José Augusto Mourão

Ciência e religião: encontros e desencontros

Coda

Entre a religião e a ciência permanece um diferendo antigo, uma divergência radical na apreciação do que é o ser verdadeiro do homem. A ciência diz o que seremos. A verdade do cristianismo é irredutível à da ciência. A vida é um movimento caracterizado pelo Dom de si ou a “doação” que fica fora de qualquer objectivação. A ciência - e em  particular a biologia – nada sabe desta doação. O cristão não é filho de uma biológica que não existe, mas apenas da vida fenomenológica absoluta que é a essência de Deus. É desta Vida invisível que o homem é o Filho. O cientista do físico Michael Polany aproxima-se de um perito, no sentido inglês de connoisseur, e a sua competência é inseparável de um empenhamento (commitment), que implica a inteligência, mas também os gestos, a percepção, a paixão e a crença (Polany, 1951). É contra J. D. Bernal, um cientista marxista, que Polany funda, no início da guerra uma “Society for Freedom in Science”. A ciência não é imune a derivas de toda a espécie que decorrem de relações de força, de jogos de poder claramente sociais, de diferenças de recursos e de prestígio entre laboratórios em competição, das possibilidades de alianças com interesses “impuros”, ideológicos, industriais, estatais, etc. As intromissões no domínio não científico de explicações científicas observa-se amiúde. A Time publicou um texto sobre a biologia da crença (visão 19 de fevereiro de 2009). “Se alguma vez rezou com tanta veemência que perdeu todo o sentido do mundo, isso aconteceu por causa do seu lóbulo parietal ter entrado em acção...o hipotálamo tem um papel a desempenhar, tal como os lóbulos frontais. Mas é o lóbulo parietal, uma massa central de tecido encarregada de processar as entradas sensoriais, que provoca o maior efeito transportador”. Existem indícios científicos de que a fé pode realmente curar. Religião e ciência estão sempre em disputa mas concordam cada vez mais numa coisa: a espiritualidade pode ser boa para a saúde. O efeito placebo é uma espécie de magia curativa. Se dermos a um doente um comprimido de açúcar, mas dissermos que é um analgésico, a dor pode realmente desaparecer. A medicina e a religião partilham pelo menos um traço: ambas podem ser vistas como reacção à perspectiva da morte. Mas enquanto a ciência nada diz sobre uma possível vida no além, as práticas religiosas são formuladas pela sua concepção desse território por descobrir. Sobretudo, “A religião e a ciência tratam diferentes preocupações”, diz Richard Sloan, autor de Blind Faith: The Unholy Alliance of religion and Medicine. É verdade: as ciências, a nanotecnologia em particular, põem o homem em perigo. O movimento criacionista ilustra bem uma das facetas do tema “ciências e laicidade”. Vê-se mal a pertinência do relatório pedido pelo Conselho da Europa a uma das comissões sobre os problemas das ciências e do seu ensino face à emergência dos movimentos criacionistas. Para quê outra cruzada, depois daquela que os meus infelizes irmãos levaram a cabo no caso Galileu? O medo é abortivo. Um dogma é como um lampadário: no escuro, pode servir de ponto de referência para ir explorar as zonas mais obscuras; pode também permitir ao bêbado aguentar-se de pé agarrando-se a ele. As religiões fundam-se em dogmas e estão particularmente ameaçadas pelo dogmatismo. Também as ciências. “O cientista”, escreve I. Stengers, “já não é, ao mesmo título que qualquer outro humano, o produto de uma história social, técnica, económica e política, mas tira activamente proveito dos recursos do ambiente com a finalidade de fazer prevalecer as próprias teses e esconde as próprias estratégias sob a máscara da objectividade...O cientista, aqui, em vez de se privar heroicamente de qualquer recurso à autoridade ou ao público, surge acompanhado por uma coorte de aliados, de todos aqueles cujo interesse conseguiu criar uma diferença nas controversas que o opõe aos próprios rivais”[1].

 O “princípio de irredução” é uma precaução e uma exigência, que I. Stengers enuncia como a passagem do “isto é isto” ao “isto não é mais do que isto” ou ao “é somente isto”. Este princípio prescreve um distanciamento em relação à pretensão de saber e de julgar. Os religiosos e os cientistas correm o risco de se tornar sábios, não os cobrisse a aura e a autoridade que lhe creditam as nossas sociedades. O próprio do ser humano é escolher ser humano: “à lui de choisir entre le Royaume et les ténèbres”[2]. Que concluir? “Não precisamos de comunicação, temos até demasiada, carecemos de criação. Precisamos de resistência ao presente” (Deleuze, Guattari, 1989: 104). Precisamos de um “Parlamento das coisas” (B. Latour) em que J.P. Changeux ou D. Cohen possam representar as populações dos neurónios interconexos ou ou genoma humano, mas em que se sentem também os representantes da mística, do Inconsciente, das ciências “ambulantes” que não associam ciência e poder, dos processos heterogéneos, que não se confundem com a formação de guetos. Há o lobo destruidor, mas há outros lobos possíveis, implicados em outras histórias. Todo o discurso é de religação, razão, comunicação. A racionalidade tradicional que afecta a prática científica e não só, é essencialmente monológica, assente numa relação dialógica distorcida, “pseuso-simétrica” (Watzlawik e tal., 1972: 65ss). O discurso da ciência, porque dotado de protocolos de leitura específicos, corre o risco do monologismo, e que é uma doença da comunicação. No fundo, o monólogo é um diálogo não-interactivo. Exige a presença de um enunciatário, mas invalida-o como alter ego da troca enunciativa. Ora, a “bondade” e a “justiça” da ciência devem ser permanentemente questionadas, e por uma razão simples: “A ciência está (desde há um século) tão perto de nós que nos esmaga. O que nós precisamos é da distância vital certa para conseguirmos novamente um afastamento que nos permita compreender o que se passa connosco, homens. Ninguém sabe isso hoje. Por isso, todos temos de perguntar e continuar a perguntar para o saber. Voltar a aprender a perguntar”[3]. Contra o parecer de Eça que dizia das Luzes e das plebes: “O grande erro da nossa civilização” teria consistido na “extrema democratização da Ciência”, no “seu universal e ilimitado derramamento através das plebes”; a ciência deveria ser recolhida, como outrora, aos santuários”[4]. Nos tempos de Fradique, é já toda a ciência que, a não ser administrada por um sacro colégio, pode desencaminhar as plebes e arruinar a saúde moral das sociedades[5]. O mundo técnico unidimensional tenta impor-se como a única interpretação da realidade. Ora, com que direito pode uma forma de doxa reprimir uma outra? Como sensibilizar o auditório universal dos homens de boa vontade para a razão ou o interesse dominante, sem suspeitar da vontade de poder da parte dos Destinadores? Falta-nos a utopia da intersubjectividade “em que cada qual “se pronuncia” sobre um “quase-objeto que todos criaram”, mas que é representado de modo legítimo somente pela associação dispare das práticas mediante as quais foi criado e que a todos religa” (Stengers, 2000: 185). Falta-nos um humanismo serenamente antropocêntrico, que qualifica o movimento que consiste em dilatar o homem até às dimensões do mundo e a concentrar o mundo até às dimensões do homem. E não é essa também a pretensão das ciências?

 

                                               José Augusto Mourão (UNL/ISTA)

[1] Isabelle Stengers, op. cit.,p. 159. As Políticas da razão. Dimensão social e autonomia da ciência, Lisboa, edições 70, 2000, p. 16.

[2] Jacques Monod, Le Hasard et la nécéssité. Essai sur la philosophie naturelle de la biologie moderne, Paris, Seuil, 1970, p. 194-195.

[3] M. Heidegger, “A Pergunta sobre a Coisa”, lição de 1935-36.

[4] Eça de Queirós, A correspondência de Fradique Mendes, Porto, Lello & Irmão Editores, s/d, p. 57 e 58.

[5] Américo A. Lindeza Diogo/Osvaldo M. Silvestre, Les Tours du Monde de Fradique Mendes. A Roda da História e a Volta da Manivela, Câmara Municipal de Sintra, 1993, p. 20.

 

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José Augusto Mourão, dominicano, escritor, é professor na Universidade Nova de Lisboa, co-director do CICTSUL - Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa, presidente do ISTA - Instituto S. Tomás de Aquino, e coordenador do TriploV.

 
 

 




 



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