José Augusto Mourão

Ciência e religião: encontros e desencontros

Darwin

O Homo sapiens, a espécie a que todos pertencemos, é produto do acaso de milhões de anos de evolução, ou é uma criatura de Deus, cujo aparecimento é relatado no livro do Génesis? Passados 150 anos sobre a apresentação da teoria da evolução, cresce o número dos que preferem a narrativa do Génesis. Apesar de a teoria da evolução se ter transformado numa pedra basilar do cânone da ciência e da cultura, continua a ser contestada por uma parte importante da população, incluindo o Islão[1]. Stephen Jay Gould dizia que a resistência do chamado “criacionismo” era uma controvérsia localizada e americana, como o Tio Sam ou a tarte de maça. Há em Seattle o Instituto Discovery, defensor da “concepção inteligente” (uma versão light do criacionismo): o Universo é demasiado complexo para não ter um criador inteligente. O Conselho da Europa emitiu uma declaração em Outubro de 2007 com este título: “Os Perigos do Criacionismo na Educação”. Como se vê, o movimento criacionista tem um poder político real. “Julgada a partir do modelo teórico-experimental, pode perguntar-se se a biologia darwiniana será deveras uma ciência”. A questão é levantada por uma filósofa das ciências, Isabelle Stengers. O “adaptacionismo panglossiano” (Gould) diz que “Tudo é pelo melhor no melhor do mundo”. Todo o rasgo do vivente deve ser ou foi útil, pois a sua utilidade é que explica a selecção, dizem os neodarwinistas. Pelos vistos, os criacionistas americanos não se enganaram quando a atacaram e não à astronomia, como fez a Igreja no tempo de Galileu. “Não se revelaram, porventura, vazios de poder explicativo a priori, os grandes conceitos aparentemente explicativos – adaptação, sobrevivência do mais apto, etc. – simples palavras que intervêem para comentar uma história já depois de reconstituída?”[2]. A principal inovação de Darwin foi, sem dúvida, sustenta a autora que estou a seguir, a invenção da história do ser vivo enquanto história lenta,deriva”, dizia, porquanto desprovido do motor que teria constituído uma capacidade intrínseca de adaptação própria da vida ou a hereditariedade dos caracteres adquiridos proposta por Lamarck. Os instrumentos do naturalista dão-nos a possibilidade de reunir indícios que o guiarão na tentativa de reconstituir uma situação concreta, de identificar relações e não representar o fenómeno como função munida de variáveis independentes[3]. As ciências da prova não são as ciências do indício. A incerteza é o húmus das ciências de campo. O que um campo permite afirmar pode ser contradito por outro, sem que um dos dois testemunhos seja falso. Afinal, os “evolucionistas” ainda não conseguem narrar-nos como se criou o olho; mas conseguiram fazer a história dos seres vivos de um modo que reinventa o olhar que sobre eles lançamos”[4].

O aniversário dos 200 anos do nascimento de Charles Darwin fez aparecer na opinião pública uma polémica entre criacionismo e evolucionismo, vistos muitas vezes como opostos e excludentes, quando não é assim, afirma o arcebispo de São Paulo. «A criação não exclui a evolução, nem o contrário», destaca o cardeal, em artigo publicado na edição desta semana do jornal arquidiocesano «O São Paulo» (18 de fevereiro de 2009) (ZENIT.org)

 Segundo o arcebispo, «a evolução é um fato evidente e não pode ser posta em dúvida; porém, se ela explica como as coisas se diferenciam e mudam, por diversos factores, ela, contudo, não explica a origem absoluta dessas coisas». «É um facto que somente evolui e se transforma aquilo que já existe. Donde, ou de quem cada ser recebeu a existência e a ordem interna para ser aquilo que é, e não outra coisa?» «Do nada? – prossegue Dom Odilo –. Do nada, nada surge, a não ser que algum agente “crie”, isto é, dê origem, tire do nada e faça existir algo. O acaso poderia ser este factor determinante? Como seria inteligente este acaso! A teoria do acaso é absurda. É melhor crer em Deus criador, isso não é absurdo.» O arcebispo, que certamente não leu J. Monod, afirma que a evolução «explica “como” as coisas chegaram a ser aquilo que são, mas não explica o fato mesmo da existência das coisas, nem sua ordem interna e seu significado»[5]. De acordo com Dom Odilo, também a hipótese da “explosão inicial” (Big bang), para explicar a origem do universo, «poderia ser apenas uma explicação parcial». «É preciso explicar como passou a existir anteriormente um “algo”, que pudesse explodir; e explicar também a existência de uma lógica maravilhosa na origem do universo, que foi capaz de organizá-lo e de torná-lo a maravilha que ele é, em vez de ser o caos infinito e permanente.»Decididamente – prossegue o cardeal Scherer –, a evolução «também não explica a própria existência do universo». «Mas ela, como a ciência no seu todo, procura explicar “como” as coisas existem, são feitas, funcionam e interagem. E nisso não precisam estar contra a fé em Deus; nem precisa a fé em Deus negar a ciência. O verdadeiro cientista também pode ser profundamente religioso», afirma. Dom Odilo explica que neste debate ressurge a questão antiga da relação entre fé e razão, entre ciência e religião. «Trata-se de duas formas diversas de aproximação da realidade: a razão requer argumentos controlados por ela e convincentes para ela mesma; daí decorre o conhecimento científico moderno, que submete tudo ao seu método próprio e verifica a possibilidade de comprovar, com instrumentos que lhe são próprios, as afirmações sobre as realidades deste mundo”.«Aquilo que o método científico não verifica e comprova, também não pode ser afirmado pela ciência; mas seria falso concluir logo: portanto não existe. De sua parte, o conhecimento pela fé «faz afirmações baseando-se na revelação divina e vai além daquilo que a ciência pode controlar. A fé não é contra a ciência, mas vai além da ciência». «Não é preciso abandonar a fé em Deus criador para aceitar o fato da evolução, que faz parte da sabedoria criadora de Deus; é um dinamismo interno nas coisas, que faz com que o mundo não seja estático e morto, mas cheio de vitalidade, esperança e futuro», afirma o arcebispo. É um facto: Darwin abalou para sempre a ideia de ordem e de medida com que lidavam os teólogos, envoltos em visões físicas e metafísicas fixistas. O acaso entrou não apenas em biologia, mas também na filosofia do ser vivo[6]. Os princípios da teologia natural têm pela frente os difíceis problemas da contingência, da selecção e da finalidade. Mas Deus não pode ser nem confundido com o criado ou com leis deterministas nem separado delas: a criação é uma relação de origem entre Deus e as suas criaturas, relação de aliança marcada pela liberdade. Na teologia cristã Deus criou livremente o mundo e por amor (autocomunicação do bem): creatio ex amore Dei. Amor extático que o leva a sair de si mesmo e a criar. A teologia do “processo” rejeita a ideia da criação ex nihilo porque se afirma a partir do caos (eterno como Deus)[7]. Central no NT é a aclamação de Jesus como cosmocrator: (Fil 2,6-11; Is 45, 23; Col 1, 15-20; Rm 1, 3-4). Cristo é agente da criação em termos de (ta panta). Ele é o arché, o pleroma – fórmula helenística judaico/cristã – e a reconciliação de todas as coisas (ta panta). A criação consiste na transformação do caos em cosmos. O livro do Génesis não conhece ainda a ideia de criação no sentido estrito, i.é., criação ex nihilo. O conceito ex nihilo contradiz claramente a lei da conservação da massa e energia: é impossível criar algo do nada. Dizer que Deus criou num só dia o céu contraria os números da ciência que falam de 15 biliões de anos. A escuridão não é uma substância, mas uma ausência de luz. A expressão hebraica tohû-wabohû é proverbial para exprimir a confusão e a desolação (Is 34, 11; Je 4m 23). Tohû designa o deserto sem caminho, inabitável, enquanto bohû marca o vazio, evocando o caos. Repare-se que o caos tem o mesmo nome em Gn 1,2 e no Enuma Elich. De facto, o nome hebraico teom/abismo (Gn1,2) é o correspondente exacto, etimológico e semântico, do nome acádico Tiamat.

[1] Na Turquia, Adnam Oktar dirige uma Fundação para a Investigação Científica que defende as ideias criacionistas- cf http://www.harunyahya.com). O qualificativo de criacionismo designa os diversos movimentos, cristãos, judeus ou muçulmanos que rejeitam qualquer ideia de evolução no seio da natureza ou, pelo menos, se opõem às ideias e às teorias desenvolvidas por Charles Darwin e seus sucessores para explicar a evolução; a forma mais actual é a da intelligence design (desígnio superior). Ver Jacques Arnould, Dieu versus Darwin. Les créationnistes vont-ils triompher de la science?, Paris, Albin Michel, 2007.

[2] Isabelle Stengers, As Políticas da razão. Dimensão social e autonomia da ciência, Lisboa, edições 70, 2000, p. 16.

[3] Ibidem, p. 161.

[4] Ibidem, p. 163.

[5] É verdade que J. Monod (1970) leva o reducionismo ao extremo: o programa genético é a verdade do vivente: o essencial é a semelhança entre uma bactéria, um elefante e um homem. Jean-Pierre Changeux não padece menos de reducionismo: “nada mais se opõe, sob o aspecto teórico, a que os comportamentos dos homens sejam descritos em termos de actividades neuronais” (1983: 150).

[6] Jacques Arnould, "La conspiration du hasard et des contraintes", La Recherche, 296, 1997, p. 100-104.

[7] A. N. Whitehead, Process and Reality, NY, 1979.

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José Augusto Mourão, dominicano, escritor, é professor na Universidade Nova de Lisboa, co-director do CICTSUL - Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa, presidente do ISTA - Instituto S. Tomás de Aquino, e coordenador do TriploV.

 
 

 




 



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