NELSON BOGGIO

Fábrica do Vidro

ÍNDICE GERAL

Segundo acto                          

Cena VII

Vera: Carmo, chegaste. És mesmo tu?  

Carmo: Sou eu.  

Vera: Tu!  

Carmo: Sim. E tu ainda és...tu?  

Vera: Sim.

Carmo: Estás tão diferente.  

Vera: Mais magra.  

Carmo: E os ombros direitos como os de um capitão. Sim, eram mais frágeis.  

Vera: À força de os esborrachares para galgares os muros. Lembras-te?  

Carmo: Sim. E o rádio? O rádio, é verdade. Ainda está na despensa?  

Vera: na que tem as tralhas sim. Cinco anos.  

Carmo: Cinco anos. O que é que aconteceu? Estou tão...tão leve. Como tudo encolhe de repente. O que é que se passou na vinha? Deus meu! Até parece que o demónio tomou conta de tudo.  

Vera: Os grevistas.  

Carmo: Sim, tu disseste. Mas desde quando?  

Vera: Desde que ele quis. O Eduardo.  

Carmo: Mas não me foste ver.

Vera: Foi melhor assim.  

Carmo: Estás com um ar radiante, apesar de tudo. E o velho onde está?  

Vera: O pai foi encontrado num dos barracões a dormir. Encharcado em álcool.  

Carmo: Nada mudou. E o senhor Apolinário?  

Vera: Um louco extravagante. Está cada vez pior. Meteu na cabeça que é um cientista.  

Carmo: Não percebo porque o não leva ela.  

Vera: Ela habitua-se às pessoas do mesmo modo que dá valor às mobílias.  

Carmo: Já sei.  

Vera: Está aí um homem.  

Carmo: Um homem?  

Vera: Parecido com ele. Com o Eduardo. Juro. A primeira vez que o vi estava de costas voltadas. É um mistério. Um verdadeiro mistério. É motivo de conversa em tudo o que é praças.  

Carmo: E porquê?  

Vera: É muito parecido com ele. Mas não é por isso. Ainda não abriu a boca. Ninguém sabe nada dele. Parece que nos olha de uma forma...não me atrevo a olhar para ele. Um dia destes deixei cair um copo que se estilhaçou, e dei por ele a olhar como se visse qualquer coisa de extraordinário. Depois saiu.  

Carmo: É só mais um homem.  

Vera: E tu como estás?  

Carmo: Mais ou menos. Nem muito bem nem muito mal. Que horror. Não sei mesmo mentir.  

Vera: Se não te conhecesse... 

Carmo: Mais uma morte na minha vida. O meu marido. A falta de apetite, as tonturas...a falta de ar...e agora o Eduardo... se pusesse um fim à vida.  

Vera: Não fales assim.  

Carmo: E o pai? Ele não sabe, pois não? Ele não sabe. Por favor. Não lhe digam. Se souber...com o temperamento dele. Porque somos tão fracos todos? As pessoas. É terrível isso. Terrivel.  

Vera: Não digo, está descansada.  

Carmo: E se souber desmente tudo. Diz que o Eduardo partiu, que se foi embora.  

Vera: Sim.  

Carmo: E a mãe onde está?  

Vera: É a hora da limpeza.  

Carmo: Às onze ainda manda todos para a sala grande?  

Vera: Sim, e lá fica a arrumar.  

Carmo: A arrumar pois... 

Vera: Que queres dizer?  

Carmo: Eu não disse nada.  

Vera: Disseste sim.

Carmo: Esquece. É demais para uma noite só.  

Vera: Suspeitas o mesmo que eu?  

Carmo: E que suspeitas tu? Tão nova. Não, vamos ficar caladas.

Vera: Diz-me o que pensas. Senão faço-o eu.  

Carmo: Lembras-te do senhor Edmundo.  

Vera: O padre, sim.  

Carmo: Em momentos como este em que nos mandava para a sala, ele era o único que nunca estava. E lembras-te como ficava irritada se por qualquer motivo andássemos por aqui e por ali nos corredores? Um dia fui dar com ela na despensa grande. Não. Vamos deixar para outro dia.  

Vera: Como queiras.  

Carmo: Tinha um seio descoberto. Ela. Segui-a até à despensa. De repente senti um calafrio na espinha. Estava petrificada, não percebia nada. A chave estava na porta, mas ainda assim conseguia ver...e ouvir...uma voz de homem. Devo ter adivinhado pois assim que se preparava para dar uma volta à chave, entrei e surpreendi o velho completamente nu. Não se mexeu. Para ali ficou com a barba a dar-lhe pela barriga. Ela pediu-me imediatamente desculpa, afirmando ser culpa do pai. Fui-me embora desde esse dia.  

Vera: Então, não foi por causa do emprego que foste para a cidade.  

Carmo: Tornou-se insuportável para as duas olharmos para a cara uma da outra. E desde então jurei que só uma desgraça me faria voltar aqui.  

Vera: Temos de falar.  

Carmo: Vamos com calma.  

Vera: Temos de falar já.

Carmo: Calma.  

Vera: Porque é que não me disseste?  

Carmo: Não queria perturbar-te. E depois pensei que assim que ele fosse embora, ela parasse... 

Vera: Temos de falar com ela.  

Carmo: Esperamos pelo momento mais oportuno.  

Vera: Que é... 

Carmo: Amanhã. Não sei. Amanhã.  

Vera: Um Moldavo...suicidou-se.

Carmo: Não sei se me cruze com ela.  

Vera: Ouviste o que eu disse?  

Carmo: Sim, são uns inadaptados.  

Vera: Foi por causa do tédio. Sem a fábrica nada se faz que constitua novidade para a nossa vida.  

Carmo: Eu vou subir.  

Vera: Não queres saber?  

Carmo: Amanhã falamos. ( Pega nas malas).  

Vera: Eu ajudo-te.  

Carmo: Fico à tua espera de manhã no terraço.  

Vera: Não me atrevo. É lá que ele está.  

Carmo: O sósia do Eduardo?  

Nelson Boggio nasceu em Proença-a-Nova, no distrito de Castelo Branco. Aos 16 anos ingressa na escola profissional ACE no Porto onde teve as sua primeiras experiências teatrais com  o encenador Rogério de Carvalho, com os actores e professores João Paulo Costa e António Capelo, entre outros. Enquanto aluno da escola participou como figurante na peça de teatro O Coriolano, de Shakespeare, dirigida por Jorge Silva Melo. Entrou em peças encenadas pela escola. Desde Gil Vicente com direcção de António Capelo, a peças como Os sete pecados mortais dos pequenos burgueses, de Brecht com Kuniaki Ida com o qual desenvolve também a máscara neutra. Tem também ateliers à volta do Clown com Alan Richardson.  Aos dezanove anos entra para a Escola Superior de Teatro e Cinema, onde volta a reencontrar o professor e encenador Rogério de Carvalho, e onde começa pela primeira vez a trabalhar em cena os textos clássicos gregos. Tem também como professores o encenador José Peixoto, o Professor Luca Aprea em corpo, o professor Francisco Salgado, Álvaro Correia, João Mota, Carlos J. Pessoa, com o qual trabalhou três peças de teatro na sua companhia O teatro da garagem.  Participou na peça Os Anjos de Teolinda Gersão a convite do professor e encenador João Brites, em Palmela. Participou como actor na peça “Les Bonnes/ As Criadas” de Jean Genet com encenação de Paulo Alexandre Lage, em Julho de 2005 na Casa Conveniente em Lisboa. 

 

 

 

 




 



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