José Augusto Mourão......

do visível ao invisto

alvoroço será a palavra que (con)vém

para dizer o nascimento?

fechando a porta

ouviremos a fonte de onde corre

o Verbo feito carne?

 

quem sacudirá a grande sintagmática

em que dorme o mundo

a comodidade

em que nos deitamos e acordamos

o “assim é” difuso

que justifica a inacção, o niilismo?

 

não o visível

mas  a fragilidade da evidência

o drama do visível

os sapatos de guerra da economia

que reduziu a justiça

a uma geometria moral

o desejo mimético

que ignora a apocalíptica do desejo

 

o Anjo entrou no quarto entreaberto

e saudou a nudez que nos esconde

não é o sangue o arquitecto desta hora

 

o Anjo mostra a transgressão do visível

o invisto

o olho ventral

que controla mesmo a sombra

o apetite voraz

do sagrado vigiado

 

que vemos, vendo o outro

senão o abismo da origem

a revelação do que se não desvela?

o olhar não são os olhos

o visual nada tem de puramente óptico

a natalidade é o milagre

que salva o mundo do domínio do negócio humano

da ruína normal

 

deixai fora  a cínica recomendação do Poder:

ficar em casa, não sair

a encarnação não é o mergulho na telepresença

nem o neotribalismo nos defende

dos fantasmas da identidade

mergulhemos no lodo do silêncio

a água vem do alto

inscreva-nos o Filho na carne do presente

a carne do verbo é vocativa

uma lâmpada tremeluz no escuro

o bafo da divina Presença nos aqueça

 

José Augusto Mourão é Professor Associado com Agregação da Universidade Nova de Lisboa. Presidente do ISTA (Instituto S. Tomas de Aquino), Director da Revista de Comunicação e Linguagens. Rege as cadeiras de Semiótica, E-textualidades e Hiperficção e Cultura no Departamento de Ciências da Comunicação. Livros publicados: A visão de Túndalo: em torno da semiótica das Visões (INIC, Lisboa, 1988); Sujeito, Paixão e Discurso. Trabalhos de Jesus (Vega, 1996); A sedução do real. Literatura e Semiótica (Vega, 1998); Ficção Interactiva. Para uma Poética do Hipertexto (Edições Universitárias Lusófonas, 2001); O fulgor é móvel - em torno da obra de Maria Gabriela Llansol (Roma, 2004); com Eduardo Franco: A influência de Joaquim de Flora na Cultura Portuguesa e Europeia (Roma, 2005); O Mundo e os Modos da Comunicação (Minerva, 2006); com Maria Augusta Babo: Semiótica. Genealogias e Cartografias (Minerva, 2007). A Literatura electrónica (Vega, 2009).

 
 

 




 



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