NELSON BOGGIO

Fábrica do Vidro

ÍNDICE GERAL

Primeiro acto 

Cena II

A hospedaria da senhora Henriqueta. Três da tarde. Henriqueta dobra panos que coloca em cima da mesa. Sala de estar. Chega a criada para ouvir as tarefas. O senhor Apolinário está sentado num dos cantos da sala a ler uma revista. Está de sobretudo e de chinelos.   

Henriqueta: Os quartos dos hóspedes.  

Criada: Sim minha senhora.  

Apolinário: Pim pam pum... para a ciência... pim pam pum... para a insciência.   

Henriqueta: Que fizeste ao cabelo?  

Apolinário: A fome indulta, mistura sacões de fruta.  

Criada: Nada minha senhora.  

Apolinário: Reza prolongada quanto baste, para afastar os católicos da ciência. Católicos da ciência.  

Henriqueta: Está aí um homem.  

Criada: Um homem minha senhora?  

Apolinário: Oh! Oh! Toda a actividade humana é criação de formas. ( Fazendo músculo) Curvilineas e fortes! A trote, a galope!  

Henriqueta: Parecido com o meu filho.  

Criada: Parecido?  

Apolinário: Aqui está: a pobreza na ordem dos sessenta por cento e a solidão como causa da queda do cabelo. Ena com os diabos. Hem dona Henriqueta, quer fazer um braço de ferro com este careca? Criação de formas.  

Henriqueta: Tens um fraco por ele?  

Criada: Pelo seu filho? Eu, minha senhora?  

Henriqueta: Não é nada do outro mundo.  

Criada: Não minha senhora.  

Henriqueta: Que fazias com as botas dele nas mãos? 

Criada: Limpava-lhas.  

Henriqueta: Não te compete. Ele tem mãos. É senhor da porcaria que acumula.  

Criada: Sim, minha senhora.  

Henriqueta: Vá, basta. Trata de acompanhar o hóspede ao quarto.   

Apolinário: Todos os ingredientes necessários para a queda no abismo: estudos recentes em ratos provaram que o homem...a ciência provou mais uma vez que o homem... Homem? Mas é um rato. (Gritando para a revista) Não sejas estúpido. Volta para a tua toca... ou para o som do clarinete dos vendedores de queijo!  

Henriqueta: Já chega! O senhor quer fazer o favor de se retirar?  

Apolinário: Eu fico calado.   

Criada: ( Voltando) E os lençóis, minha senhora? As toalhas, e falta também aspirar o quarto.   

Henriqueta: Diz-lhe que a partir das dezanove tudo estará composto. Até lá pode muito bem ir dar uma volta até à cidade e voltar. Ou se preferir tem um café do outro lado da rua.  

Criada: Talvez fosse boa ideia levá-lo à cidade. Lá sempre tem o cinema. Aqui é tudo tão entediante.  

Henriqueta: Levá-lo? 

Criada: Propor-lhe minha senhora.  

Henriqueta: E porque não levá-lo? Não é o que temos por costume fazer mas decerto o velho não fica aborrecido se a viatura contar com mais uns quilómetros. Por falar nisso: já está a pé?  

Criada: Sim, minha senhora. Esteve toda a manhã frente ao espelho e agora está na despensa.  

Henriqueta: Na despensa? Qual despensa?

Criada: Passa-se alguma coisa, minha senhora?  

Henriqueta: (Sentando-se) Não, nada. Fraqueza. Nesta idade quando se está muito tempo de pé...é o cansaço. E depois não sobra nada. Só cansaço. Um terrível cansaço. Uma agonia... que nos consome como se fôssemos... palha... uma imensa chama cá dentro.

Criada: Quer um chá?  

Henriqueta: Não. Tudo menos chás. Sabem a janela, a vidro de igreja. (Levantando-se) Está a ouvir?  

Criada: O quê minha senhora?  

Henriqueta: (Olhando em frente para cima) Vem lá de cima. Ouves?  

Criada: É a chuva a bater no toldo do pátio.  

Henriqueta: São sinos.   

Criada: Sinos? Está a delirar minha senhora.  

Henriqueta: Vem lá de cima. Vês o sineiro como o faz girar? É o filho do Severino. É o filho dele. Assim à distância julgaria tratar-se de um fantasma. Daqueles que ainda escolhem os locais de culto para dormirem.  

Criada: (Tendo seguido a senhora) Não está lá ninguém minha senhora. Há anos que não há missa.  

Henriqueta: Fazes pouco de mim. Todos vocês. Que sabes tu? Chegas aqui com esse ar de sonsa. Pensas que eu não sei que falas com o Eduardo?  

Criada: Quem é o Eduardo, minha senhora?  

Henriqueta: Quem é o Eduardo. O meu filho. O irmão das minhas filhas. Já calculava que não haverias de saber o nome dele.

Criada: Como assim?  

Henriqueta: Tem uma maneira muito sua de se apagar. De se tornar desinteressante,  sem o ser, e chato, sem o ser efectivamente. Calculo que o tenhas achado atencioso. 

Criada: Para ser sincera... 

Henriqueta: Fogo de vista, minha linda. Essa é sobretudo a sua estratégia mais recorrente. Nada que enganar. Tem a quem sair. Agora vai. O rapaz já deve estar farto de esperar.   

Criada: Sim senhora.  

Henriqueta: (Retendo-a) E diz-lhe que a água quente é sempre muito demorada.  

Criada: Sim minha senhora. 

Henriqueta: (Seguindo-a) Ter sempre cuidado com os espelhos. Nunca deslocá-los do sítio. 

Criada: Sim, minha senhora.  

Henriqueta: Há pantufas na despensa do primeiro piso. Os degraus ouvem-se muito de noite.  

Criada: Sim minha senhora. 

Apolinário: Lendo em voz alta para a Henriqueta e para a Criada que param para o ouvir com ar condescentente) À noite ela ainda cantava, afirmou o marido. Depois enfiei-lhe dois balázios. (Meditando) É isto a vida. O antes e o depois. Nada mais. Um tempo de ascensão e outro de declínio.  

(Entra o personagem Homem. A sua entrada surprende-as. Veste cores claras, vivas mesmo. Fica muito tempo a observá-las. Apolinário esboça com ironia o gesto de afastar a luz dos olhos. Depois subitamente sobe para a mesinha).  

Apolinário: Três formas de se esfolar um urso: Uma,( tira a manga direita do roupão) Duas( tirando a esquerda) E três! ( Joga furiosamente o roupão para o canto da sala). Adeus! Não suporto concorrência. ( Sai. Os outros três olham passivamente sem dizer nada. O «Homem» fica muito tempo a observá-las. Estas esperam que este lhes dirija a palavra. Como isso não acontece, é a criada que começa.):  

Criada: Boa tarde senhor. Vou já acompanhá-lo ao seu quarto. Tem aqui as chaves. ( Tira um molho de chaves do bolso) Porta de entrada...terraço, casa de banho, pátio...                                        

Henriqueta:  Fez muito bem em ter subido. A Manu vai já indicar-lhe o caminho. Sinto-lhe um ligeiro cansaço. Satisfeito ao menos? Esta é uma casa modesta, o ar aqui é muito menos poluído não acha? E tem a aldeia que é um encanto. A vila é já a alguns quilómetros. E depois tem a cidade. Olhe...chegue aqui. Veja só que magnífica vista. É uma capela. Sabe que tive aqui o padre Edmundo? Um excelente padre. Esteve aqui muitos anos no início...depois...vejo que está tudo do seu agrado. Sei que ainda é cedo para elogios, mas acho que nos vamos dar bem. (olha para a criada como se dissesse: atura-o tu.) Agora vou deixá-los. ( Sai na direcção oposta). 

Criada: Por aqui senhor...senhor...( Ele não fala. Ela sai. Ele segue-a)

(Aparecem o Velho bêbedo e o Espanhol. Só é Espanhol de nome. Não tem qualquer sotaque.)  

Velho: E depois conheço um óptimo exportador de Wiskie. As tralhas passavam para a outra despensa...é só falar com ela. E depois um bar aqui não é de todo uma ideia descabida não sei se me entende...além disso não percebo porque é que há mais de dez anos nunca ninguém lá pôs os pés. Um dia ainda descubro as coisas...os segredos que lá tem...Mas sentemo-nos...sei que fez uma longa viagem...da cidade até aqui...ainda por cima à noite... ( Ruído lá fora ao longe) Olhe...Já se ouve o barulho da greve...O meu amigo desculpe a indiscrição mas...o que é que pensa fazer depois disto tudo? Já houve quem dissesse que não tenciona dar seguimento ao negócio...que está mais virado para o leite...outros que vai construir casas para arrendar...não vai fazer isso pois não? Pode dizer...eu sou uma pessoa séria.  

(Aparece Vera atravessando o palco. Pára.)

Vera: Terei ouvido bem? Uma pessoa séria? Ouviram todos? Cuidado com as cabeças. É uma pessoa séria que vai passar. Francamente paizinho. Não é altura para brincadeiras.  

Velho: Filha, meu passarinho. Conta-me tudo. Estás tão triste... 

Vera: Devias poupar as bebidas para a passagem de ano! Não admira que ela não fale contigo.  

Velho: É uma velhaca. É má como as cobras.  

Vera: O que é que fazes aqui nesse estado?  

Velho: Queria falar com ela. Não estou tão bêbedo que não consiga falar. Vem cá minha filha. Vem cá...livrar-me deste Espanhol. Vem... 

Vera: Ah! É o senhor... 

Espanhol: Encantado! 

Vera: Encantada! Soube que vai arruinar uns quantos sopradores de vidro.  

Esoanhol: Menina... 

Velho: Espere. Espere. Sentemo-nos. Vera, filha, isso não são modos de se falar com um futuro investidor. Um dia vais agradecer-me por teres conhecido o homem que trouxe o progresso, a modernidade...há que ser-se absolutamente moderno...nos dias que correm... 

Vera: E a fábrica?  

Velho: Ainda não se sabe...que posso eu dizer?  

Vera: Pode explicar o que vai suceder com as famílias desempregadas. 

Espanhol: Eu acho que vou... 

Vera: Livre-se de fugir.  

Velho: Vera, filha, é inútil contornarmos os factos. 

Espanhol: Com sua licença menina... 

Vera: Não me venha com «menina». Diga antes: Senhora responsável pela qualidade do vidro laminado. Diga! 

Velho: Agora é que foi!... 

Espanhol: Só pode estar a brincar!  

(Vera subitamente vai buscar uma vassoura)

Vera: Ainda acha que estou a brincar?  

Espanhol: ( Defendendo-se na cadeira) Ajude-me! É a sua filha por amor de Deus! 

Velho: Nunca peça nada a um bêbedo!  

Vera: Diga! 

Espanhol: Senhora...responsável...( Levantando-se) Não tenho que me sujeitar...quem é que pensa que é? (Dirige-se para a porta. Vera antecipa-se. O mesmo para o lado oposto.)   

Espanhol: ( Ofegante) Menina! ( Senta-se em cima da mesa com a mão no peito).  

Vera: Menina outra vez?  

Velho: faça-lhe a vontade ou vamos ter festa. 

Espanhol: Menina... 

Vera: Ai...

Espanhol: ( Deitando-se na mesa.) Eu não sei que fiz para merecer isto...Isto são bárbaros!...Peço-lhe...eu sou...claustro...eu tenho claustro...fo...fo...

Vera: Fo...fo... 

Espanhol: Bia!  

Vera: Não! Senhora responsável pela qualidade do vidro laminado!  

Espanhol: Senhora responsável pela qualidade do vidro laminado...peço-lhe...deixe-me sair pela minha saúde... 

Velho: Vera, filha, deixa lá o pobre homem. Deixa-o em paz. Este homem tem muito que fazer.  

Vera: Ainda não respondeu à minha pergunta. Uma vez que o nosso património não lhe diz respeito, diga-me ao menos...as famílias...os trabalhadores...terão que se sustentar do ar suponho.  

Espanhol: Serão indemnizados...agora peço-lhe... 

(Entra Senhora Henriqueta) 

Henriqueta: Mas o que é que vem a ser isto?  

Espanhol: São eles minha senhora.  

Henriqueta: O que é que fizeram?  

Espanhol:Não me deixaram sair.  

Henriqueta: E porquê?  

Espanhol: Obrigaram-me a falar. ( Já mais recomposto)  

Velho: Não tive nada com isto. É a tua filha...está como ele. Como o Eduardo.  

Henriqueta: (Para Vera que continua com a vassoura na mão). Pousa isso ou levas uma sova. ( Indo ao encontro do Espanhol e depois para o Velho por estar bêbedo)E tu não sei como é que foste dar com as chaves outra vezmas uma coisa te garanto: da próxima vez que te voltar a dar um daqueles ataques ficas por tua conta e risco. (Levantando o Espanhol): Pronto...ora aqui vamos nós. ( para Vera) E tu menina...vai buscar um copo de água.  

Espanhol: ( Convalescendo) Pois...menina! (Saem) 

Velho: Fizeste-a bonita. Oh! Sim! Agora é que deitaste tudo a perder. Imagina só o que um homem destes podia fazer por nós. Estive prestes a conseguir que nos construísse um bar na despensa, mas agora nada feito.  

Vera: O desgraçado só está aqui porque não tem onde dormir! Mas porque é que eu estou a falar contigo, santo Deus?  

Velho: Já estou melhor. Então tens falado com ele.  

Vera: Com o Eduardo?  

Velho: Com quem mais?  

Vera: Sim, tenho-o visto. Esteve aqui hoje de manhã.  

Velho: Hoje de manhã? E não me disseram nada?  

Vera: Porque é que tu achas que só de manhã é que ele põe cá os pés?  

Velho: Porque o espertinho sabe que eu estou de ressaca. Se lhe ponho a vista em cima aponto-lhe o dedo e digo-lhe o que é que acho da sua vidinha revolucionária. Agora deu-lhe para agitador.  

Vera: Ora, tu farias o mesmo se não te pusesses nesse estado. A tua revolta contra a revolta dos outros deve-se ao facto de os não poderes acompanhar. Porque estás velho...perdido! (Vai ter com ele e abraça-o)

Velho: Não te ponhas com filosofias. Não há velhice que aguente. ( Para ela que continua a abraçá-lo) Agora aproveita esse estado de espírito e ajuda-me a ir até á despensa. Ver se chegamos antes dela.  

Vera: ( Levando-o) Não, não! Nem penses que te vais enfrascar outra vez.  

Velho: Não se discute com um bêbedo!

Vera: Já parou de chover. Vamos até ao terraço...apanhar um pouco de ar... 

Velho: Ar? Quem é que precisa de ar quando se tem uma pinga maravilhosa na despensa?  

Vera: Vá, não se discute com pessoas demasiado sóbrias.  

Velho: Pessoas demasiado sóbrias...hoje em dia somos nós.( Como se recitasse): « Se eu a dormir, nesse momento acordasse, talvez conseguisse ver a verdade em toda a sua glória. Mas como não teria a certeza de a conseguir ver, prefiro mil vezes afundar-me neste torpor e pensar que estou certo».  

Vera: Quem é que terá dito isso?  

Velho: Deixa cá ver. Alguém que gostava de castanhas assadas. Ah! Ah! Gostaste? Alguém que gostava de castanhas assadas! Ah! Ah! Ora como a maior parte dos filósofos gostava delas...não faço a mínima ideia. Sim, é o que se pode chamar um silo...silo...silogismo! Todos os burros são mamíferos! O homem é mamífero...o homem é um completo e grandessíssimo asno! Ah! Ah! Gostaste?  

Vera: Sim, vamos...Não querias chegar antes dela?  

Velho: Não o digas duas vezes. ( Acelera o passo. Saem.)

Nelson Boggio nasceu em Proença-a-Nova, no distrito de Castelo Branco. Aos 16 anos ingressa na escola profissional ACE no Porto onde teve as sua primeiras experiências teatrais com  o encenador Rogério de Carvalho, com os actores e professores João Paulo Costa e António Capelo, entre outros. Enquanto aluno da escola participou como figurante na peça de teatro O Coriolano, de Shakespeare, dirigida por Jorge Silva Melo. Entrou em peças encenadas pela escola. Desde Gil Vicente com direcção de António Capelo, a peças como Os sete pecados mortais dos pequenos burgueses, de Brecht com Kuniaki Ida com o qual desenvolve também a máscara neutra. Tem também ateliers à volta do Clown com Alan Richardson.  Aos dezanove anos entra para a Escola Superior de Teatro e Cinema, onde volta a reencontrar o professor e encenador Rogério de Carvalho, e onde começa pela primeira vez a trabalhar em cena os textos clássicos gregos. Tem também como professores o encenador José Peixoto, o Professor Luca Aprea em corpo, o professor Francisco Salgado, Álvaro Correia, João Mota, Carlos J. Pessoa, com o qual trabalhou três peças de teatro na sua companhia O teatro da garagem.  Participou na peça Os Anjos de Teolinda Gersão a convite do professor e encenador João Brites, em Palmela. Participou como actor na peça “Les Bonnes/ As Criadas” de Jean Genet com encenação de Paulo Alexandre Lage, em Julho de 2005 na Casa Conveniente em Lisboa. 

 

 

 

 




 



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