CASTRO GUEDES, encenador
PÚBLICO TEATRAL, ELEMENTO DA PRÓPRIA OBRA

O artigo que se segue foi publicado há aproximadamente três meses no jornal “Público” e a ele me referi no anterior artigo aqui sobre o teatro na província. A questão dos públicos (e da ausência de públicos) daria pano para mangas e  para uma muito mais longa exposição. Esta é apenas uma parte da questão – a da perspectiva dos criadore/produtores do objecto e alguma passividade que às vezes têm perante problemas a que, queiram ou não, não podem ser socialmente alheios. Por isso o trago à colação. Sobre o mais, muito mais, sobre públicos espero aqui voltar outra(s) vez(es)…

Peter Brook – sem dúvida um dos mais importantes encenadores e antropólogo do teatro no século XX  – abria há já 30 anos o seu livro “The Empty Space” com uma afirmação brilhantemente simples e verdadeira: “Tome-se um espaço vazio. Um homem atravessa-o enquanto outro o observa. Temos uma acção cénica”. De facto, independentemente de preferências estéticas ou ideológicas sobre o teatro, é fácil compreender o que de forma tão óbvia se desprende deste exemplo: o teatro acontece quando e porque um (o público) observa o outro (o actor).  Ou seja: para falarmos de teatro – Peter Brook é mais radical e diz mesmo apenas “acção cénica” – temos de falar do público.

Também a Constituição da República Portuguesa é clara na atribuição das obrigações do Estado nesta matéria, referindo-se explicitamente à “fruição cultural”. Ou seja: o que está em causa não é o virtuosismo da criação, nem o premiar os criadores, mas sim o garantir aos cidadãos a fruição do objecto criado, o que nem sempre os próprios criadores entendem, como se a sua condição de artistas fosse razão suficiente para “exigir” os apoios. Eu penso que não é (não deve ser) assim.

Mas hoje não quero debater isso mesmo. Antes quero trazer a público a questão dos públicos no teatro, numa época em que há falta deles nas salas.

Contestar passivamente este fenómeno com a nostalgia do quando não era ou na fé de que outros tempos virão, sem nada fazer para trazer o público ao teatro parece-me um absurdo. Tanto maior quanto o teatro é, por inerência da sua própria matriz, um acontecimento efémero: eu posso escrever um livro ou pintar um quadro para um público futuro; não posso fazer um espectáculo de teatro senão para um público concreto e contemporâneo da própria criação.

A ideação romântica de que basta abrir as portas de uma sala e, com mais ou com menos publicidade, esperar que o público acorra é um tremendo disparate, que, infelizmente, persiste no imaginário de muitos criadores como sendo o supremo ideal do êxito! E não é. Na sociedade actual – para citar de cor Inês de Medeiros numa entrevista, a propósito da sua irmã Maria ser uma “estrela” – “estrelas hoje em dia são só os jogadores de futebol”…

A responsabilidade social do artista hoje – se aceitamos que a tem – realiza-se antes de tudo na partilha da obra com os outros.  Trabalhar organizadamente os públicos como forma de garantir menos cadeiras vazias na plateia não é senão um complemento do próprio trabalho da criação, no sentido em que esta, voltando a Brook, só o é quando diante do outro.

Estratégias de reportórios e outras que condicionem o próprio acto criativo, do meu ponto de vista são legítimas e necessárias. Mas não é disso que obrigatoriamente falo. Digo é mais modelos de captação e fixação de públicos que passe por uma atitude proactiva, mobilizando espectadores, seja através de organizações próprias, seja no exercício de parcerias com outras organizações (associações culturais, escolas, juntas de freguesia, etc). E assumi-lo como parte integrante do serviço público da arte, sem constrangimentos, nem num jogo de gato e do rato com as instituições que suportam a criação. Ao caso a comunicação social como eco da própria, o Estado como financiador dos recursos para a viabilizar.

De resto, se se fizer uma radiografia dos públicos, onde eles os há com algum significado, logo se detecta esse mesmo trabalho, mesmo no teatro de massas comercial. Eu mesmo, há quase 20 anos, o percebi e acompanhei no estágio que fiz no Théâtre National de La Colline em Paris: mais de 60% do público era público organizado… E se, noutro registo, se olhar para as portas do Rivoli também se percebe que grande quantidade daqueles espectadores ali chegam organizadamente.

Disto tudo, porém, é preciso é de deixar de ter medo, vergonha ou pruridos de falsa moral artística e assumi-lo; e assumi-lo como um mérito. Demérito é deixar as salas vazias…

 

Castro Guedes

(jorge) castro guedes
encenador, natural do porto, nascido em 1954.
fundador e director artístico do tear (1977/1989), estagiou com jorge lavelli no théâtre national de la coline (paris) na temporada 88/89, autor e apresentador do magazine teatral "dramazine" na rtp2, onde foi consultor de teatro (90/93).
encenador convidado no teatro nacional dona maria II, serviço acart/gulbenkian, casa da comédia, teatro aberto/novo grupo, teatro villaret/morais e castro, teatro villaret/raul solnado, cendrev, filandorra, teatro universitário do porto, cenateca, plebeus avintenses.
director artístico do cdv - centro dramático de viana, companhia profissional residente no teatro municipal sá de miranda (viana do castelo).
professor convidado da escola superior de teatro e cinema (lisboa), escola superior de música e artes do espectáculo (porto), escola superior artística do porto, academia contemporânea do espectáculo (porto), convenção teatral europeia (lisboa), escola superior de hotelaria e turismo do estoril.
autor de "à esquerda do teu sorriso", peça em um acto, editora campo das letras; e de outras à espera de publicação.
acidentalmente copywritter na mccann/erikcson (90/92).
 
 

 

 

 




 



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