VERDADE EPIFÂNICA, BELAS MENTIRAS “Semiologia, curiosa, lunatica & peneumatica” "Vale a pena viver nestas terras, onde todos parecem ter feito voto de suicídio, A bibliografia de Umberto Eco é suficiente para indicar o itinerário daquele que é, certamente, o intelectual italiano mais conhecido no campo da semiótica, mas também no campo da estética medieval, da ficção contemporânea e até da crónica do quotidiano. Eco tornou-se a encarnação daquilo a que os italianos chamam um "tuttologo", isto é alguém que sabe sempre alguma coisa sobre tudo. Se a linguagem é a casa do ser, os livros são a casa de Eco. Entremos na Biblioteca da sua casa em Milão e vejamos o mundo dos livros em que vive o autor de Baudolino. O pensamento judaico, a cabala, o ocultismo, o material crítico sobre livros antigos, a Idade Média, os bestiários, Negri, Peirce, o hermetismo do Renascimento, os Rosa-Cruz, a alquimia, o diabolismo, Joyce, a maçonaria, o neo-fascismo, Proust convivem todos no mesmo espaço de interlocução. É deste laboratório em suspenso que promana a sua ficção, o ensaio, a crónica. P. Fabbri, o semiólogo mais importante de Itália, depois de Eco, talvez também o mais atípico, diz que o interior da enciclopédia de Eco não é "nem um depósito de mortos nem um deserto vertical de livros; aquilo que há é uma memória inventiva e um sistema de perplexidades e de indagações cujo dédalo é o modelo estético e heurístico, o sintoma e a maravilha" . A sua escrita pode ler-se como um Gedankenexperiment que utiliza a língua dos chamados "géneros menores" e do pastiche. O gosto de Eco por textos paraliterários é manifesto. A narrativa policial torna-se parábola cognitiva através das estratégias inferenciais da abdução (como em O Nome da Rosa); o romance de mistério converte-se em alegoria dos jogos de simulacro e de segredo (como em O Pêndulo de Foucault); na prática do pastiche o verdadeiro deixa de ter uma definição única ou definitiva (como em Baudolino). Não ensina Otão a Baudolino que "A retórica é a arte de dizer bem o que não é seguro que seja verdade, e os poetas têm o dever de inventar belas mentiras"? Os passeios inferenciais
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Baudolino aparece vinte anos depois de O nome da rosa, um enorme fresco por volta de 1327, quando o papa está em Avinhão, e cujo espaço é o de uma abadia benedictina em que se reúnem os teólogos de João XXII e os do imperador. Este romance é, de certo modo, uma apologia da utopia das invenções que movem o mundo a partir de equívocos, contrafacções, abduções. Baudolino é uma sumptuosa ecografia, um delicioso fresco sobre a vida da abadia, os labirintos, as heresias (Nestório et alii), a necromântica, o riso, a pobreza, os segredos da biblioteca. A carta do mítico Prestes João é bem a criação por antonomásia a que Baudolino dará dignidade "oficial", porventura a invenção mais feliz deste livro.
Eco, no fim de Comment voyager avec un saumon (1992) apresenta Baudolino em algumas linhas como um profeta, "homem de uma admirável santidade (...) que realizava inúmeros milagres", e o principal de todos, não fazer nenhum quando era verdadeiramente necessário. As discussões teológicas - não só em Bizâncio, mas entre os monstros do fabuloso Oriente em que florescem as heresias, o culto medieval das relíquias - na viagem para o reino do prestes João Baudolino e os seus levam nada menos que seis cabeças de João Baptista - a Quarta Cruzada, o Livro de Alexandre donde procedem os monstros e maravilhas de Pndaptzim, o colóquio com os gimnosofistas, o episódio policiesco da morte de Barbarroxa na Terceira Cruzada, que um investigador cego resolve, tudo isto concorre para, sob a batuta de um mestre de retórica e de ironia resulte uma saga de atmosfera medieval, pícara e fantástica.
Este é o quarto romance de U. Eco, depois de O pêndulo de Foucault (1988) e A ilha do dia de antes (1994). O nome da rosa falava do mundo monástico, este fala do mundo laico, da corte imperial de Frederico Barbarroxa. Baudolino é adoptado por Frederico aos 13 anos. Dois dons o benzem: primeiro, aprende depressa a escrever, dois, entende qualquer dialecto e rapidamente o aprende, três, diz uma parvoíce e toda a gente a toma por verdadeira, inclusive a fábula dessa Nena de Bergoglio. A partir daí a sua vida está repleta de peripécias. Baudolino vive com Frederico todos os confrontos entre império e comunas: a batalha de Legnano, a Terceira Cruzada (a que ele mesmo o empurra) e sucessivamente. Tudo o que se chega a saber conta-o Baudolino, um mentiroso opor definição, a um historiador bizantino, Niceta Coniate em 1204, enquanto Constantinopla arde e é saqueada pelos cruzados. Niceta escreveu sobre aqueles dias quase em directo, porém não nos deixou nenhum resto da história de Baudolino , porque não sabia (diz Eco) se era verdade. O próprio Baudolino vivia no modo do "parecer", com problemas evidentes com o regime alético da verdade. "O problema da minha vida, é que sempre confundi o que via com o que desejava ver...", confessa o nosso herói a Niceta (Baudolino: 35).
O narrador é ao mesmo tempo o protagonista na construção desta trama que combina vários registos: de romance picaresco a narração fantástica. Um romance picaresco que percorre o vivido do seu protagonista, Baudolino, durante cerca de sessenta anos, jogando sobre dois planos narrativos: um cronista apresenta a história e cria as conexões lógico-temporais, o próprio Baudulino, em diálogo com Niceta, comenta e desdobra as aventuras por ele vistas desde os treze anos até à velhice. Tanto um género como outro parecem exigir a narração na primeira pessoa. Tanto o leitor como o seu primeiro editor, Niceta, estão conscientes de que o sagaz Baudolino é um perito nas artes da ficção, um fabulador engenhoso. Baudolino inventa patranhas em que todos acreditam e as suas pequenas histórias hão-de construir os episódios da grande história do Medievo. Para condimentar o seu romance, Eco deita mão de diversos tons, tema e motivos que combina com a sua prodigiosa erudição e a sua maestria narrativa. Assinalemos duas partes na trama romanesca: a primeira passa-se me terras do norte de Itália, enquanto Baudolino se educa e prospera debaixo da protecção de Frederico, até à morte deste; a segunda leva-nos até um Oriente longínquo, asiático e fabuloso. Desde muito novo que Baudolino envereda pela fabricação de piedosas lendas: assim encontra os cadáveres momificados dos três reis Magos e promove a canonização de Carlos Magno, Dedicar-se-á depois a difundir o mito do prestes João, magnífico e cristianíssimo soberano de um vasto e quimérico império oriental, falsificando a sua famosa carta ao imperador, e, a par disso, a lenda do Santo Graal, o vaso eucarístico que conteve o sangue de Cristo. Precipita-se na mais peregrina e formidável procura: a viagem a um oriente extremo e misterioso para encontrar o prestes João e oferecer-lhe a santíssima relíquia, no caso, uma escudela de madeira. Eco passa do mundo monástico ao mundo laico e diz ter mudado o estilo culto pelo popular, com episódios que incluem desde a busca do Graal até reflexões filosóficas.
O nome da rosa é culto, este é popular. A linguagem é a dos camponeses da altura ou dos estudantes parisienses que falam como os ladrões. Nada de latim, salvo alguma palavra. É o típico jogo de alguma citação posterior escondida, porém com a ideia de que sejam frases inventadas precisamente por Baudolino e que outros depois poderiam ter copiado. É uma espécie de memórias que recriam uma paisagem medieval, em tempos de Barbarroxa, cheio de aventuras e patranhas. Eco tenta imitar o dialecto da sua cidade, Alexandria, a sua forma de falar. Nos documentos oficiais da época encontra os nomes dos alexandrinos que fundaram a cidade. De quarenta capítulos se compõe o livro, como era uso na Idade Média. O primeiro capítulo é escrito directamente por Baudolino, com 14 anos, sobre um pergaminho. Estava a começar a aprender latim e escreve num vulgar da sua zona. Eco inventa um italiano imaginário, não faz filologia. Baudolino é um rapaz que vive no campo, em Marengo, mais ou menos onde em 1168 nascerá a cidade de Alexandria, cujo patrono será precisamente Baudolino. Baudolino é um malandro, parecido com os que existem em muitas mitologias autóctones: na Alemanha dão-lhe o nome de "Schelm", e na Inglaterra "Trikster God". O livro, que neste aspecto é uma novela picaresca, conta as suas aventuras por diversos territórios. O pai de Baudolino é o mítico Gagliaudo Aulari, que salva Alexandria do assédio de Frederico Barba ruiva, com a história da sua “vaca”. No fundo, Eco relê a história desse período como fruto das invenções de um rapazito que depois cresce e que com uma pandilha de amigos inventa a legitimidade do império por parte dos juristas de Bolonha, parte do epistulário de Abelardo e Eloísa, a lenda do Graal, como a contará mais tarde Wolfram von Eschenbach. Ao escrever sobre aquela época diz Eco ter entendido muito das razões da crise política italiana de hoje. A história podia ter sido diferente sem Baudolino. É ele e os seus amigos que inventam a mítica carta do padre Gianni que realmente circulou naquela época, descrevendo um lendário reino cristão no Extremo Oriente (também Marco Polo falará disso). Depois da morte de Frederico (1190) Baudolino empreende uma viagem fantástica a terras misteriosas habitadas por monstros, onde terá aventuras incríveis, inclusivamente um amor.
Não há dúvida que a Obra Aberta popularizou as inovações modernistas de James Joyce, abrindo caminho para outras abordagens teóricas (não apenas croceanas, marxistas ou elitistas) da cultura italiana. A aventura semiológica tem muito de demanda da verdade (O Nome da Rosa) e do falso (Baudolino), ou do paranóico (O Pêndulo de Foucault). Recorde-se um texto publicado em Viagem na irrealidade quotidiana e intitulado “Os Mosteiros da Salvação”. De que se trata, afinal? De averiguações em torno do Falso Absoluto por terras da Califórnia e da Florida. Moral da visita: “Aqui não se tenta absolver as santuários do Falso, mas de chamar co-réus aos santuários europeus do Autêntico”. Não existe uma forma de linguagem livre das ambiguidades e das intertextualidades da ordem simbólica, como demonstrou o nosso autor em The Searche for the Perfect Language. A sua participação num recente colóquio virtual organizado pela Biblioteca Nacional de França (www.text-e.org) em torno da questão "Autores e autoridade" não deixa dúvidas acerca das preocupações éticas de U. Eco acerca do uso da Rede e da função da crítica. "A cultura transmite a memória, mas nem toda, filtra". Filtrará o leitor moderno, melhor do que o fez Rabelais, as "trevas" da Idade Média que afinal mal distingue das trevas da sua da própria infância? Em O Nome da rosa, romance medieval policial, filosófico, Umberto Eco queria desvelar a verdade. De Baudolino, romance medieval-épico-lúdico, tiraremos outras conclusões: que o motor da história é a ficção e que se é pecado testemunhar por aquilo que se sabe ser falso, poderia ser virtuoso fazer falsos testemunhos por aquilo que se pensa ser verdadeiro. "Mas a mim sempre me aconteceu que mal eu dizia isto, ou achei esta carta que diz assim, (que se calhar a havia escrito eu), os outros parecia que não estavam à espera de outra coisa. Sabes, senhor Niceta, quando tu dizes uma coisa que imaginaste e os outros te dizem que é mesmo assim, acabas por acreditar também".
A questão vital, em literatura, como no resto, é sempre esta: mergulhar ou afundar-se. Baudolino aprendeu a arte de voar sobre as águas (das palavras) fazendo-se acreditar. Discípulos não faltaram então para acreditar neste cretense enganador. Ainda hoje voam sobre as águas. Impunemente. Suspensos dos seus lábios. Há gente que nem precisa de pesar as palavras: será sempre verdade porque Ele (o que tem o poder efectivo de falar) o disse. Mas não é por dédalos, bosques da ficção, sintomas, pastiches, Mirabilia que a mão de Umberto Eco desde sempre nos levou?