Revista Triplov de Artes,
Religiões e Ciências

NOVA SÉRIE

 

 

José Augusto Mourão......

Nunca gostei da ideia de viver sozinho

Entrevista com Maria João Seixas editada no Público a 8 de Junho de 2003; em linha no site dos Dominicanos, em: 
http://dominicanos.pmeevolution.com/index.asp?flintro=off&menu=9976&lang=

Ao dirigir-me para o convento do Alto dos Moinhos sabia que ia ao encontro de um desconhecido, um homem sobre quem praticamente nada me tinha sido revelado. Ouvira recentemente falar dele, padre, professor da área da Teoria da Literatura na Universidade Nova, de estatura alta e de carácter tímido. A mais importante das referências, aquela que disparou o meu desejo de com ele conversar, deve-se a um grande amigo que muito o admira e respeita. Quando o convidei, pelo telefone, disse-me que me receberia no convento, e deu-me as indicações para lá chegar sem dificuldade: uma casa grande, branca, com umas escadarias altas que se reconheciam à distância. Assim é. Escalada a rampa e os muitos degraus, paragem obrigatória na portaria, para o «quem é e ao que vem», um trinco que disparou para que eu pudesse entrar, o primeiro corredor, as primeiras portas, até chegar a uma capela improvisada onde o meu conversado surgiu, com alguns livros na mão. – Sou eu, disse-me. – Bom-dia, padre José Augusto, ou devo dizer Prof. José Augusto Mourão? – Sou frade dominicano, vivo neste convento, dou aulas muna Universidade, mas trate-me por José Augusto. Quer ver a casa? Foi projectada por dois arquitectos do Porto. Ou prefere ir já para um sítio onde possamos falar? – Talvez seja melhor. Podendo ser ao ar livre, perto dos limoeiros que daqui vejo..., ousei. Sentámo-nos numa espécie de alpendre, espaçoso, frente aos limoeiros e a mais árvores. Por baixo de um corredor de aterragem de aviões e com o desatino do chilrear dos pardais, o gravador mal conseguiu captar a voz de José Augusto, que é em tom baixo, porém não grave. Fala a dois espaços. Sem hesitações, mas a dois espaços. Levou tempo a olhar para mim. Preferiu quase sempre fixar a copa das árvores ou a esquina mais longínqua do terraço que ladeia o alpendre. Disfarcei uma certa intimidação, acendi um cigarro, tossi três vezes e lancei a primeira pergunta. 

José Augusto, diga-me, quem é.

O nome já diz quem sou, já nos dá uma identificação civil, policial, uma espécie de retrato-robot que o Estado possui de cada um. Tenho mais dificuldade em dizer quem de facto sou, mas posso dizer o que faço, de um ponto de vista institucional, o que é ainda outra coisa. Quem sou eu?, mas se são os outros, normalmente, que têm a nossa imagem...! Se até a própria interioridade entra na lógica do lugar e do agir... Posso responder com o que faço, ou como é que me relaciono, ou por onde ando, isso sim! O lugar: vivo num convento; a pertença: sou dominicano há quase trinta anos; a ocupação principal: sou professor na Universidade Nova de Lisboa e há mais de uma década, no departamento de Ciências da Comunicação, onde ensino Semiótica (na licenciatura) e Hiperficção (no programa de mestrado e doutoramento). Antes disso e durante doze anos fui professor no departamento de Línguas e Literatura Românicas, onde ensinava Teoria da Literatura.

 

Hiperficção? Confesso a minha ignorância e a expressão soa-me esquisita

Esquisita? O objecto não é assim tão estranho, trata-se do texto, da escrita, da ficção, agora em suporte electrónico; trata-se da textualidade electrónica, de escrita laboratorial, de escrita de fusão. Está aí um novo género híbrido, ergódico, indeterminado, de texto. Trata-se de romances, ensaios, objectos multi-media gerados por computador, textos em expansão... on-line, com essa componente muito forte de experimentação e de crítica cultural.

 

Mas a isso eu chamaria então escrita ou ficção Virtual.

Sim, também é isso. A hiperficção é uma forma híbrida da ficção, escrita em computador, programada mas aberta, que vai sendo preenchida pelo leitor, com alguma liberdade de bifurcação, mas controlada. Por trás há sempre uma espécie de engenheiro do texto que vai colando peças, protocolos de leitura, chamemos-lhes sensores, e o leitor vai depois preenchendo e fazendo o seu próprio itinerário, dentro daquilo que será o texto a vir e em que o percurso final não está assinalado à partida.

 

Por causa da estranheza sobre a designação de uma disciplina interrompi-o no trajecto dos seus afazeres. Quer voltar à viagem descritiva do que faz?

O ensino e a escrita é o que fundamentalmente me ocupa. Mas faço outras coisas. Tenho que fazer dentro da Província dos Frades Pregadores porque sou, no momento, o Director do ISTA (Instituto S. Tomás de Aquino), tenho que fazer no convento – numa comunidade há sempre serviços comuns –, tenho que fazer junto das monjas dominicanas, no convento do Lumiar, um belíssimo espaço, devia visitá-lo, ou junto das dominicanas das Cardais, ou ainda, ocasionalmente, junto de amigos que me pedem que presida a um baptismo ou a um enterro – raro presido a casamentos... Costumo dizer que tenho, pelo menos, duas vidas – uma passada entre os dominicanos e outra, entre universitários. A maior parte do meu tempo divide-se por estes dois mundos e pelo diálogo entre eles.

 

Escolheu cedo ser dominicano?

Cedo, não, tinha vinte e tal anos. Depois da Filosofia no Seminário de Vila Real, fui dos primeiros a ir estudar Teologia para o Seminário Maior do Porto. Há uma etapa que se interrompe aqui. Hei-de voltar três anos depois para terminar a Teologia e agora no ISET na Torre da Marca, ainda no Porto. Foi lá que conheci dois dominicanos singulares, o frei Bernardo Domingos e o Frei Mateus Peres. Foi o frei Bernardo que reparou em mim e me levou a decidir-me pela vida comunitária nos dominicanos. Embora tivesse já uma grande admiração por dominicanos não portugueses. Havia dominicanos célebres na altura, internacionalmente conhecidos, como o P. Chenu e o P. Congar, entre outros, em grande parte envolvidos no pré e durante o Concilio Vaticano II, responsáveis por muitas das ideias inovadoras que de lá saíram e cujo trabalho eu seguia com verdadeiro entusiasmo. Devo a minha paixão pela teologia do mundo a esses dois homens exemplares. Daí a minha atenção à História, à subjectividade: quem somos?, à verdade, e muito pouco à história das paróquias que sempre considerei um terreno replicativo, reprodutivo, na sua vertente administrativa, no seu registo de nascimentos e de mortes. A paróquia sofre de um défice de reflexão e de um excesso de ritualismo. A componente dos estudos e da investigação, central nos dominicanos, atraiu-me sempre, bem como a componente de vida comunitária. Nunca gostei da ideia de viver sozinho, isolado numa paróquia. Não sou feito para a servidão nem para a bajulação, que são as passadeiras do poder.

 

Acabado o curso de Teologia no Porto seguiu-se o quê?

Ainda não tinha acabado o meu curso quando fui até Moçambique, onde fui acolhido por D. Manuel Vieira Pinto, durante dois anos. Como missionário leigo. Foi assim: eu tinha sido expulso do Seminário do Porto, por rebelião contra o Bispo de Vila Real, como então constou. Nessa altura o bispo reagiu dizendo: «Quem manda aqui sou eu. Ordens recebo-as de Roma e são poucas!». Deu-se isto no meu terceiro ano de Teologia e fiquei um pouco assim no vago. Foi aí que alguém me fez encontrar o então Bispo de Nampula que me disse – «Quem não tem problemas não vale nada, anda comigo para Nampula, há lá muita coisa para fazer.» E fui. Não eram ainda dois anos volvidos, e a PIDE expulsou-me de Moçambique. Ou ficava, e na cadeia, ou regressava à Metrópole, como então se dizia. E voltava ao vazio.

 

O próprio D. Manuel Vieira Pinto, enquanto bispo de Nampula, teve problemas com a polícia política e por isso, creio, saiu também de Moçambique. Em que ano se passou essa «aventura»?

Entre 1970-72. 

 

E o que fazia?

Dava aulas num centro catequético para adultos, Anchilo, formadores de comunidades. Eram pessoas casadas, viviam com as famílias num aldeamento, construído expressamente para isso, e tinham aulas de Teologia durante dois anos.

 

Havia catequistas brancos nessas comunidades?

Não, estes formadores eram todos de cor. Tinham uma espécie de função mista, eram professores, para além de catequistas.

 

Quantos alunos havia?

Aquilo era muito seleccionado, havia uns vinte e tal alunos. 

 

A suspeita recaiu sobre si exactamente porquê?

Havia um aluno nesse curso que era informador da PIDE, soube-o depois. No segundo ano pedi para ir para Nacala, o que já era uma outra vertente, porque significava tentar trabalhar com os chamados «contratados». Uma missão impossível! Eram homens arrebanhados pelas aldeias de várias regiões, forçados a trabalhar durante seis meses. Trabalhavam como doidos doze horas seguidas e o resto do tempo dormiam. Ao fim de seis meses regressavam às suas aldeias, levando consigo uma manta e o dinheiro certo para pagarem, à chegada, o imposto administrativo. Tentei algumas vezes entrar em contacto com eles, mas nunca consegui autorização para me aproximar. Creio que a suspeita sobre mim começou por aí. Havia queixas soltas de maus tratamentos infligidos pelos capatazes brancos sobre aqueles trabalhadores, em situação real de escravatura e eu nunca tive papas na língua para denunciar, sempre que podia, situações daquela natureza. Embora não sendo ainda padre eu pregava na igreja, onde havia gente da PIDE a ouvir e, muito rapidamente, puseram-se no meu encalço. Na altura, conheci no porto de Nacala um capitão da marinha com quem convivia, que me emprestou uns livros de Marx e de Mao-Tsé-Tung, leituras que nunca tinha feito antes. E foi por aí que eles também me apanharam. Há ainda um pormenor, foi o bispo de Lourenço Marques, o arcebispo Custódio Alvim Pereira, que me denunciou à PIDE, sob o argumento de que eu andava a agitar alguns padres de cor, com quem organizei de facto uns poucos encontros. Nunca tive nenhum contacto com os terroristas, como eram chamados nesse tempo aqueles que nos acusavam do terrorismo da ocupação. Nem nunca a Frelimo tentou entrar em contacto comigo. Dava aulas de português no colégio da diocese de Nacala, frequentava a casa de duas ou três famílias portuguesas e pregava. Um dia a PIDE entrou na paróquia, vasculhou o quarto em que dormia, interrogou-me, confiscou-me livros e acompanhou-me de avião a Lisboa, nem de barco pude vir, como pedi.

 

A sua consciência política começou, ou consolidou-se, durante essa passagem por Moçambique?

Em Moçambique era impossível uma pessoa não se revoltar com o que via, e vi e ouvi muito que era revoltante. Tinha de ir, por exemplo, com os rapazes que iam entrar no colégio ao registo civil requisitar o bilhete de identidade, ou não lho davam, coisas assim... Mas a minha consciência política não começou lá, vinha de longe esse inconformismo radical diante da injustiça e da mentira que cresceu comigo. Em Vila Real eu já tinha orientado uma folha cultural, diocesana, como quase toda a imprensa transmontana da época, que agitava e irritava muita gente, porque tive sempre esta indignação, esta força de desmontar aquilo que me parece estar em decadência e continua a dominar, ou a hipocrisia burguesa que vive da conveniência e das aparências. Os meus textos eram insuportáveis, o próprio bispo dizia que eu era uma pessoa insuportável para a sociedade, até com a polícia tinha problemas por causa da censura. Mas o padre que dirigia A Voz de Trás-os-Montes nunca sobre mim exerceu qualquer censura. Não deixava de ser estranho que este rapaz que não precisava de ser padre para ascender na vida social viesse incomodar a santa aliança do trono e do altar! 

 

 

É transmontano de raiz ou foi para Vila Real por acidente de Percurso familiar?

Sou transmontano de raiz, de Lordelo, uma aldeia perto de Vila Real. Éramos cinco filhos, quatro raparigas e eu. A minha mãe morreu quando tinha quatro anos, o meu pai era professor primário e, situação quase inconcebível numa aldeia daquele tempo, não era sequer praticante. O destino que o meu pai tinha a para os filhos era fazerem junto dele a instrução primária e, em seguida, as raparigas irem para o Porto, para a escola Aurélia de Sousa, e o rapaz vir para Lisboa, continuar os estudos na Sidónio Pais. Mas eu entretanto encarreirei por outro lado, facto que o meu pai nunca contrariou. Acabada a escola primária entrei para o Seminário de Vila Real, onde fiz a escolaridade obrigatória até à Teologia, altura em que fui para o Porto.

 

Acho que nunca soube se os seminaristas estavam dispensados do serviço militar. Foi para Moçambique numa situação especial mas não teve que fazer a guerra. Quer contar-me?

Os seminaristas precisavam de uma dispensa especial, declarada pelo bispo da diocese ao DRM a que pertenciam. Saindo do Seminário, o caminho era a tropa e, na altura, a guerra. Para o bispo de Vila Real a tropa (e a guerra) era o lugar do castigo e do amadurecimento! No Porto, tive a oportunidade de conhecer mais de perto D. António Ferreira Gomes, o célebre bispo do Porto!, que um dia, numa ocasião rara me convidou a tomar o pequeno-almoço com ele e me disse «Você é um esteta. Não vá para a tropa que entorpece a sensibilidade».

 

Agora confundiu-me: o bispo do Porto, quando vai para o Seminário, donde é expulso, era D. António Ferreira Gomes?

Não, não. D. António Ferreira Gomes regressou ao Porto, depois de mais de dez anos de exílio na Alemanha e na Espanha, onde de resto o fui visitar com outros colegas, estava eu a acabar o segundo ano de Teologia. Foi já no meu terceiro ano de curso, esse ano em que fui expulso, e antes de partir para Nampula, que tive o privilégio de conviver mais de perto com ele. Não está a imaginar o D. António a dizer «quem manda aqui sou eu e só recebo ordens de Roma!» pois não? Nem a expulsar um seminarista por ter um espírito rebelde?

 

Não, não estou, seria um absurdo, uma pura contradição nos termos. Quando regressa de Moçambique volta para o Seminário para acabar Teologia. E é então que se dá o seu grande encontro com os dominicanos, se posso dizer deste modo?

Pode dizer, pode. Quando regresso ao ISET é lá que encontro dois dominicanos, já meus conhecidos – frei Bernardo e frei Mateus (ambos Professores na Universidade Católica) que naquela altura, foram os meus melhores professores e que influenciaram muito o caminho que decidi seguir depois.

 

Acaba Teologia a saber já que queria dedicar-se à investigação e ao ensino?

Não foi bem assim. No fim do curso fiz, ainda no Porto, um ano de noviciado. Fui a seguir para o Instituto de Teologia de Toulouse, estudar de facto! Estive lá um ano, mas não gostei muito daquilo, era excessivamente rígido e formal. Ou porque o espartilho da Escolástica ainda dominava, ou porque afinal aquele Instituto não correspondia ao que eu dele esperava, e que era já a paixão pela palavra, e onde esse espaço estava praticamente inexplorado.

 

De que é que estava à espera quando para lá foi?

O que me atraía era a questão da linguagem, a questão da palavra. Fui no ano seguinte para Lyon, para a Faculdade de Teologia. Frequentei um curso que me introduzia na Semiótica, onde se fazia a análise estrutural da narrativa e onde estudei a introdução à Bíblia através de um método que era, na altura, o estruturalismo. Fiquei nesse Centro durante mais dois anos, já na perspectiva da Semiótica e a saber que era por ali que queria caminhar. Frequentei então a Escola de Altos Estudos de Paris, passei por vários Seminários, em particular o de A. J. Greimas e, quando volto para Portugal, inscrevo-me num curso de pós-graduação de Ciências Literárias na Universidade Nova de Lisboa. Essa pós-graduação foi o que, de alguma maneira, me aproximou daquilo que poderia vir a fazer na Universidade. Depois de uma passagem pelo Colégio Moderno, entrei como assistente estagiário na Universidade Nova em 1981.

 

Inclui a Bíblia nos textos que dá aos seus alunos da Universidade?

Sim e não. Sim, se a Bíblia é vista como literatura, não se a Bíblia é vista como Palavra de Deus. Sou neutro nesse aspecto. Não sou confessional quando ensino, posso fazer alusões a textos religiosos, mas nunca de uma forma confessional. A minha tese «Sujeito, Paixão e Discurso – os trabalhos de Jesus» é uma análise exclusivamente semiótica da obra («Trabalhos de Jesus») de frei Tomé de Jesus. A não confessionalidade que exijo de mim no local onde ensino e no modo como ensino é visível num site electrónico, o TRIPLOV, que partilho com uma amiga, a Estela Guedes onde, entre outras matérias e iniciativas, se têm organizado alguns colóquios, considerados polémicos pelos temas escolhidos e pelas pessoas envolvidas. Há quem escreva indignado por me ver associado a gente ligada à Maçonaria em iniciativas como colóquios em torno dos discursos e práticas alquímicas. Gosto deste site que é um lugar híbrido por excelência mas que, ao contrário dos híbridos, não é estéril. É um lugar de trânsito para as mais variadas ideias, sem qualquer espécie de censura e é um lugar que acolhe, com grande abertura, pessoas das mais distintas tendências. Tenho a certeza que muitos dos meus alunos nem sabem, por estas e por outras, que sou frade. Que acrescentaria isso àquilo que devem saber de semiótica ou de hiperficção e discurso da crítica?

 

Depois desta conversa já não podem ignorar…

Muito bem.

 

Diz missa regularmente?

Digo, por necessidade, por gosto, e porque as pessoas me pedem. Nunca diria missa para mim próprio, embora haja quem o faça! A missa implica sempre uma comunidade, como a dança ou a festa. 

 

Gosta de celebrar missa?

Gosto se for participada e se for solicitada. É preciso que eu sinta um corpo que escuta e que responde, um corpo presente. Missas de corpo ausente, com pessoas que vão lá só papaguear umas coisas, disso não gosto nada. De resto, cada vez menos as pessoas respondem. Vai ser necessário introduzir dentro em breve aquele dispositivo de leitura que se usa na ópera quando não se sabe alemão...

 

Tenta convocar os fiéis para que estejam, como disse, de corpo presente, em verdadeira comunidade? Como?

Tento. De várias maneiras. Na homilia, nas orações que escrevo em forma de poema para rezar em conjunto, nos textos que faço para adaptar a músicas já compostas – e fiz centenas de adaptações!, na atenção que dou ao espaço onde a celebração tem lugar, na reflexão e no debate preparatórios, na partilha. A leitura dos textos há-de ser branca e a representação litúrgica deve aproximar-se do «teatro pobre». A Palavra é que convoca para a celebração. Passa por nós, mas está acima de nós e dela não dispomos, porque é a Palavra de Deus. Essa é a primeira Palavra e é Ela que convoca. Não é como a palavra do mundo, que é empírica, consensual, de conveniência. Há a Palavra de Deus e há a palavra do espelho, onde preferimos ver-nos e reconhecer lá os nossos interesses, reconhecer os que vivem à nossa volta e os que fazem grupo connosco. A Palavra de Deus é muito mais radical do que todas as outras e, para ser ouvida, precisa naturalmente de mediações, como as homilias, por exemplo, como a alegria e a beleza dos cânticos, como a géstica e os rituais, cada vez mais acentuadamente reduzidos.

Escrevi um livrinho, que espera a sua vez para ser editado, sobre Comunidade, Liturgia e Estética, onde muitas destas questões são tratadas. O que tem faltado à liturgia, do meu ponto de vista, é justamente o corpo. O corpo não está lá. É preciso ligar a topologia e a liturgia, sabendo que o lugar não é independente do corpo. O orante traduz em linguagem carnal a sua veneração da presença que lhe é dada. Nas igrejas das grandes cidades, mesmo que cheias, as pessoas estão caladas, ou repetem umas coisas que sabem de cor. São estranhas umas às outras. Nas aldeias, pelo menos antigamente, ainda havia uma corrente de afectos, as igrejas eram incubadores, ligavam as pessoas que do adro faziam o lugar de encontro comunitário. Agora, em quase todo o lado, as missas são cuidadas, algumas, a maioria assépticas.

 

Qual é a responsabilidade da Igreja nesse tom asséptico, presente nas celebrações litúrgicas e contaminador da atitude dos fiéis que ainda vão à missa?

Não nos podemos esquecer de que já não há comunidades nas cidades onde vivemos. Habitamos em prédios cada vez mais altos, onde entramos sem ser vistos para, no dia seguinte, sairmos sem ninguém nos ver. Nem sabemos o nome do vizinho do lado. As pessoas procuram cada vez mais os grandes centros urbanos, vindas de fora, vindas de muito longe. Nós não nos damos muito conta disso, mas somos cada vez mais um país de emigrantes. E as igrejas, ou são muito antigas, implantadas em bairros que se mantiveram quase como eram há cinquenta anos e como que, na sua grande maioria, ainda lá permanecem e pode ainda sentir-se um certo espírito de comunidade durante a missa, porque a igreja continua a ser um lugar de encontro e de reconhecimento mútuo, ou então, também nelas se reproduz o «ar do tempo», também elas reflectem esse tom asséptico e de estranheza nas pessoas que as frequentam. Ainda consigo impressionar-me com as imagens das multidões em Fátima ou no Vaticano, não porque esteja perto ou simpatize com a organização dessas aglomerações, mas porque me confirma o sentimento de que não sou uma ilha, de que há uma energia a ligar de uma forma muito real os crentes e a fazer deles um povo de congregados.

 

Mas essas são manifestações excepcionais e grandiosas, encenadas já com um eficaz sentido de espectáculo!

É verdade que a liturgia do Vaticano se faz quase a metro, higienizou-se de tal modo que provoca a retirada de simbólico e a predominância do cerimonial e do salamaleque. Parece que tudo reverteu para o corpo sacerdotal e celebrante que tem a função de presidir e que o faz de um modo teatral – uns, numa vertente hierática e compungida e outros, mais exuberantes, como se de mestres-de-cerimónias se tratasse. As homilias são em geral um desastre, porque esse corpo de mestres quer mesmo doutrinar e desancar. Falta o fundamental – testemunho e a partilha!

 

A Igreja foi alguma vez realmente diferente?

Igreja incubadora era a do princípio, que se tornou mítica para muita gente. O campo da liturgia é por definição presença e espera de Deus. A espera pode frustrar-se. A mais bela arquitectura não impõe uma presença. Se a liturgia da Igreja foi diferente? Sim, e continua a sê-lo em comunidades particularmente quentes. Há um lugar de que eu gosto muito, Taizé, perto de Lyon. E onde a liturgia praticada é a mais simples, a mais emotiva e a mais bela. Se a liturgia não é bela, se não desterritorializa, por mais voltas que se lhe dê, as pessoas não aderem. Dançar diante de Deus é denunciar toda a interpretação da corporeidade que a reduz aos limites da inerência. A dança litúrgica insinua que não podemos ausentar-nos simbolicamente do mundo e da terra. A liturgia na grande maioria das igrejas católicas está excessivamente hierarquizada: há o padre que celebra e que fala, há um coro de adultos ou de criancinhas que, nos momentos aprazados, cantam e tocam umas coisas nem sempre próprias aos textos e aos contextos, e há uma assistência imóvel, sem nenhuma envolvência. Isto decorre de uma ordem que é a da disciplina eclesiástica, a mesma que proíbe que qualquer leigo, não ordenado, seja homem ou mulher, possa tomar a palavra durante a missa. A homilia só os padres a podem dizer. Ora as razões para que isto seja assim são políticas, não são nem dogmáticas, nem doutrinais. Mas basta ir a África para ver como as celebrações, católicas, podem ser diferentes. Os cantos e até as danças são extraordinários, de uma qualidade inexcedível relativamente ao que se passa no Ocidente. Cria-se uma onda em toda a igreja que une as pessoas, que as conecta, que as transforma num corpo vivo. O contrário do que aqui se passa, onde tudo é medido e hierático. O que eu vejo cá é, de um lado, um corpo ausente, como morto, silente e, em frente, um outro, que faz o espectáculo, com uma marcação rigidamente sincronizada e autoritária.

 

Do seu ponto de vista está na Palavra e num modo outro de dizê-la, de partilhá-la e de reflectir sobre o melhor apoio para combater a tal rigidez sincronizada que caracteriza a actual liturgia católica?

A qualidade da Palavra, juntamente com outros dispositivos, é fundamental. Mas repare como na maior parte das orações, de estilo romano, a linguagem utilizada desvaloriza continuamente o terrestre, glorificando o celeste, algo que contraria tanto a encarnação como a experiência. Cristo não veio eliminar a Terra e impor o Céu. Cristo, e esse é o mistério da Encarnação, veio fazer a ponte entre dois mundos, sem abolir nenhum dos pólos que os erguem. Na homilia é disso que se deve dar testemunho. É preciso tornar a Palavra presente à vida, interactiva, mesmo quando se convida os fiéis a reflectir em silêncio sobre ela.

 

Qualidade da Palavra? Mas se é tão frequente o sacerdote não ter o dom da palavra nem grande entendimento dos textos sagrados!

Pois é, por isso é que deveria ser possível pedir-se a um leigo para representar esse sacerdote (palavra de que não gosto, por pertencer a um regime veterotestamentário de que saímos), menos capaz, na sua homilia. Mas a disciplina eclesiástica, como já disse, não o permite.

 

A disciplina eclesiástica e as proibições lembraram-me que gostaria, antes de terminar, de conhecer a avaliação que faz da Inquisição. É uma mácula, um espinho, um remorso?

Querendo ou não, os Inquisidores, que foram padres seculares, premonstratenses, franciscanos, jesuítas, etc., aparecem ao inconsciente colectivo ligados aos Frades Pregadores. A Ordem dos Dominicanos é, contudo, na opinião pública, a da Inquisição. Para uns é motivo de glória, para outros uma mácula e um espinho. Os dominicanos participaram na Inquisição, mas quem nela não participou na Europa? A procura da verdade, mesmo em ciência, leva ao anátema e à exclusão: é a máquina da verdade que produz a máquina da inquisição. Como tolerar a existência de outras religiões e de outras opiniões (heresias) num regime em que o princípio da ratio superioritas é dominante? O conceito de tolerância é recente. A atribuição da função de inquisidor a S. Domingos não tem fundamento, por uma simples razão cronológica: ele morreu em Bolonha em 1221 e os tribunais especiais da Inquisição foram criados em 1231, na Lombardia e na Alemanha, por uma decisão comum do papa e do imperador. Deve distinguir-se a Inquisição de tipo medieval, a serviço de bispos e depois de papas, e a Inquisição espanhola e portuguesa, que se tornou um verdadeiro instrumento político nas mãos das duas monarquias. O problema é o da coerção em matéria espiritual. Da dissenção. Da intolerância religiosa. Erasmo percebeu-o bem. Essa instituição pertence ao sistema de defesa da cristandade que junge o trono e o altar numa mesma aliança. Rebelar-se contra a fé católica é, então, rebelar-se contra o príncipe. Mácula, sim, histórica. Remorso, não, não somos culpados pelos pecados dos nossos pais. As «armas da luz» não se confundem com o brilho da espada nem com a vara, mas com a «doce persuasão» que é uma graça do Espírito. Espinho, a Inquisição?, sim, o terror que começa com a exclusão do outro. Esse terror está no meio de nós, sob as formas mais legais e mais consensuais – em nome de quê se faz hoje uma guerra?

 

Dê-me uma palavra de eleição.

Alegria-triste.

«Luz Desarmada», de José Augusto Mourão
Por Maria João Seixas

Maria João Seixas nasceu em Moçambique em 1945; licenciou-se em Filosofia, pela Faculdade de Letras de Lisboa; colabora com programas culturais no serviço público de televisão; na imprensa escrita com artigos e entrevistas; na rádio com crónicas e em debates sobre a actualidade política e cultural; foi assessora para a cultura do governo socialista presidido pelo Eng. António Guterres.
mjseixas@oninet.pt

 

José Augusto Mourão é Professor Associado com Agregação da Universidade Nova de Lisboa. Presidente do ISTA (Instituto S. Tomas de Aquino), Director da Revista de Comunicação e Linguagens. Rege as cadeiras de Semiótica, E-textualidades e Hiperficção e Cultura no Departamento de Ciências da Comunicação. Livros publicados: A visão de Túndalo: em torno da semiótica das Visões (INIC, Lisboa, 1988); Sujeito, Paixão e Discurso. Trabalhos de Jesus (Vega, 1996); A sedução do real. Literatura e Semiótica (Vega, 1998); Ficção Interactiva. Para uma Poética do Hipertexto (Edições Universitárias Lusófonas, 2001); O fulgor é móvel - em torno da obra de Maria Gabriela Llansol (Roma, 2004); com Eduardo Franco: A influência de Joaquim de Flora na Cultura Portuguesa e Europeia (Roma, 2005); O Mundo e os Modos da Comunicação (Minerva, 2006); com Maria Augusta Babo: Semiótica. Genealogias e Cartografias (Minerva, 2007). A Literatura electrónica (Vega, 2009).

 
 

 




 



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