Artur Manuel Rodrigues do
CRUZEIRO SEIXAS

Cruzeiro Seixas:
“A minha vida foi uma experiência muito bonita”
Entrevista de Vladimiro Nunes

Artur Manuel Rodrigues do Cruzeiro Seixas nasceu na Amadora a 3 de Dezembro de 1920. Aos 14 anos, ingressou na Escola de Artes Decorativas António Arroio, onde conheceu Mário Cesariny, com quem militou no Grupo Surrealista de Lisboa e, depois da cisão deste, em 1949, no grupo Os Surrealistas, ao lado de António Maria Lisboa e Mário Henrique Leiria, entre outros. Depois de uma segunda exposição colectiva, em 1950, Cruzeiro Seixas partiu para África, onde permaneceu até 1964. Desde então, e até hoje, perde-se a conta ao número de exposições que fez e que o tornaram um dos artistas portugueses mais celebrados. Tudo porque este homem que pinta – a designação de 'pintor' aborrece-o – não consegue ter a mão quieta: desenha sempre, onde quer que esteja. Sem valorizar muito aquilo que faz – o que terá levado o poeta, desenhador e crítico francês Édouard Jaguer (1924-2006) a chamar-lhe “talento insolente à força de modéstia” -, continua, aos 88 anos, a ser um surrealista convicto e a olhar para o futuro: “Preparemo-nos, pois esta civilização ainda vai durar uns séculos; ainda temos de tornar animais domésticos o elefante, o jacaré, etc., etc…”. [VN]

VN Costuma dizer que a pintura é, para si, uma necessidade de certa forma fisiológica.

CS Eu não gosto de pintar, são as mãos que mo exigem. Elas trabalham quase completamente sozinhas. Aquilo que faço é uma obrigação, nunca me deu prazer, nunca. Às vezes, no fim, colho a esperança de que a mensagem seja recebida por alguém. Muitas outras tenho querido desistir, mas é bem possível que, ao morrer, ainda esteja a desenhar.

VN Não acredita naquilo que faz?

CS Não acredito ter a dose de genialidade indispensável a um pintor. Isso de ser genial deve ser um susto. Interesso-me apaixonadamente pela pintura, mas pela dos outros: a de Grünewald, a de Bosch… Às vezes, o que faço parece-me passável, mas vejo-o sempre mais como um depoimento do que como obra de arte. Lá porque pinto chamam-me pintor. Lido mal com isso, porque há outras coisas que faço com igual paixão.

VN Estudou na Escola António Arroio, num pequeno edifício por trás do Liceu Camões, em Lisboa. O que guarda desse tempo?

CS Nunca aprendi nada com os professores e tenho uma certa vaidade nisso. Eles não gostavam de mim e eu pagava na mesma moeda. Hoje há quem diga que há algum sentido no que desenhei e pintei, mas na António Arroio chumbei três vezes. A verdade é que outros professores chumbaram Teixeira de Pascoaes, Amadeo de Souza-Cardoso, etc., etc.

VN Se não aprendeu com os professores, aprendeu com quem?

CS Com os colegas. Puseram ao meu lado um rapazinho mulato, o António Pimentel Domingues, que desenhava muitíssimo bem. Foi a olhar para os desenhos dele que aprendi. O António era um tipo extraordinário, único, sem maldade. Uma vez estávamos naquelas brincadeiras de rapazes de 17 anos, empurra para aqui, empurra para ali, e parecia não estar ninguém a ver-nos. Havia uns modelos em gesso encostados à parede, um deles caiu e partiu-se. Pusemos tudo tão direito quanto possível e fugimos. Claro que no dia seguinte fomos chamados ao gabinete do director, o [pintor] Falcão Trigoso, que com os dois em pé defronte dele nos perguntou solenemente - primeiro a mim - qual de nós tinha partido o modelo de gesso. A minha resposta foi que não tinha partido nada, mas o António, muito tranquilamente, disse: 'Fui eu, senhor director'. Ainda hoje sinto uma aflição e uma vergonha enormes quando penso nisso. Como vê, com o António Domingues não aprendi só a desenhar, também aprendi a não mentir.

VN Foi ainda na António Arroio que, depois de uma fase neo-realista, encontrou Mário Cesariny e o Surrealismo.

CS Acho que o Mário e eu tínhamos uma espécie de paixão, dessas paixões que acontecem aos adolescentes. E talvez excedesse um pouco esse momento. Andávamos sempre juntos, fazíamos esta Lisboa toda a pé. Foi com ele que aprendi que o Homem tem outra dimensão além da física. Em compensação, talvez ele tenha aprendido comigo que também temos uma admirável dimensão física. A vida é, de facto, um escândalo para a razão.

VN Fizeram essa aprendizagem numa época pouco propícia, de ditadura.

CS A nossa primeira reacção era sermos contra o que passava todos os dias diante dos nossos olhos. Nesse aspecto, a ideia do neo-realismo era a única porta que havia. Já tenho dito diversas vezes que nós reinventamos Dada e até uma espécie de Surrealismo sem André Breton, porque este país era o fim do mundo, nada chegava aqui. O pequeno café Herminius - que é hoje uma agência funerária –, à Almirante Reis [em Lisboa], era o local de eleição – ou, como escreveu o Cesariny, era 'a nossa Suíça, 30 metros abaixo do nível da terra, contra o irrespirável mundo exterior'. Depois lá se foi descobrindo que havia uma ideia chamada Surrealismo. O Risques Pereira, o António Maria Lisboa e o Cesariny conseguiram ir a Paris e trazer na bagagem dois ou três testemunhos de um outro mundo. Naquele tempo, tudo isso eram grandes aventuras, com os seus perigos. Hoje é difícil compreender o que Paris significava: era o centro do mundo, talvez mais importante do que é agora Nova Iorque. Aqui não acontecia nada. No entanto, lembro-me de passar por acaso em São Pedro de Alcântara e ver uma seta que apontava 'Exposição'. Era o S.N.I. – Secretariado Nacional de Informação –, dirigido por António Ferro, que tentava convencer Salazar a aceitar a modernidade. Lá dentro, deparei-me com uma exposição de Amadeo de Souza-Cardoso, que eu então desconhecia completamente. Não é sem emoção que recordo esse primeiro contacto.

VN Foi aí que descobriu a pintura.

CS De certa maneira, sim. Lá em casa só se falava da pintura do Roque Gameiro, que era das relações dos meus avós. As senhoras ainda não tinham cortado os longos cabelos, mas patinavam num ringue muito chic na Amadora, que na altura era lugar de veraneio… A minha mãe e as filhas de Roque Gameiro divertiam-se com a patinagem e com o 'animatógrafo'. Mas esta entrevista alongava-se demasiado se lhe contasse tudo o que, de certa forma, já era 'arte' nos meus cinco anos… Mais tarde, as paisagens e os costumes saíam dos livros de Júlio Dinis. E descobriam-se as extensas praias, então completamente solitárias, onde pousavam os barcos de pesca, perfeitíssimos na sua curvatura e com um grande olho fenício pintado na proa. Havia a máquina de costura, o ferro eléctrico, a máquina de escrever, o automóvel, o telefone, tudo na sua simpática infância. Depois trocou-se a máquina sublime que é a alma por mil maquinarias desnecessárias. Antes delas, a vida tinha outra plenitude… A alguns quilómetros, num café ou na paragem do eléctrico, estavam Artaud, Picasso, Brauner, Buñuel, ou Duchamp, que prometiam um mundo muito diferente deste.

VN É um homem de esquerda. Como desenvolveu a sua consciência política?

CS Os meus avós, tanto maternos como paternos, eram fervorosos republicanos. Só que a República foi por demais instável e os meus pais, por reacção, eram salazaristas. Mas do Salazar sabem bem os da minha geração: uma ditadura católica, sufocante, que espreitava a cada esquina. A liberdade é o máximo a que devemos aspirar, mas o que é a liberdade sem sensibilidade? E tão indispensável como a liberdade e a sensibilidade é a paixão. Se o ensino existisse de facto, era sobre o conteúdo destas palavras que se devia basear, não sobre um mero diploma para ganhar dinheiro e posição social. Parece-me que não é preciso frequentar escolas de Belas-Artes para criar obras que abram visões ao futuro, mas há quem persista no erro de que só quem passa longos anos pelo ensino superior estará preparado para ter voz nesta civilização. Ora isto é um erro trágico. O mau estado do mundo advém de quê? É evidente que os principais responsáveis são os que passaram pelo tal ensino superior. Ou não há responsáveis?

VN Falou em liberdade, sensibilidade e paixão. Não admira que o apelo do Surrealismo vos tenha seduzido.

CS Estávamos em 1947, e esse foi o momento em que nos fomos encontrando uns aos outros. O dinheiro não era, como hoje, o objectivo a atingir. Será risível para muita gente, mas tínhamos ou procurávamos ter ideais! E assim cada um ia conquistando a sua própria liberdade. Nunca pedi nada a ninguém, nunca ninguém me deu nada, não tenho nada a agradecer. Queria que o que fiz fosse reflexo do 'automatismo psíquico' preconizado pelos surrealistas. Queria que fosse visível no que fiz a beleza convulsiva que vivi. Como no verso de Herberto Helder: 'Até que Deus é destruído pelo extremo exercício da Beleza'.

VN O Artur nasceu na Amadora e por lá viveu…

CS Nasci na Amadora, mas só lá vivi até aos cinco anos. A casa onde nasci foi demolida, para indignação da Natália Correia. Lembro- -me que havia uma boa pereira no jardim e que o muro confinava com o primeiro ou dos primeiros campos de aviação dos 'malucos das máquinas voadoras'… E lembro-me de uma grande litografia emoldurada: 'Camões lendo Os Lusíadas a D. Sebastião'. Os meus pais eram burgueses com educação esmerada para aqueles tempos, em que a grande distinção eram o piano e o francês. O meu avô era comerciante e tinha uns primos como sócios. Morreu cedo e os tais parentes roubaram o mais que puderam. Não havia dinheiro lá em casa. Mas a quantidade de caixas de espartilhos e de estojos de jóias vazios que ainda encontrei davam a ideia de um certo luxo. O meu pai era empregado de escritório na CP, a minha mãe dava lições de bordados e de rendas para equilibrar o orçamento. Por isso, eu não tinha dinheiro para cinemas, nem sequer para o café. Naturalmente, descobri muito cedo outros interesses.

VN Tais como?

CS A homossexualidade, por exemplo. Embora os cafés fossem um ponto de encontro a que não se podia fugir, apesar da desconfiança de que na mesa ao lado havia alguém da PIDE… Havia cafés com diversos andares e estava sempre tudo cheio. Alguns até eram muito bem decorados. Eu, quando ia, era arrastado pelo Mário, e sempre com um bocadinho de sacrifício. Era ele que me pagava o café a maior parte das vezes. É que há uma coisa que vocês, hoje, devem ter dificuldade em compreender: por exemplo, ia muita gente à Brasileira que também não tinha dinheiro para o café, era assim, duas filas de cadeiras à volta de uma mesa onde só estavam duas chávenas, porque só dois é que faziam despesa, os outros estavam só ali… Como o meu dinheiro era pouco, mesmo sem ter lido ainda todo o Breton eu preferia, tal como ele, a rua e o excesso dos encontros e desencontros que ela possibilitava. Tudo isto é antiquíssimo, embora tenham passado apenas uns quarenta e tal anos…

VN Tempos de grandes encontros…

CS Logo seguidos de grandes desencontros, de que todos tivemos a nossa parte de culpa. Lastimo que tenham acontecido, mas reconheço a sua inevitabilidade, ainda que, na maior parte das vezes, os desencontros sejam uma coisa desastrada. Gosto de manter a meu lado aqueles que têm posições opostas às minhas e, no entanto, vi-me envolvido em histórias dessas, tantas vezes injustas… E que também aconteceram com o Grupo de Paris, em que havia gente muito inteligente, tocada pelo génio… Só que eles, em França, tinham gente excepcional que ali acorria de todo o mundo e podiam reinventar o jogo a cada momento. Nós aqui temos possibilidades e sensibilidades muito diferentes, de certa forma únicas. Parece-me de uma grande beleza e coragem que, em 1969, depois da morte de Breton, se tenha dissolvido o Grupo de Paris. Breton tinha escrito que 'a noção de escola, e mesmo de grupo surrealista, é aberrante'. Sempre nos classificámos como anti-grupo. Lamentavelmente, há quem ande aí a brincar com coisas dessas.

VN Ainda antes da primeira exposição do Grupo Surrealista de Lisboa, em 1949, dá-se a cisão com António Pedro.

CS Nunca tive qualquer tipo de relacionamento com o António Pedro. Lembro- -me de o ver subir o Chiado pelas cinco horas, com as suas luvas brancas, mas a pintura dele só por equívoco pode ser colocada ao lado da de António Dacosta. O Mário foi um dos fundadores desse grupo, mas fugiu logo esbaforido. A mãe e as irmãs veraneavam em Moledo do Minho e foi lá, por intermédio de uma notável pianista, a Maria da Graça Amado da Cunha, que conheceu o António Pedro, que ali tinha casa todo o ano. Daquele grupo, quem de facto merecia admiração era o António Dacosta. Quanto a mim, sempre disse, e repito, que aceito mal a designação de intelectual ou artista. Hoje em dia, acho a designação de 'pintor' anacrónica. O simples traço de um desconhecido numa parede pode ser tão carregado de sentido como uma tela saída da mão de um 'artista'. A existência de ateliê é um mito ridículo. Tudo o que desenhei e pintei só precisou de um recanto de mesa qualquer. Evidentemente que se trata de pequenas obras, quase sempre sobre papel, vindas directamente do meu 'não saber', dos meus terrores, do meu amor louco, da minha cegueira. Foi entregue ao Surrealismo que fiz a minha vida, mas, no entanto, parece-me que o Surrealismo não é a última palavra.

VN O que é, então?

CS É um dos mais fortes contributos à imaginação e à liberdade, mesmo se o que estimulo ao desenhar e pintar é mais a memória do que a imaginação. É urgentíssimo que alguém diga ao poder que a pintura é cada vez menos pintura, mas sim poesia, homenagem quotidiana a Freud, bomba-relógio, marciano, pergunta sem resposta, grito de girafa, impropério, silêncio absoluto, o centro do globo terrestre…

VN Depois das exposições d'Os Surrealistas, parte para África, na Marinha Mercante.

CS Sou obrigado a dizer que África foi a minha Paris. África é inesquecível, voltava para lá se tivesse uns anos a menos… Saí daqui ao serviço da Marinha Mercante logo depois das nossas exposições - a primeira [em 1949] num amplo primeiro andar entre a Sé e o Aljube, e a segunda [em 1950] na Livraria Bibliófila, que desapareceu, ali à Rua do Mundo… Quando digo que o 'anti-grupo' se desagregou não quero dizer que a chama não continuou viva. Mas agora impressiona-me olhar aquela fotografia onde somos oito e verificar que, embora sendo o mais velho, sou o único que resta! Eu fui para a Marinha Mercante, o Mário Henrique para o Brasil, o António Maria Lisboa morreu. A certa altura, o Cesariny resolveu escrever que eu tinha 'abandonado o Surrealismo'. Fê-lo por excesso de temperamento, por sensacionalismo, por amuo. Depois disso, ainda tivemos vários encontros profícuos. Já não éramos adolescentes, mas adultos. O Mário era o principal elo de ligação, mas viveu grandes épocas em Paris e em Londres. Quando regressei de África [em 1964], todos me procuravam a lamentar-se de que ele tinha arranjado novas relações…

VN O que o fez partir à aventura?

CS A aventura, mas também a necessidade de ganhar dinheiro, como toda a gente. A vida da Marinha, como simples tripulante, foi dura, mas tudo era novo e apaixonante. Conheci o Portugal ultramarino - uma experiência que me marcou. Estabeleci algum contacto com aquela gente das naus e caravelas. Há muito quem refira a grandeza perdida de Portugal, mas tenho para mim que quando se perde uma grandeza se ganha outra, porque a experiência é sempre uma grandeza, seja ela qual for.

VN Em 1952 fixou-se em Angola e pouco depois os seus pais juntaram-se a si.

CS África tornou-se uma paixão. Em 1953 tive em Luanda a minha primeira exposição individual, evocando o poeta negro Aimé Césaire, para afirmar a minha oposição ao colonialismo. A mensagem foi compreendida e aceite pelos mais sensíveis.

VN Nos primeiros tempos, teve ocupações pouco convencionais: vendeu rádios…

CS …Vendi de tudo, trabalhei em seguros, já nem me lembro do que fiz mais - coisas que apareciam na ocasião, como essa… Eram uns radiozinhos da Philips que eu vendia aos nativos a 800 escudos, parece-me. É claro que aquilo era um susto para as autoridades, porque os rádios apanhavam uma frequência do Congo Belga em que um locutor português, contrário à situação, dizia enormidades contra a PIDE. Angola estava dividida em províncias e tinha de se pedir autorização aos governadores. Alguns, quando dizia o que andava a vender, negavam. Outros deixavam, mas no dia seguinte iam apreender os rádios aos desgraçados.

VN O Artur gostava de andar pelo mato.

CS Gostava da aventura de não haver estradas. E gostava dos rios, que têm sete leitos: percebemos isso quando andamos de avião, mas só o sentimos realmente quando andamos cá por baixo. Porque a impetuosidade das correntes é tão grande que os rios colhem o leito conforme a velocidade a que vão. Às vezes caíam grandes chuvadas, de tal maneira fortes que apagavam o caminho. Ficava-se sem saber por onde ir. Quem se perdesse ali podia morrer, houve casos assim. E as trovoadas… Parecia que os raios convergiam em cima de nós. Imagine um tipo sozinho, no meio do mato, a uma distância formidável desta porcaria de civilização, a passar noites em sanzalas, a maravilha que era…

VN Até ter começado o terrorismo.

CS Aí, os colonialistas ficaram aterrorizados e organizaram milícias, com receio de que aquela gente dos musseques que cercavam a cidade viesse por aí abaixo. Nada os fazia compreender que a situação era irreversível. Passavam as noites aos tiros em tudo o que mexia. Como nem eu nem o meu pai pertencíamos às tais milícias, um dia vieram bater- -nos à porta, a oferecer-nos duas metralhadoras ou lá o que era aquilo. Neguei-me a aceitar o 'presente', mas compreendi que não podia ficar ali, que era urgente regressar. Só então me apercebi de que, depois de uns 14 anos de África, não tinha sequer dinheiro para as passagens. A percorrer o território em todas as direcções tinha feito uma colecção etnográfica do que era possível salvar da raiva imensa da religião católica e das autoridades administrativas. Foi essa colecção que tive de vender para comprar os bilhetes de avião. São mil pequenas aventuras que me ligam àquele território, àquela gente. Um dia vi um velho coberto de andrajos traçar um círculo na terra vermelha, que se tornou o mais espectacular espaço interior…

VN Teve problemas com a polícia política?

CS Nada que se pareça com o que outros passaram. Uma autora fez uma recolha nos arquivos da PIDE e descobriu várias referências, mas só fui chamado duas vezes, uma delas por ter pendurado um quadro do Malangatana no Salão de Pintura do Museu de Angola [onde trabalhava]. 'O senhor tem que tirar aquilo, um preto não pode estar num museu'. Claro que não tirei nada, mas também nunca mais me afligiram.

VN Quando regressou à metrópole teve um papel importante na Galeria S. Mamede.

CS Espero que me compreenda se disser que o que fiz não foi apenas referente a essa galeria, mas ao que define uma galeria, ou seja, o ter como base uma estratégia, uma filosofia, uma posição intelectual. Levei para lá o Cesariny, o Areal, o Júlio, o Jorge Vieira, a Paula Rego, o Carlos Calvet, o Mário Botas, o Raul Perez, entre outros… Ia tentar exposições surrealistas do mais alto nível, mas veio a revolução e, incompreensivelmente para mim, a galeria sofria tais ameaças que foi obrigada a fechar. Ainda expus Henri Michaux e o grupo Cobra… O proprietário abriu uma nova galeria em Madrid e eu fiquei desempregado. Há uma verdade que tiro de tudo isso: quem espera que os políticos lhe dêem liberdade está tramado, porque a liberdade ou está em nós ou não está em parte alguma. A liberdade está no Lautréamont ou numa tela de Cézanne, que por sinal era burguês. Que país é este onde não há um Chirico ou um Manet? Exposto há um Picasso, que ele próprio ofereceu ao Museu do Caramulo! A liberdade não é andar aos gritos pelas ruas, como não é ouvir relatos de futebol todo o dia. A obrigação de um Estado livre não é a estupidificação sistemática. Podemos pôr-nos a pensar o Himalaia é a montanha mais alta do mundo, mas muito maior que o Himalaia é Rimbaud: ‘Notre pâle raison nous cache l'infini’ ['A nossa ténue razão esconde-nos o infinito']. A grandeza é outra coisa, não tem nada que ver com a que medimos nas coisas físicas.

VN Na entrevista que deu ao SOL pouco antes de morrer, Cesariny falava com mágoa de se ter perdido a dinâmica de comunicação que havia nos cafés, mesmo em ditadura…

CS …Nesse particular, não há comparação possível. Perdeu-se a comunicação. Hoje está implantada uma enorme sensação de vazio. A Fundação Gulbenkian, assim como a Sociedade Nacional de Belas-Artes, parece ter abdicado das suas funções. A pouca actividade cultural que há está estranhamente dispersa. Além disso, como pode ser possível organizar exposições se é infindável a lista dos colaboradores pagos? Evidentemente que se trata de um triste exagero. Também é curioso constatar a multidão que aparece nas inaugurações e que rareia durante o tempo que as exposições estão abertas ao público… Que fazer se os projectos intelectuais e os artistas se deixaram contaminar pelo dinheiro? Vem-me à memória a casa de Almeida Negreiros, a modéstia da sua vida…

VN Disse algures que, ao longo da sua vida, já morreu mil vezes. Quer explicar melhor?

CS Morre-se quando morrem pessoas que de facto amamos e nos amaram. E há mil formas de amar e de ser amado. Há o vazio deste país e há o vazio do mundo actual. Na minha idade, há muitas recordações de toda a espécie, mas também ainda há inexplicáveis sonhos… E tanta e tanta gente que conheci e que morreu cedo demais, quando eu certamente morro tarde demais - o que é incompreensível, pois não sou o mais inteligente nem o mais sensível… Além de que me foi dado fazer muita coisa sozinho, e eu queria ter feito mais coisas com outras pessoas.

VN Mas tem tido uma vida cheia.

CS Respondo-lhe com palavras do Cesariny: 'Se existe ou existiu ortodoxamente uma pintura surrealista, há que dizer-lhe que Cruzeiro Seixas se inscreve nela pela porta Dada, liberdade'.

VN Muita gente pergunta-se se o Artur e o Mário Cesariny se envolveram sentimentalmente.

CS Quando nos encontrámos na Escola António Arroio. Aliás, acho que toda a gente tem experiências dessas. Não foi nada com continuidade. Aconteceu uma vez ou duas. Coisas de garotos, sem importância nenhuma.

VN E mais tarde, por que não?…

CS Em adultos já não dava, até porque passou a haver muitas discordâncias. O Mário era um intelectual. Aliás, era muito mais inteligente e sábio do que eu - isso é evidente. Nunca tive pretensões intelectuais. E não tenho. Só que barafusto perante a vida, barafustarei sempre.

VN Guarda algum arrependimento?

CS Quem não se arrepende de certas coisas que fez é estúpido. E eu tenho já uma grande margem de arrependimento, porque tive a sorte, ou a pouca sorte, de conhecer pessoas que não eram moeda corrente - eram moeda excepcional. Hoje arrependo-me de não ter acompanhado mais o Mário. Devíamos ter saltado por cima de barreiras, de muitas coisas chatas que aconteceram. É que houve sempre um fio condutor entre nós, mas havia também grandes diferenças. E devíamos ter sabido passar além dessas diferenças. Eu não soube, ele também não. Andámos os dois a bater com a cabeça pelas paredes, a desejarmo-nos muito um ao outro, mas sempre distantes. E, para ser honesto, tenho de dizer uma coisa: fui mais eu que me distanciei do que o Mário. Durante um ano, ele telefonou-me três ou quatro vezes e eu nunca lhe telefonei. Estávamos anos sem nos encontrarmos. Só de vez em quando é que trocávamos ideias por telefone ou por intermédio de outras pessoas, o que foi uma estupidez. Principalmente no último ou nos dois últimos anos de vida, em que o Mário – que sempre teve necessidade de ter uma corte à volta e que lhe dessem atenção ou desatenção – esteve completamente sozinho.

VN Foi uma história de amor mal resolvida?

CS Com certeza. Mas isso é a inevitabilidade. Se calhar, se voltássemos atrás, voltávamos os dois a fazer o mesmo. Aliás, uns dois ou três meses antes de morrer, o Mário organizou uma homenagem em que reunia os dois mais velhos amigos, o Fernando José Francisco [entretanto falecido] e eu. Apareceu na galeria [Perve, a 2 de Novembro de 2006], houve aquele reencontro e não fomos capazes de nos abrir. Acabou por ser uma coisa um bocado estúpida, que não deu em nada [Cesariny morreu três semanas depois].

VN Imagino que, em ditadura, não fosse tão fácil como é hoje a vivência da homossexualidade.

CS Eu não sei como é hoje, porque já estou absolutamente na reforma. Mas, quer dizer… vocês não imaginam… Eu acho que era reacção contra a ditadura e tudo isso. A homossexualidade andava pelas ruas, era uma coisa linda. Para mim, desde o princípio, foi a arma mais terrível contra tudo o que havia à minha volta e com que eu não estava de acordo - chamasse-se ou não fascismo. Era uma atitude de revolta: eu era contra a sociedade como estava organizada através do amor que fazia com este ou com aquele. Era a porta da minha liberdade mais imediata. E por toda a parte aconteciam encontros lindíssimos.

VN Essa naturalidade nos encontros não deixa de ser intrigante, porque a ideia comum é a de que, em pleno salazarismo, o ambiente seria adverso.

CS As pessoas dirão que era um ambiente adverso. Eu não. Tive sempre imensa sorte, não sei se por saber fazer as coisas, se não…

VN O Mário Cesariny, por exemplo, teve problemas com a PIDE durante anos.

CS Também é preciso reconhecer que há pessoas que recomplicam as coisas - ou já têm dentro de si uma recomplicação – e que tornam tudo trágico à volta delas. O Mário era um bocado assim. O amor dele era uma coisa trágica… Isso também nos separava muito.

VN Voltando atrás, nos termos em que falou há pouco, a homossexualidade aparece sobretudo como uma pulsão libertária…

CS …Com certeza. Era uma posição política. Tudo isso estava ligado ao amor que fazia na cama.

VN É que parece inconcebível alguém pensar 'Estou revoltado com a situação política, logo, vou tornar-me homossexual'.

CS Não foi isso que quis dizer. Nascemos já com qualquer coisa - ou a mais ou a menos, isso não garanto. Mas também foi algo que agarrei com ambas as mãos para construir a minha liberdade e reforçar-me enquanto pessoa. E tive muita gente que me amou, fui muito amado sabe? Isso posso dizer agora - quem achar ridículo, que se lixe. Foi uma experiência muito bonita, a da minha vida. Porque a parte sexual era muito grande, mas pelo menos era tão grande como a do amor.

Agulha - Revista de Cultura

Vladimiro Nunes (Portugal, 1977). Jornalista. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas (estudos anglo-portugueses) pela Universidade Nova de Lisboa. Inédito em livro. A presente entrevista foi originalmente publicada na revista Tabu, parte integrante da edição nº 114 do semanário SOL, de 15 de Novembro de 2008. Reproduzida autorizadamente na Agulha – Revista de Cultura # 67 (Brasil, janeiro de 2009).
Contacto:
vladimiro.nunes@sol.pt.

 
 

 

 




 



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