. (Épica.) As contrariedades dão-me mais força ainda. São empurrões valentes na direcção da glória... (Breve êxtase. Depois, em tom mais coloquial.) E depois, como posso eu esquecer as centenas de amigos que tenho? Essa multidão de admiradores que me envia cibercartas maravilhosas, e só a delícia de vê-las vale-me dez sessões no massagista molecular e vinte frascos de pílulas da eterna juventude. (Limpa os olhos por causa da emoção.) Estou mesmo emocionada, acreditem, e afirmo-o sem pudores perante esta audiência em directo, não vão as más-línguas dizer que se tratou apenas de um holofote a ferir-me a vista de propósito para me fazer chorar.

Mas vou contar-vos um pouco da minha vida. Nasci numa manhã de Agosto na mais antiga das colónias lunares. Os meus pais tinham abandonado a Terra, quando a atmosfera se tornou irrespirável. Recusaram-se a viver nas cidades da época, todas em forma de túnel. Viver na lua era nesse tempo uma aventura. A técnica não desenvolvera ainda o sistema applenewton, que assegura uma gravidade constante, de padrão terreno, em qualquer lugar do espaço. Em criança, havia dias que não era capaz de levantar-me em virtude dos elevados valores de gravidade. São as crianças, por terem menor massa, que mais sofrem com estas mudanças. Outras vezes acontecia o contrário. Um dia em Blue Moon houve uma avaria séria nos sistemas; eu e os meus colegas do jardim de infância acabámos a flutuar numa berraria doida, com as mãos coladas às lâmpadas do tecto. Os nossos educadores, aflitos, nadavam no ar como peixes sem água, tentando dar o alerta de emergência. Infelizmente, uma das crianças da minha sala não resistiu ao choque de cair no tecto. Embateu numa placa metálica, e perdeu a vida. Chamava-se Michael e foi a minha primeira paixão, tinhamos nós três anos e meio. (Pausa emotiva.) Daqui já podem ver como sempre fui precoce. Ainda hoje me recordo de ter chorado muito e perguntar a toda a gente o que significava essa coisa de estar morto. Mas o tempo tudo apaga e dias depois lá estava eu a fazer olhinhos a outro menino da sala dos mais velhos. A vida é mesmo assim e a minha infância foi feliz. Dou graças aos meus pais por se terem aventurado em terra estranha. Para além da herança genética, está esta audácia que com eles aprendi e que agora mesmo me dá força para me expôr em directo. Mas na verdade, todo este ambiente de estúdio me é familiar. O meu pai, Tauro Pet, foi um dos técnicos responsáveis pelo bom sucesso das emissões nos primeiros tempos da televisão sensitiva, em Blue Moon, quando ainda nem na Terra essas emissões eram viáveis em termos económicos. Dizia-se que uma televisão em que as pessoas pudessem partilhar as sensações dos personagens, de dor ou de prazer, seria a ruína do audiovisual. E vejam só como em nossos dias esses receios nos parecem tão pré-históricos... E aqui não posso deixar de recordar a minha querida mãe, a grande Pussy Pet, actriz que arriscou a interpretação de todo o tipo de papéis na primeira época do cinema sensitivo. Desculpem-me ser uma filha a dizê-lo, mas Pussy Pet deixou-nos fitas inesquecíveis. (Evoca, orgulhosa e embevecida.) Quem de nós não vibrou até às lágrimas com o fabuloso filme Lunablanca, remake de um clássico do século vinte? Dividida entre o amor e o dever, a personagem de Pussy Pet abandonava o amante e escolhia acompanhar o marido, fugindo num módulo espacial de espionagem, para libertar os prisioneiros de um campo de concentração. E já agora, quem não partilhou com ela os orgasmos múltiplos de Instinto Universal, pondo perigosamente os comandos no máximo? É por isso que este filme ainda hoje é desaconselhado a cardíacos. Em Instinto Universal a minha mãe teve a coragem de interpretar uma psiquiatra ninfomaníaca, que se envolvia com os pacientes, induzindo-os à prática de crimes. Inspirado num caso real, resultou num sucesso estrondoso de cinema sensitivo, mas a minha mãe pagou por ele um preço demasiado elevado. Penso às vezes que ela nunca devia ter aceite o convite de Francesco Kópula. Pussy Pet estava no auge da carreira e não precisava exibir os seus talentos numa película semi-pornográfica. O jovem Kópula seduziu-a por completo do alto dos seus 25 anos, arruinou o casamento dos meus pais, viveu alguns meses com Pussy Pet depois da estreia e depressa a trocou pela actriz que em Instinto Universal fazia o papel de neta dela. (Pausa)

[Foi o princípio do fim da estrela que todos amamos, e eu, naturalmente, com um carinho muito especial. Fosse o desequilíbrio psicológico, fosse um efeito secundário das drogas de eterna juventude em que a minha mãe se encharcava, o certo é que de um momento para o outro ela tornou-se irreconhecível. Acompanhei-a nas várias clínicas por onde peregrinou nesses meses terríveis, mas já nada fazia disciplinar as suas glândulas, que a puseram tão gorda e pesada como um lutador de sumo. Era como se o corpo se vingasse de uma ditadura a que ela o subjugara ao longo de tantos anos. Inchada como uma rã gigantesca, onde não parecia haver vestígios da esbelta mulher que fora outrora, Pussy Pet não hesitou em aceitar, esse sim, o maior desafio da sua vida: rodar um filme naquele estado lastimável. Mas nesta história de tristes vencedores, houve outra pessoa com não menos coragem. Foi Tauro Pet, o meu pai maravilhoso que, a despeito de todos os ressentimentos, convidou a ex-mulher para protagonista da única longa-metragem que ele realizou em vida e que seria também a última aparição de Pussy Pet no cinema, antes desta morrer tragicamente durante o sono, asfixiada por uma almofada anatómica. (Enxuga os olhos humedecidos.) Despediram-se juntos de todos nós e é isso que hoje mais me sensibiliza ao assistir a esse filme chamado A Baleia Azul. (Pausa.) A Baleia Azul: um título que todos já conhecem para um filme que poucos tiveram ocasião de ver. Mas esse é um segredo prestes a revelar-se! A TvPhobos vai ter o exclusivo da estreia cósmica d'A Baleia Azul, no seu serviço por cabo em grande écrã doméstico, já na próxima semana! (Uma chuva de palmas pré-gravadas agradece a boa-nova.)]

São dramas de família. Os meus pais eram artistas. Mas a minha vida é mais pragmática. Se tenho algum talento é o de comunicadora. Gosto muito de falar, mas também de ouvir os outros. Muito me honrou por isso o mais importante dos convites que tive, como mandatária para a reeleição do nosso presidente. Olímpio Areia tem-nos ensinado a difícil tarefa de governar em democracia avançada. Não posso também esquecer o contributo dos meus dois queridos maridos: Ange Roi Pet e Franz Von Pet. Chegou o momento de apresentar estes dois homens especiais que partilham os meus dias e as minhas noites. Para eles eu peço o vosso aplauso! (ANGE ROI PET e FRANZ VON PET estão sentados lado a lado na primeira fila da assistência e levantam-se, agradecendo os aplausos de palmas pré-gravadas; dirigem-se ao palco, onde se sentarão em duas cadeiras para o efeito, ladeando LUCY PET. ANGE ROI PET, o engenheiro biónico, é negro e o seu vestuário manifesta os traços de um carácter extrovertido. FRANZ VON PET, o médico, é branco, louro de preferência; o seu traje deverá apresentar uma sobriedade convencional, algo fleumática. Vaidosa, Lucy pega na mão de cada um deles e interpela o público.) Vá, digam lá se eu não tenho bom gosto? (Acariciando-os no rosto.) Mas é sempre muito complicado saber quem escolhe quem... se calhar fui eu a escolhida por eles...

Foi tudo tão bonito que nem dá para crer. Planeámos o nosso casamento a três, celebrado segundo os rituais da Igreja Parabólica Marciana, que aceita e fomenta modelos renovados de família. Para esse mesmo dia, os meus maridos reservaram uma surpresa: como homenagem à memória de meus pais, decidiram adoptar o meu apelido de família: Pet. (Pausa.)

Já vai longa a minha presença nos écrãs da TvPhobos. Hélio! É altura de nos pores daqui para fora. (HÉLIOsurge em cena, ao som de palmas pré-gravadas, e dirige-se ao público.)

HÉLIO: Mas antes, vou dar uma notícia em primeira mão. (Olhar travesso para Lucy.) Não se deve desabafar com jornalistas, porque eles divulgam as mais privadas confidências. Pronto, e o segredo é este: Lucy Pet vai ser mãe pela primeira vez daqui a cinco meses. (Palmas pré-gravadas. LUCY PETleva as mãos à cara, estupefacta, comentando com os maridos, sem se ouvir o que falam, questionando-os de que forma Hélio terá sabido; faz gestos para eles, denunciando-os como potenciais delatores. Ambos negam com gestos de cabeça.) Tendo a dupla companhia de Ange Roi e de Franz no seu leito conjugal, podemos formular a mais antiga das perguntas: qual deles é o pai da criança? (Pausa expectante) O melhor é não fazer palpites, pois quem nos dá resposta é a engenharia genética. Lucy, Franz e Ange Roi seleccionaram um conjunto de genes seus que consideraram os mais valiosos para se perpetuarem num novo ser. A criança que Lucy espera, [cujo sexo não revelo para manter algum suspense,] é filha dos nossos três convidados. E Lucy Pet vai ser mãe integral, à moda antiga! Irá gerar o ovo no seu corpo, em vez de recorrer às ciberincubadoras. (Palmas pré-gravadas.) Chamo agora ao palco o padrinho da criança, que será também o próximo convidado deste talk-show. Nada mais nada menos que Olímpio Areia, o presidente de LiberAres! (OLÍMPIO AREIAlevanta-se do público e encaminha-se para a cena, enquanto HÉLIO, ANGE ROI, FRANZeLUCYo aplaudem, bem como a assistência virtual pré-gravada. Cartazes ou monitores de tv ostentam a frase: Aplaudir de pé com alegria - de modo a tornarem-se palavras de ordem para os espectadores. Uma vez junto de HÉLIO, OLÍMPIOsolicita-lhe o microfone para dizer algumas palavras.)

OLÍMPIO AREIA: Obrigado a todos e de hoje a uma semana, sou eu que aqui estarei no Quem é Quem, com o maior prazer, para vos falar de mim. (Palmas pré-gravadas. OLÍMPIOrestitui o microfone a HÉLIO, que, entretanto, fechará o programa.)

HÉLIO: Não esqueça! no próximo programa, poderá descobrir aquilo que sempre quis saber sobre o nosso presidente. Até lá, uma boa semana para si e fique, sempre, com a TvPhobos, um canal para todos os povos! (Palmas pré-gravadas. LUCY, FRANZeANGE ROIlevantam-se das cadeiras e juntam-se a HÉLIOe aOLÍMPIO, tagarelando os cinco ao centro da cena, como é comum acontecer no final de um talk-show. Do espaço da assistência surge o VELHO PAIdeslizando na sua cadeira giratória, até à boca de cena; estica um braço que segura o comando e prime os botões para apagar o écrã-palco. Após duas tentativas frustradas, em que as luzes falham mas voltam a acender, ele consegue, enfim aliviado, que tudo mergulhe na obscuridade.)

(1) O nome Roi lê-se, tal como Ange, de acordo com a pronúncia francesa.
 
 

 

 

 




 



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