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A SOMBRA DO POETA
Afonso Machado

OBRA DEDICADA AOS ANÔNIMOS: As tripas do céu não comportam mais a poesia. Exilado num esgoto alhures, o poeta e sua sombra se fixam enquanto o duplo da margem (ou o rato com um jardim de vidro no peito). Antigamente, quando a terra era o esboço da guerra, os delírios do poeta escorriam linha abaixo. Era um belo incêndio, com direito a furtos no céu e saques na esquina de todos os encontros. Hoje, o poeta perdeu-se no labirinto aritmético dos imbecis. Nada mais previsível… Porém, em franco desespero, a sombra do artista arrisca-se nos escaninhos da loucura. A sombra assume o lugar do espelho e toma de assalto o sonho. Durante a noite em que um pássaro foi chacal, a sombra fundiu-se ao absoluto.

PRIMEIRA PARTE: VENENO INDUSTRIAL

Há sete anos era fácil pescar bondes no mar. Agora restavam apenas flores de pedra numa paisagem cinza. Pela avenida que fabrica todas as faces e todas as combinações sanguíneas, os passos de banda larga da multidão se dissolvem na velocidade de pernas bem informadas. A cidade enquanto depósito de febre: Cavalos que deixam as barrigas abertas para o metrô entrar, abóboras que escondem guarda chuvas e mulheres que fazem ninhos em belos flamboyans…

Neste redemoinho que condensa gritos e fumaças sem sorte, está Charles (nem inglês, nem brasileiro, tampouco francês…). Sentado num banco atravessado por dois telhados, ele observa tudo com um corpo de gato abandonado no brilho do sol de inverno.

Charlie é um poeta que sonha os faróis do amanhã… Ele é o mais profundo imbecil: Trabalha de voyeur do universo e nas horas vagas se apaixona por mulheres que trazem espinhos nos seios sonorizados por cigarras. O pobre poeta escreve cartas de amor mal passadas num campo carnívoro, aonde uma vasta colheita de e-mails esconde todas as pestes do espírito. Pobre traficante de letras… Suas lágrimas em frente ao computador resultam em chamas que consomem a tela.

Charles tinha coragem… Observava a multidão em estado de cólera absoluta, abordava pessoas como um gangster sem metralhadora e oferecia ossos para que as crianças devorassem com todo o entusiasmo (por mil gerações se preciso). Quando o sol desmanchava a sua língua na vulva da lua, Charles pensava que iria morrer num canteiro de asfalto…

Ás vezes, durante a passeata dos urubus, ele arrancava o pulmão das praças e punha-se a caminhar de respiração tapada no fundo de um shopping sem muros.

SEGUNDA PARTE: VAGANDO PELAS VITRINES

Charlie caminhava em transe pelos corredores do shopping. Sentia a necessidade de esparramar lubrificante pelo seu corpo inteiro: Desta maneira ele penetraria totalmente nos olhos de belas mulheres que fumam cachimbos diabólicos e usam metálicos colares de terra prometida. Tratava de damas que caminhavam de forma avulsa com suas sacolas sonâmbulas, cheias de cometas e astros caríssimos…

Jovens saúvas movimentam as suas antenas na direção das liquidações. Um pudim é pisoteado por crianças… Tudo muito usual. Charles observava com paixão as manequins. Estes femininos espantalhos sensuais possuem um idioma próprio: Todas elas conversam horas e horas dentro das vitrines. O poeta sabia que as pessoas condenadas pelos ponteiros jamais reparavam nos diálogos das manequins. Estas últimas, no entanto comenta de maneira ociosa o mundo fora da vitrine. Elas chegam a ser sádicas em alguns comentários ferinos.

Charles para em frente a uma vitrine e passa a travar um diálogo com estas damas assumidamente de plástico:

Charles: - Sempre concebi vocês enquanto um xérox do corpo. É difícil entender como ficam tanto tempo ai paradas, congeladas na escuridão destas iluminadas caixas de vidro…

Manequim 1: - Ao contrário, nós somos o molde original! A forma exata da anatomia. Olhe para vocês! Uns primatas sem rumo, que se escondem em latrinas e tiram férias no Guarujá!

Manequim 2: - Você é o primeiro que puxa assunto. É muito bom sermos notadas para além das nossas perucas e de nossas vaginas fechadas para sempre…

Charles: - Mas vocês nunca amaram? Nunca repousaram estes olhos sem vida num ser que transcende esta fina barreira transparente?

Manequim 1: O amor é a muleta da poesia. Não estamos preocupadas em sentir o outro, mas em experimentar as suas roupas em nossa pele fria. A poesia tolera o amor sem toque, mas nós não admitimos um corpo mal vestido.

 Charles se despede, vira-se arranca uma rosa do bolso, derrama gasolina em cima e começa caminhar com as pétalas em chamas. Ele sobe a escada rolante com a rosa e assusta a burguesia que procurava acalmar as suas sacolas que tremiam de medo. Ao chegar no segundo piso Charles é abordado por dois gorilas engravatados.
 
Gorila de gravata azul: - O senhor poderia nos acompanhar?

Gorila de gravata vermelha: - O delírio não é permitido aqui. Isto é propriedade privada, respeita a lucidez alheia.

Charles:- Senhores, hoje eu preciso alimentar o meu jegue de cristal.  Uma fada desenhada em forma de grafite me disse que ele está no cinema. Eu não quero problemas.

Charles apaga a rosa e coloca duas xícaras de café no bolso de ambos os gorilas. Em frente ao cinema Charles viu os jegues comprando as entradas. O poeta corre até o jegue monta sobre ele e diz ao bilheteiro: “Duas entradas, por favor!”.

O filme era muito chato: Dois garotos americanos que depilavam árabes num deserto de três sóis. Um dos garotos atravessa a tela armado, vai até Charles, retira a força o jegue do seu acento e antes de partir diz: “A democracia necessita de cristal. Meu país é transparente, precisamos de transporte, armas, bibelôs, hambúrgueres etc. e tal. É claro que este jegue de cristal será bem visto pelo nosso general”.

Charles levantou-se um pouco triste, saiu do cinema e caminhou até um jardim de grama artificial, desejando assistir a um discreto balé de besouros. Foi quando ele lembrou-se de que tinha um convite para uma festa naquela noite. Era a oportunidade para ele se dissolver no meio de uma casa cheia de estranhos.

No trajeto para a festa Charles sentia que a sua sombra estava a três passos de distância. O poeta para a diz para a sua sombra: “Você é o reflexo da metade e não um inteiro! Me enchi de você! Eu quero ser inteiro! Cai fora! Não te quero refletindo a minha incompletude!”. A sobra derramou lágrimas em forma de vulto. Ela se despede do seu antigo dono e pretendia voltar para a escuridão de todas as formas inexistentes.

No caminho até as trevas a sombra para e decidi dar meia volta: “Não Charles, não vou te abandonar“.

TERCEIRA PARTE: A FESTA ALIENIGENA

O anfitrião não conseguia abrir os portões que se contorciam em febre metálica. Charles decidiu saltar o portão e mergulhar na festa. Enquanto isso, a sombra vagava discretamente pelo quintal da casa.

Charles abraçou um conhecido anjo perdido e juntos foram tomar um drink de abelhas. O poeta continua a caminhar e visualiza vizinhos glutões, mariposas brincando sobre a cocaína, uma piscina de vinho, a grotesca cabeça de um caramujo que deixava florescer tulipas em suas antenas, uma teia de aranha que prendia operários, uma antiga antena de tv no meio da sala de jogos e um vagão de trem preso ao teto.

O poeta precisava mijar então entra pela porta de um banheiro que desemboca numa paisagem bucólica do interior paulista. Um pássaro passeava com a sua gigantesca calda vermelha pelo céu até ser atropelado por uma loira que repousa o seu jovem corpo no ar: Urubus e laranjeiras a ornavam. Charles observa atônito um coqueiro-fêmea e seu penteado ensolarado. Uma perna avulsa cai no colo do poeta que a devolve para a sua dona sem cabeça. Uma velha chega até ele e começa a conversar sobre um assunto intraduzível. Ele desconfiava que velha e a loira na paisagem eram a mesma mulher…

Descendo uma fonte que jorrava lágrimas, Charles encontra uma placa: ÁGUAS MÁGICAS, 1944, 1927 E UM ESPELHO POR ONDE ADENTRA UMA SELEÇÃO DE VIDROS QUEBRADOS. Qual o significado da placa? Charles nem perdeu tempo e decidiu não voltar até a porta com acesso a festa. Inclinou-se por uma estrada de terra e deparou-se com mais uma placa: 1997-2007. O vento que trazia folhas macabras fez com que Charles sacasse tudo: Ele já esteve lá há dez anos e fora atacado por um cão negro. De repente um rabo de cachorro começa a passear pelo ar, até que do rabo nasce o mesmo cão negro. O animal avança sobre Charles que foge e desaparece numa mata.

Enquanto isso, na festa, a sombra procurava Charles. Ela resolve então ir até a casa da tia gorda de Charles.

QUARTA PARTE: CHARLES TEM UMA TIA GORDA

A sombra chega até a casa da tia de Charles. Angustiada, a sombra ouve trêmula o badalar da meia noite num antigo relógio de madeira. Ela segue pelo tapete azul e chega num corredor aonde pessoas fogem de um lobisomem. A sombra adentra pelo lustre e chega até a quermesse em frente a uma praça. Velhas devoravam um porco assado, padres escreviam mensagens pornográficas no tronco das árvores e um grande crucifixo transformava o sangue nos joelhos do Cristo em dois olhos vermelhos. Vendo que não havia nenhum sinal de Charles a sombra sai de dentro do lustre e volta até o corredor.

 A sombra temia ser visto pela tia de Charles, pois esta a odiava. Foi então que no fim do corredor a tia salta em frente à sombra com uma garrafa em mãos: A sombra é capturada para dentro da garrafa. Gargalhando a tia gorda põe a garrafa em cima de um velho criado mudo (embora o móvel fosse ligeiramente tagarela). Á 1h da madrugada a casa era invadida por águas misteriosas, mas nada que pudesse afogar alguém. A sombra que odiava banho estava em pânico dentro da garrafa…

A campainha toca e a tia gorda recebe uma ilustre visita: o João Sevegonha. João é um tipo caipira, mal asseado e que não sabia pronunciar a letra R. Na ocasião ele usava um terno listrado e fogo, um grande rabo de peixe azul no lugar do traseiro e um par esquerdo de sapato branco pendurado no dedo indicador da mão esquerda.

A tia gorda lhe recebe com um molhado beijo de língua. Os dois vão até à mesa da cozinha jogar baralho. Enquanto isso a sombra se chacoalhava na garrafa, até que esta caiu liberando a sombra que saiu voando pela janela. A sombra se esconde na casa vizinha, aonde moças faziam uma reunião misteriosa.

A sombra sentia o calor que vinha dos tijolos vermelhos da casa. Por alguma razão desconhecida, Charles é tomado pela sensação de naquela estava a mulher amada de Charles. A sombra adentra pela sala e se depara com varias panteras e tigresas caminhando em círculos. Uma delas fumava sorridente uma cigarreira enquanto duas das panteras lambiam uma foto de Charles. Confusa a sombra partiu de dento da casa. 

A sombra procurava por Charles em todos os lugares da cidade: Ferros velhos, telhados doentes, etc. A sombra chega até um quarto de uma casa abandonada.

Lá dentro sentia-se observada por uma maravilhosa mulher de olhos claros. Do teto crânios dourados caiam e de um canto escuro a sombra compreendia que ali um bandido de um filme foi morto pela polícia.

A Sombra pega carona num automóvel desconhecido. No banco traseiro um jovem chorava com a boca cheia de capim seco. No porta luva um antigo pacote de bolacha Maria… No final do trajeto a sombra sentiu algo mordendo o seu dedo: Era uma pequena cabeça de um bebê feito de torta de baunilha.

QUINTA PARTE: O VALE

A sombra desce do automóvel pra entrar num boteco imundo. Ela chega até ao misterioso dono do mar, um chinês que desfere golpe de segredos pelo ar. Ela pergunta a ele:

Sombra: - Preciso de forças e habilidades para encontrar o meu dono. Você poderia me ensinar kung fu?

Chinês:- ensino, ensino e ensino.

Sombra: - Preciso de uma calça preta, uma camiseta branca e uma sapatilha?

Chinês: Sapatilha porra nenhuma!

Sombra:- Quando será a minha primeira aula?

O chinês levou a sombra até os fundos, atravessaram abismos de aranhas caranguejeiras e chegaram até um quintal ensolarado. Lá havia dentro de uma gaiola um gatinho amarelo com penas de canário. O chinês começou a comer salsichas com azeita no palito. A sombra ansiosa que estava perguntava: “Preciso me fortalecer para encontrar Charles”. O Chinês indagou: “Charles? Aquele cachaceiro que não paga nunca a conta do bar? Você é a Sombra dele?”. O chinês pegou uma faca e uma lata de feijão e começou a correr atrás da sombra. Esta última consegue saltar o muro e adquire vantagem se distanciando do chinês enraivecido.

A sombra depara-se com um vale. A sombra atravessa um carrossel de areia com cachorros do mato no lugar dos cavalos. Próximo do vale serpentes devoravam velhinhos…

A sombra entra no vale através de uma pequena janela (dizem que os mortos é que a deixam aberta). Um relógio na copa de uma árvore depressiva disfarçasse de nuvem. Janelas antigas são reveladas em folhas que deixam transparecer pinturas amarelas e descascadas pelo tempo. Vales de neblina congelante escondem o minotauro e uma mulher acorrentada a uma grande rocha. Ela é linda, está acorrentada, banhada em sangue, berrando de ódio com seu cabelo loiro e seus olhos azuis. Para a surpresa da sombra ela exclama: “Charles! Apareça! Eu preciso de você”. A sombra pensou em abordar a prisioneira delirante, mas temia que o minotauro aparecesse.

A sombra adentra por um solo feito de queijo ralado, avista jacarés em um vidro. Diante de si uma casa cheia de gansos. O dono cumprimenta a sombra e lhe presenteia com um ganso.  Um morcego salta no pescoço da sombra que no susto deixa o ganso cair.

Assim que o morcego mordeu a jugular da sombra, a boca da pobre sombra encheu-se de sangue. Meio atordoada a sombra se depara com uma rocha que se fazia passar por um enorme cocô de pombo.

A sombra chega ao fim do vale puxando uma capivara através de uma corda. Ela abandona o bicho e diante de um estacionamento conclui: “Charles teve estar em alguma esquina, vou encontrá-lo e me fundir com ele novamente”.

SEXTA PARTE: A FUSÃO
Caminhando durante um amanhecer qualquer a sombra engravidou-se de luz e desceu a rua com pensamentos iluminados. Em seguida ela pariu um raio que partiu em direção ao fundo do céu. Eis o maior ato de amor: A sombra gerou o seu maior medo (a luz) para fundir-se ao cosmos. Ela decidiu ser trevas e luz para que Charles vive-se dentro de um eclipse permanente, como se a vida fosse um caldeirão de brilho e quarto escuro. Enfim, a sombra não era mais nem o reflexo e nem a ausência de Charles, mas uma energia metamorfoseada em luzes semi-apagadas. É possível encontrar a metade da sua boca no bar em Charles está, é possível senti-la quando o poeta beija uma mulher sob um poste mal iluminado.

Mal sabe Charles, este poeta errante, que no inferno da cidade a sombra lhe honra com alucinações e mistérios além mar. Lá está Charles! Caminhando sem bússola, em busca do amor, da liberdade, seja dia, ou seja, noite.