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Fiama Hasse Pais Brandão

Uma poesia generosa e de serena gravidade
(Ana Marques Gastão)          

Uma dádiva de amor à escrita e à leitura. Assim pode sintetizar-se a vida-obra de Fiama Hasse Pais Brandão. Poeta, dramaturga, ficcionista, tradutora, ensaísta, a autora de Cenas Vivas (2000), revelada no ponto de viragem que foi a Poesia 61 (juntamente com Casimiro de Brito, Gastão Cruz, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta), morreu na madrugada de sexta para sábado, às 20 e 50, em Lisboa. Contava 69 anos.

Partilhando na primeira fase da obra o adensamento verbal obtido pela forma como se privilegia a imagem no poema, o que caracterizou, numa inflexão contra a discursividade, a Poesia 61, com percursos bem individualizados, Fiama assumirá depois uma dimensão teorizadora, ensaística. E fá-lo-á no diálogo entre tradição e cultura, memória literária e contemplada, sem corpo vibrátil a não ser o do texto. Encaminhar-se-á nos livros finais para uma cada vez maior nudez, nunca alheada da fusão entre arte e natureza.

Biografia

A verdadeira biografia de Fiama Hasse Pais Brandão dir-se-ia a poesia, autora que é - segundo Jorge Fernandes da Silveira, um dos maiores estudiosos da sua obra -, de "um tratado de leitura da escrita". Em Lápide & Versão, colectânea de ensaios que acaba de publicar no Brasil, considera-a, no sentido renascentista do termo, "a mais universal dos poetas portugueses contemporâneos".

Ainda recentemente, Gastão Cruz, quando da edição de Obra Breve pela Assírio & Alvim - eleito o livro de 2006 pelo DN -, se referiu à sua escrita como "uma das linguagens mais autónomas e originais da poesia portuguesa da segunda metade do séc. XX" que documenta, por outro lado, uma capacidade de renovação constante e vontade permanente de reinvenção e de pesquisa. Fernando Pinto do Amaral não hesita em classificá-la como "um dos maiores poetas depois de Pessoa".

Fiama foi aluna do Colégio Inglês de Carcavelos, o St. Julian's School, e frequentou o curso de Filologia Germânica na Universidade de Lisboa. Exerceu crítica de teatro, acompanhou o trabalho do Grupo de Teatro da Faculdade de Letras, estagiando em 1964 no Teatro Experimental do Porto. Foi, em 1974, um dos fundadores do Grupo Teatro Hoje, sendo a sua primeira encenadora com Marina Pineda, de Lorca.

Tradutora de Brecht, Artaud, Novalis, Tchekov, Fiama era também ficcionista: escreveu, entre outras obras, Falar sobre o Falado (1989), Movimento Perpétuo (1990), Sob o Olhar de Medeia (1997) e Contos da Imagem (2005), distinguido recentemente com o Prémio Pen Clube de Ficção. No teatro, é autora de vários títulos, como Os Chapéus de Chuva (1960), O Testamento (1962), Poe ou o Corvo (1979), Quem Move as Árvores (1979) ou Teatro-Teatro (1990).

Monumento poético, Obra Breve (Assírio & Alvim, 2006), reunindo tudo o que a autora escreveu em matéria de poesia e dando a ler o que estava disperso desde a edição de 1991 da Teorema, revela a serena gravidade de uma escrita que, sentindo alguma nostalgia do classicismo, não deixa de ser de vanguarda, inclassificável como todas aquelas que marcam o seu tempo na perseguição vertiginosa, alucinada da palavra.

No seu humanismo das causas vitais, na temática das coisas do quotidiano, seja ele real ou imaginário, Fiama é uma leitora atenta, sagaz, procurando como motivo da sua poética contextualizar a tradição ocidental, seja no domínimo dos medievais, dos renascentistas, barrocos, neoclássicos ou românticos.

Trata-se de uma obra generosa a sua, integrada numa comunidade literária idealizante de que fazem também parte os mínimos seres da natureza, os bens da cultura, a ânsia de saber e uma feminilidade subtil, a que fala do amor como "olhar total que não pode se cantado nos poemas e na música porque é tão-só próprio e bastante" que acaba por cegar.

Diário de Notícias, Lisboa, 21 jan. 2007.

 
 
Ícone, poetisa portuguesa Fiama Brandão morre aos 69 anos

A intensidade de sua voz poética, o rigor e a depuração formal ficaram evidentes logo no segundo título de Fiama, "Barcas Novas", em que leitores mais atentos perceberam alusões à Guerra Colonial (das tropas portuguesas contra movimentos de libertação de antigas colônias africanas), embora sem registro panfletário fora da essencialidade poética.


"Uma das maiores depois de Fernando Pessoa"

Para o poeta, crítico e ensaísta luso Fernando Pinto do Amaral, Fiama Hasse Pais Brandão é "um dos maiores poetas depois de Fernando Pessoa", distinguindo-se por uma veia poética "muitíssimo singular".

Amaral acrescentou à Agência Lusa que a escritora "tinha um universo completamente dela", caracterizado por sua simplicidade, fundamental na poesia.

O crítico destacou a profunda ligação da poetisa com toda a natureza e sua "enorme fidelidade com relação a uma linguagem que era dela", o que torna sua obra uma "experiência muito inovadora".

"A sua forma de estar no mundo e sua relação com a natureza são suficientemente importantes para distingui-la no contexto poético português", concluiu.

LUSA 20-01-2007 13:20:26

Fiama Hasse Pais Brandão nasceu em 1938, em Lisboa. Poetisa, dramaturga, ficcionista e ensaísta. 

Viveu numa quinta em Carcavelos até aos 18 anos, tendo então mudado para Lisboa, de onde saiu em 1992 para voltar a viver numa quinta.
Foi aluna do Colégio Inglês de Carcavelos - St. Julian's School - durante dez anos e frequentou o curso de Filologia Germânica, até ao 3º ano, na Universidade de Lisboa. Exerceu crítica de teatro, acompanhou o trabalho do Grupo de Teatro da Faculdade de Letras, estagiou em 1964 no Teatro Experimental do Porto, frequentou um seminário de Teatro de Adolfo Gutkin na Gulbenkian em 1970. Em 1974, foi um dos fundadores do Grupo "Teatro Hoje", sendo a sua primeira encenadora com Marina Pineda, de Lorca. 

Tem feito pesquisa histórica e literária sobre o séc.XVI em Portugal. 

Tem feito traduções do Alemão, do Inglês e do Francês, de autores como John Updike, Bertold Brecht, Antonin Artaud, Novalis, Anton Tchekov e do Cântico Maior, atribuido a Salomão.

Revelada, como Gastão Cruz, no movimento Poesia 61, que revolucionou a linguagem poética portuguesa dos anos 60, Fiama veio a demonstrar ser uma das principais vozes poéticas da sua geração. A sua obra caracteriza-se por uma grande densidade da palavra, o uso de uma poesia discursiva, por vezes fragmentária, de grande rigor e depuramento formal, desde Barcas Novas (1967), seu segundo livro, sempre entrelaçando no discurso a metáfora e a imagem. Com a publicação de Obra Breve (1991), Fiama procede a uma reorganização de toda a sua obra poética até à data, incluindo inéditos, de acordo com uma ideia de poesia como processo vivo. 

Como dramaturga, é autora de várias peças, algumas das quais já representadas em Lisboa, Rio de Janeiro e Nancy.

Fonte:
http://www.mulheres-ps20.ipp.pt/Fiama%20Hasse%20P.Brandao.htm#Biografia

   
   

 

 

 


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