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UMA REVISÃO
Allan Graubard

Em 1998, a estadunidense Penelope Rosemont, integrante do Grupo Surrealista de Chicago, publicou, através da Texas University Press, o volume Surrealist Women, uma antologia do surrealismo a partir de suas vozes femininas. O livro suscitou alguns comentários da parte do poeta e ensaísta Allan Graubard que, na tradução do brasileiro Eclair Antonio Almeida Filho, agora publicamos neste dossiê (1), considerando fundamentais as reflexões que tal avaliação nos sugere. Allan Graubard nasceu nos Estados Unidos em 1958, tendo publicado Glimpses from a fleeing window (1992), e Fragments from nomad days (1999). [Floriano Martins]

Uma Revisão
Allan Graubard

Nunca entendi realmente a razão para antologias, além de um convite au voyage. Isto sendo dito, é útil para o editor de qualquer antologia reconhecer o terreno, seja por uma história suficiente, seja por interpretação, seja por uma mistura das duas, ou por quaisquer outros meios que satisfaçam a necessidade.

É claro, o problema das antologias é este: muitas delas fornecem um meio, por mais introdutórias que elas possam ser, com tão poucos motivos ou paixões adicionais para um leitor pegar a deixa e começar a folhear.

E apesar de seu título e tema, ou por causa deles, Surrealist Women encaixa-se no segundo campo. Tal como editado por Penelope Rosemont, este robusto volume é um bilhete de viagem, sem dúvida, mas para onde e como é ainda incerto.

Realmente?

O livro não torna disponível para o mundo que fala a língua inglesa uma seleção de textos por surrealistas, alguns conhecidos, muitos mais raramente conhecidos ou desconhecidos, e todos mulheres? Não é esta uma razão bastante atrativa para aceitar o que você deseja, esquecer o que você não deseja e deixar um no outro?

Gostaria que fosse assim.

Gostaria que Rosemont não fosse uma surrealista ou a principal animadora do Grupo Surrealista de Chicago. Se fosse o caso, eu poderia simplesmente culpá-la por parecer não entender o tipo de rigor pelo qual os surrealistas têm sido conhecidos desde o passado, e o qual, espera-se, deverá sustentar no presente. Eu poderia até encontrar um grande prazer nas obras presentes nesse livro, não mais tendo que evitar as fáceis introduções da editora para o livro todo e para cada seção cronológica.

Não, não sou fã do guia do turista literário. Quando datas, nomes e números proliferam, freqüentemente bocejo mais que aplaudo. Quando os principais conceitos que animam a revolta surrealista parecem como cachos de nomes banais sem bastante profundidade ou ressonância para dar-lhes vida como provocações, fico perplexo. E quando uma editora que deseja aumentar o interesse de seus leitores tem apenas um sucesso marginal, me pergunto o motivo.

A resposta não está tão distante.

Seu variegado jornalismo, todavia muito flutuante por causa de seus entusiasmos -- por revolta, poesia, écart absolu, amor, etc. – simplesmente não convence na letra ou no pensamento.

Há um outro fator constante até mais perturbador para Rosemont e seu cargo de editora: uma carência de consciências críticas para produzir um livro fundamentado na diferença de gênero.

Sim, ela é rápida para nos contar:

Diferentemente da maioria das correntes culturais e políticas do século XX, o Movimento Surrealista sempre se opôs publicamente da mesma maneira de facto a segregações por causa de linhas raciais, étnicas ou de gênero.

Obrigado por nos lembrar do excepcional valor do surrealismo a este respeito. Mas não é um valor que Rosemont leva a sério. E como que para racionalizar a questão, ela acrescenta essa apologia:

Meu objeto aqui não foi separar os sexos para excluir os homens, mas, antes, incluir mais mulheres do que as que já houveram sido até então incluídas numa antologia sobre surrealismo…. A exclusão de mulheres das compilacões então existentes justificou – naturalmente incitações, ao menos pelo interesse de exatidão histórica – um esforço para restabelecer a igualdade na balança ao enfatizar o que muitos outros têm negado . (p. xxi)

Por que Rosemont consideraria este esforço necessário para “balancear” uma injúria história feita a um movimento de expressão revolucionária que repudia a diferença de gênero como uma medida de distinção entre pessoas, ao restabelecer que a diferença está além de mim?

Sinto muito, teu sexismo a serviço da história faz pouca justiça ao surrealismo.

Ao mesmo tempo, não encontro em nenhum lugar ao longo desta antologia algum comentário sobre o caráter ou a qualidade subversiva das anteriormente aclamadas descobertas e técnicas surrealistas, além de Rosemont considerá-las numa rajada de superlativos. Certamente, a onda do “o que funcionou outrora, funciona igualmente bem agora” tem um pequeno lugar com nenhuma discussão das propensões surrealistas. Parece até menos coerente quando focada exclusivamente nas mulheres.

Não é dizer que Rosemont interpreta mal aquilo que aqui está ao seu redor. Apenas duvido que ela reconheça a confusão presente.

E isso é o obstáculo para todo o esforço.

Ainda numa perspectiva voltemo-nos para duas mulheres que Rosemont cita: a primeira uma ex-surrealista e esposa de Breton, a segunda uma surrealista contemporânea.

Jacqueline Lamba, quando ela descreve seu encontro com Breton e sua ligação com o surrealismo do final dos anos 1920 e início dos 1930, o coloca desta maneira:

Este escritos [surrealistas] ofereceram uma resposta definitiva a certos problemas que são extremamente difíceis de resolver individualmente.

Sem dúvida! E com Lamba o risco envolvido torna-se muito claro. Era, permanece, a preeminente razão de se considerar o surrealismo uma via à parte do estado de miséria da vida cotidiana. Ainda não encontro em nenhum lugar tal simplicidade de expressão, e sua concomitante honestidade, nas apresentações de Rosemont, à exceção de seu ardor, baseou-se na própria trajetória dela, porém vendadas por uma insípida retórica ornada com assuntos surrealistas.

A este mesmo respeito, podemos nos voltar para Annie Le Brun. Em sua breve apresentação de Le Brun, Rosemont conclui dessa maneira:

Ela [Le Brun] também experimentou estar entre as mais prolíficas, descompromissadas e individualistas, inflexível em sua recusa de ser “recuperada”, seja pelo aparato de repressão seja pelas pseudo-oposições reformistas deste aparato.

O que Rosemont não acrescenta aqui é a consistente recusa de Le Brun de ser “recuperada” por aqueles se consideram a si mesmos animadores do surrealismo contemporâneo, e que incluiriam Rosemont, o grupo de Chicago bem como outros por todo o mundo. Ao mesmo tempo, na leitura da apresentação de Le Brun a Lache tout, que Rosemont nos fornece, eu encontro aqui novamente tudo de que Rosemont carece: precisão de expressão, clareza poética, vivacidade, pensamento abrangente. É claro, o clamor de Le Brun por deserção é muito real. Não é limitado a outra coisa que o surrealismo, e não é de maneira alguma um artifício literário.

Tudo bem, vou me calar e tirar o chapéu para esses excepcionais poemas e textos espalhados ao longo do livro.

Para aqueles entre vocês que possam perdoar uma editora por uma indiscrição de suas confusões, este livro é para vocês, como eles dizem, da capa até a contracapa. Para aqueles que exigem clareza e provocação, e cuja necessidade por realidade é bem maior que qualquer desejo que a satisfação possa prover, suponho que estamos abandonados ao levar nossa vara de pesca entre as capas.

Uma advertência final: vocês amariam mapas de alhures, e desejariam usar este livro como um guia, mantendo seus sentidos em vocês. Vocês caminharão para dentro de uma noite erótico-magnética usando seus óculos de sol!

[ Washington, DC October 29, 1999]

A Review
Allan Graubard

[Surrealist Women, edited by Penelope Rosemont - 1998, Texas University Press]

I have never really understood the reason for anthologies beyond an invitation au voyage. That being said, it is helpful for the editor of any anthology to image the terrain, whether by sufficient history, interpretation, a mix of the two, or any other means that satisfies the need.

Of course, the misfortune of anthologies is this: too many provide a means, however prefatory they may be, with too few adding enough reason or passion for a reader to take the cue and begin packing.

And despite its title and theme, or because of them, Surrealist Women falls into the second camp. As edited by Penelope Rosemont, this hefty volume is a ticket, no doubt, but where to and how is still uncertain.

Really?

Doesn’t the book make available to the English-speaking world a selection of texts by surrealists, some known, many more barely known or unknown, and all of them women? Isn’t this a compelling enough reason to accept what you wish, forgo what you don’t and leave it at that?

I wish it were.

I wish that Penelope Rosemont were not a surrealist or a principal animator of the Chicago Surrealist Group. If that were the case, I could simply fault her for seeming not to understand the kind of rigor that surrealists have been known for in the past, and should be expected to sustain in the present. I could even find greater pleasure in the works offered within the book, no longer having to avoid the editor’s facile introductions to the book entire and to each chronological section.

No, I am no fan of the literary tourist brochure. When dates, names and numbers proliferate, I more often yawn than applaud. When the grand concepts that animate surrealist revolt appear as banal noun clusters without enough depth or resonance to give them life as provocations, I’m perplexed. And when an editor who wishes to enhance her readers’ interest has only marginal success, I wonder why.

The answer isn’t far off.

Her variegated journalism, however much buoyed by her enthusiasms -- for revolt, poetry, ecart absolu, love, etc. -- simply does not convince in the letter or in the thought.

There is another, even more disturbing constant to Rosemont’s editorship: a lack of critical consciousness to producing a book based on gender difference.

Yes, she is quick to tell us:

Unlike most 20 th century cultural and political currents, the Surrealist Movement has always opposed overt as well as de facto segregation along racial, ethnic, or gender lines.

Thanks for reminding us of surrealism’s exceptional value in this regard. But it’s not one that Rosemont takes to heart. And as if to rationalize the point, she adds this apology:

My aim here has not been to separate the sexes to exclude men, but rather to include more women than have ever been included in an anthology on surrealism….The exclusion of women from the existing compilations warranted – indeed compels, if only for the sake of historical accuracy – an attempt to restore the balance by emphasizing what so many others have denied. (p. xxi)

Why Rosemont should feel it necessary to “balance” an historical injury done to a movement of revolutionary expression that repudiates gender difference as a measure of distinction between people by reinstating that difference is beyond me.

Sorry, your sexism in the service of history does surrealism little justice.

At the same time, I find no where throughout this anthology any comment on the subversive character or quality of previously acclaimed surrealist discoveries and techniques, beyond her noting them in a spray of superlatives. Surely, the “what worked then, works equally well now” fad has little place within any discussion of surrealist proclivities. It seems even less coherent when focused exclusively on women.

This is not to say that Rosemont misunderstands what she’s about here. I only doubt that she recognizes the attending confusion.

And that’s the rub to the entire effort.

For perspective though let’s turn to two women that Rosemont cites: the first a former surrealist and wife of Breton, the second a contemporary surrealist.

Jacqueline Lamba, as she describes her encounter with Breton and her attraction to the surrealism of the late 1920s and early 1930s, put it this way:

These [surrealist] writings offered a definitive response to certain problems that are extremely difficult to resolve individually.

No doubt! and with Lamba the risk involved grows quite clear. It was, it remains, the pre-eminent reason to consider surrealism a route out of the maze of misery of daily life. Yet nowhere do I find such simplicity of expression, and its concomitant honesty, in Rosemont’s introductions except for her ardor, based on her own trajectory, but veiled by a wooden rhetoric emblazoned with surrealist concerns.

In this same regard, we can turn to Annie Le Brun. In her brief on Le Brun, Rosemont concludes this way:

She [Le Brun] also proved to be among the most prolific, uncompromising and individualistic, adamant in her refusal to be “recuperated” either by the apparatus of repression or its reformist pseudo-oppositions.

What Rosemont does not add here is Le Brun’s consistent refusal to be “recuperated” by those who consider themselves animators of contemporary surrealism, and which would include Rosemont, the Chicago Group as others around the world. At the same time, in reading Le Brun’s introduction to Lache tout, which Rosemont does provide us with, I find here again everything that Rosemont lacks: preciseness of expression, poetic clarity, verve, embodied thought. Of course, Le Brun’s call for desertion is quite real. It is not limited to everything other than surrealism, and is definitely not a literary device.

All right, I’ll shut up and tip my hat to those exceptional poems and texts scattered through the book.

For those of you who can forgive an editor the indiscretion of her confusions, this book is for you, as they say, from cover to cover. For those who require clarity and provocation, and whose need for reality is greater than any wish fulfillment can provide, I suppose we’re left with taking our pick between the covers.

One final caution: Should you love maps of elsewhere, and wish to use this book as a guide, keep your senses about you. You’ll be walking into an erotic-magnetic night with your sunglasses on!

 

[Washington, DC October 29, 1999]

 
(1) Veja a Revista Agulha, em http://www.revista.agulha.nom.br/
 

 

   
   

 

 

 


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