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O caleidoscópio encantado da colagem
FRANCISCO VÉJAR

Mais de dois mil anos! A origem da colagem remonta-se à época da invenção do papel, na China do século II depois de Cristo. Obviamente, as folhas permitiam os recortes e, logo, a ligação entre eles, transformando essa acoplagem num instrumento de criação. As colagens mais antigas que se conservam são manuscritos japoneses do século XII, nos quais cada uma de suas páginas está constituída por faixas de papéis de cores justapostas, em cujas superfícies se escreviam os textos; o leitor, assim, convertia-se em espectador.

Deste modo, vemos que a literatura e a colagem têm estado sempre vinculadas. No cenário chileno, duas obras encaixam-se nesse tipo de trabalho literário e visual: El gran solipsismo. Obra Visual de Juan Luis Martínez (Puntángeles, Universidad de Playa Ancha), do acadêmico José de Nordenflycht; e La inquietante extrañez (Be-uve-dráis Editores), coleção de imagens de Cecilia Echeverría com textos de Armando Uribe.

No caso de Martínez (1942-1993), tudo começou em 1977 com La nueva novela, obra que utiliza como suporte a colagem. Veja-se, como exemplo, a página 75, na qual há dois anzóis pregados com fita adesiva. Este admirador de Man Ray, Picabia e do movimento dadá, gozava, no final dos anos sessenta, de uma “aura rebelde”. Andava de motocicleta e era assíduo do café Samoiedo, em Viña del Mar. Durante anos foi preparando suas colagens, que são o prolongamento de La nueva novela, reunidas na última parte do livro de Nordenflycht, antecedidas por um estudo que tenta elucidar as fontes. Um dos “trabalhos visuais” intitula-se Campo de cerezas (1975), no qual aparece o rosto adolescente de Rimbaud. Outro se chama Vitrina para el poeta Raymond Queneau, do mesmo ano. Como diria Lester K. Nowak: “Toda obra é o espelho de outra”. Martínez não está alheio a essa situação e em não poucas de suas obras se manifesta a presença de outros vates como esse.

O poeta Armando Uribe (1933-) realizou um trabalho distinto com as colagens ao associar-se à sua esposa Cecilia Echeverría (1930-2001), que nos últimos três anos de sua vida se dedicou completamente à sua obra artística. Suas primeiras colagens remontam ao final dos anos setenta. Eram edições de um só exemplar de manuscritos de Uribe, que ela mesma confeccionava e em cuja capa inseria um de seus trabalhos. Cada vez que Cecilia terminava uma colagem, deixava-a na sala de estudos de Armando Uribe e então surge a relação mais direta do poeta com as imagens. Pouco a pouco ele foi inserindo palavras às colagens, o que é visível em La inquietante extrañez. Na montagem Homenaje a Neruda (2000), Uribe escreve: “E as meninas desceram/ pelas escadas finais./ Não são as que eram/ as passarinhas do poeta pássaro”. Em suma, os trabalhos de Cecilia Echeverría são uma ponte entre o passado e o presente, e nos deixam a marca de uma composição dinâmica e poética.

Huidobro e o grupo Mandrágora

Convém perguntar o que é a colagem num sentido estético. Segundo o poeta norte-americano T. S. Eliot (1909-1962), que não esteve alheio a esse tipo de possibilidades e que em La tierra baldía de 1922 utilizou livremente esse procedimento, definiu a colagem como um “correlato objetivo” desta maneira: “Consistiria em utilizar como símbolo de uma coisa, outra coisa. Síntese do alheio que se desprende de um objeto, inclusive contradizendo-o. Isto ocorre não só na poesia, mas também constitui a essência da colagem”. Por sua parte, Jacques Prévert (1900-1977), escritor francês surrealista, também se sentiu fascinado por essa prática, vista como outro espaço para a ironia e o humor. Prévert afirma: “Collage: situação de um homem e uma mulher que vivem juntos sem que estejam casados”.

O surrealismo é uma peça chave. Da Europa, voltando ao Chile em 1932, Vicente Huidobro trouxe revistas e reproduções como Minotaure ou La revolution surrealiste, nas quais estão publicadas obras de André Breton, Marcel Duchamp e Benjamin Péret, para citar apenas alguns. Em sua casa do então resplandecente balneário de Cartagena [a duas horas de Santiago], mostrou-as aos jovens Volodia Teitelboim, Eduardo Anguita, Enrique Gómez-Correa e Braulio Arenas, entre outros. Dessas chispeantes tertúlias nasceu o grupo Mandrágora, fundado em 1938, o qual aderiu aos postulados de Breton. Mandrágora propôs-se a realizar todas as alquimias possíveis, com o propósito, segundo Gómez-Correa, de “fazer da vida e do mundo o mais maravilhoso dos collages”.

Em 1941, Mandrágora realizou sua primeira exposição, na qual o público via collages, desenhos, pinturas, esculturas e objetos visuais de Braulio Arenas e Jorge Cáceres. Fernando Onfray – quem nesse mesmo ano publicava seu livro de poemas Trillada Fábula en Pro de la Abolición del Colmillo [Repetida Fábula em Prol da Abolição do Dente Canino], com ilustrações de Arenas – disse sobre a referida mostra: “Foi nos salões principais da Biblioteca Nacional. Os collages que aí se apresentaram tinham um valor pictórico e muito disso radicava no contraste visual que manifestavam. Para mim, essa exposição foi um sinal positivo, pois era a primeira vez que via um desdobramento de tamanha magnitude”.

Experiências vizinhas

A busca não cessou depois dos surrealistas. Nos anos cinqüenta, Nicanor Parra, Enrique Lihn, Alejandro Jodorowski, Luis Oyarzún, Roberto Humeres, Jorge Sanhueza e Jorge Berti criaram o mítico Quebrantahuesos [Quebra-ossos]: “Poesia mural – segundo assinala Jaime Quezada – feita sobre a base de recortes de jornais seguindo as normas do collage e antecipando a arte pop”. Tratava-se de uma exposição realizada com grande êxito nas vitrinas de um restaurante vegetariano, por volta de 1952, no centro de Santiago. Estes murais estão feitos com grande sarcasmo, e não isentos de conteúdo. Num deles vemos a seguinte legenda: “HÉROIS DA PAZ / ATENTARAM CONTRA A VIDA DE PIO XII”. Com data de 1975, todas aquelas imagens compostas a partir de recortes de jornais chilenos foram reunidas na publicação Manuscritos, do Departamento de Estudos Humanísticos da Universidad de Chile.

Já em plena década de setenta, Alfonso Alcalde (1921-1992), entre as diversas atividades que alternava com seu trabalho poético e narrativo, também incorria no collage. Testemunha sua amiga Iris Largo: “Trabalhávamos juntos na editorial Quimantú, sob a direção de Joaquín Gutiérrez. Alcalde dirigia a coleção Nosotros los chilenos. Ali me mostrava os collages que fazia para presentear os amigos ou para vender em caso de necessidade. Eram autênticas obras de arte que ao mesmo tempo tinham elementos que expressavam seu interesse pelo social”. Na maioria dessas obras, conservadas até o presente, aflora como principal tema as raízes aborígines da América Latina. Em vida, o poeta alcançou reunir cerca de setenta trabalhos que, no final dos anos 80, em Concepción, integraram duas retrospectivas contempladas com grande interesse pelos visitantes. Pouco tempo antes de morrer deixou inédito um Manual de como fazer collage, dirigido especialmente para as crianças.

Seguindo uma rota similar, o poeta Ludwig Zeller (1927-), depois de radicar-se em Toronto, Canadá, edita El Huevo Filosófico [O Ovo Filosófico], revista de poesia em que entrelaça imagem e verso. O primeiro número (a coleção alcançou completar dez) data de 1º de março de 1980. Em suas páginas resgatou poemas de notáveis como Henri Michaux, Enrique Gómez-Correa e Alvaro Mutis, todos acompanhados por collages alusivos ao mundo surreal de seus autores. Na referida revista, também estão publicados trabalhos do mesmo Zeller relativos a este tipo de técnica plástica. Zeller ilustrou seus próprios cadernos de poemas com collages. Só para citar dois exemplos: Mujer en sueños (1975) e En el país de las antípodas (1979).

Gonzalo Millán (1947-) é outro dos poetas chilenos que praticou este procedimento. Segundo o próprio Millán: “Durante os anos sessenta, enquanto escrevia Relación personal (1968), e nos setenta, escrevendo La Ciudad, realizei muitos collages de tipo surrealista, seguindo a Max Ernst, com gravados antigos de enciclopédias. Depois passei ao collage do tipo pop-art, que montava em caixas de fósforos coladas formando retículas. Posteriormente, já no Canadá, esta técnica foi fundamental para a confecção de uma poesia visual que chamaria Poesia Plástica, entre 1975 e 1985”. Nessa mesma época, Millán realizou em Toronto duas exposições de suas obras visuais e para comemorar tais eventos desenhou, em 1985, um selo de “correio” com cópias serigráficas chamado “Levitaciones plásticas”. Atualmente trabalha com fichas nas quais estampa palavras e desenhos com nanquim.

Definitivamente, Braulio Arenas, Jorge Cáceres, Juan Luis Martínez, Armando Uribe, Ludwig Zeller e Gonzalo Millán são todos poetas unidos pelo afã de experimentar o collage, com o qual abrem novos caminhos à literatura, fundindo a palavra escrita em distintos recursos gráficos.

 
Francisco Véjar (Viña del Mar - Chile, 1967). Poeta, professor universitário, colaborador permanente da “Revista de Libros” (do jornal El Mercurio) e da revista “PROA en las Letras y en las Artes” (Buenos Aires-Santiago). Autor de Fluvial (1988), País Insomnio (2000), Georg Trakl. Homenaje desde Chile (em co-autoria com Armando Roa Vial e Sven Olson, 2002), El emboscado (2003) e Bitácora del emboscado (2005), entre outros. Seus poemas têm sido traduzidos ao italiano, inglês, croata e português. Tem divulgado a obra de Hilda Hilst no Chile. Ensaio traduzido por Cristiane Grando.
 

 

   
   

 

 

 


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