José Augusto Mourão
O mártir inocente

1. Não podemos branquear a Paixão. Não podemos branquear a morte e a Paixão do Justo com procissões e ritos que servem o turismo e não respeitam o Acontecimento que mudou a história. Não podemos fazer da morte do Justo um absoluto, ignorando as vítimas que todos os dias são humilhadas, destruídas, aqui e ali, por toda a parte. Ter-se-á transformado a Paixão num dispositivo espectacular, à imagem da cultura catódica de hoje, indiferente à compaixão, ou que se apropria de formas degradadas da compaixão, privadas de pudor religioso e carregadas de voyeurismo? Pode ter-se prazer em morrer? Tertuliano diz que há uma boa razão para ter prazer em morrer (mori cum voluptatae debebimus). Inclui o padecer uma voluptas, o prazer de saber que o torcionário nada pode contra a carne indestrutível do mártir, ou o prazer de se saber em breve “recebido pelo Senhor”? Ou a deriva é outra: estaremos, mais perto dos fenómenos convulsionistas de Saint-Médard que se justificavam dizendo: “Deus quis que o espectáculo das convulsões excitasse a surpresa, o pasmo e a admiração, porque Ele tinha resolvido atrair para aí uma grande multidão de espectadores”? Não é verdade, em último caso, que o cristianismo transmuta o sofrimento em alegria? Ouvir o Miserere nobis e a Missa em ut menor de Mozart não tem o efeito dum analgésico?

2. Tertuliano diz que o Cristo da Paixão se saciou: “Eu não digo nada da sua crucifixão, ele vinha para isso: mas, para enfrentar a morte, tinha necessidade de insultos? No entanto, no momento de partir, queria encher-se do prazer da paciência (saginari patientiae voluptate): cospem-no, batem-lhe, gozam com ele, vestem-no de modo degradante, coroam-no de modo mais degradante ainda. Fé admirável na equanimidade! Aquele que se tinha proposto esconder numa figura humana em nada imita a impaciência humana (nihil de impatientia hominis est)! É neste sinal mais do que noutro, que deviéis ter reconhecido o Senhor: nenhum ser humano podia dar provas de uma tal paciência!”.

3. A inocência do sofrer – físico e psíquico – manifesta-se em Cristo ao contrário do pecado sancionado pela lei, como punição. Jesus diz que o sofrimento é inerente à reconciliação do humano e do divino, não é imposto do exterior. O homem cristão é um homem de dor e de amor. O sofrimento crístico é ao mesmo tempo físico e abandono psíquico, que encontram uma resolução na reconciliação. O amor intelectual infinito (compaixão e cenose) coabita coma dor existencial que elucida. O génio do cristianismo favoreceu um contrapeso ao sofrer: o dolorismo com o seu cortejo de moralidade solidária e a morte de Deus que é nada menos que a sua sublimação pela actividade verbal e psíquica. Eu sou capaz de me representar a minha paixão e é esta que é a minha ressurreição.

4. Há em Paris, no século de Diderot que recusou ir ver o especáculo, um certo número de mulheres – umas quinze, mais um tal Inocente – que clandestinamente praticavam uma espécie feroz da Imitação de Cristo: crucificavam-se umas às outras, faziam-se flagelar, bebiam o vinagre da Paixão, faziam-se recrucificar e trespassar o seio direito com um golpe de lança. O diácono Pâris dissera: “De que me serve, meu doce Jesus, saber que fostes crucificado, se não posso nada sofrer convosco, por Vós, ou antes por mim? […] Não digo por Vós; mas por mim, a fim de realizar na minha carne o que falta aos Vossos sofrimentos”. A ferocidade figurista dos convulsionistas tinha aqui a sua fundamentação: todo o sofrimento representa para o sujeito um outro sofrimento, o do Crucificado.

5. A novidade nunca vista, o acontecimento cujo alcance o mundo ocidental ainda não percebeu é que Deus está doravante do lado das vítimas. Fora da cidade ordenada pelo jogo da diferença sagrada. Javé está doravante fora do templo. A verdade divina já não está na cidade antiga, ou no povo eleito, é rejeitada para fora da cidade dos homens, com a vítima. O Servidor de Javé – a linchagem do Servidor sofrente em Isaías – é o único acontecimento possível da estrutura, porque a expulsão dos bodes expiatórios é sempre uma recaída no círculo vicioso. É por isso que a literatura profética chega a um Servidor fora de qualquer acontecimento particular, de qualquer referência a uma pessoa ou a um grupo determinado. Todos os esforços para identificar o Servidor com Israel no seu todo parecem vãos.

6. O verbo encarna para que Jesus se sacrifique; mas Jesus só morre para ressuscitar; e só ressuscita para salvar a humanidade. Se o verbo encarnou para salvar o homem é porque queria também salvar a carne do homem arrependido. O Deus que faz sair o corpo de Adão da terra, da terra há-de fazer sair todos os corpos dos homens. A carne ressuscita porque, como a alma, tem de ser julgada. A carne comparece á boca de um mundo transformado porque o mundo visível será apagado como uma cortina de teatro. No centro, o Pai, o Espírito e Jesus Cristo que guardou na sua glória a multidão das feridas com que os homens o cobriram. E toda a carne será exibida, devorada pela vida eterna e transformada, salva.

7. No sacrifício da Paixão Cristo é ungido pelo seu próprio sangue. Podemos ler o relato da Paixão como um drama da passagem e do limiar, um drama cujo operador “material” é o sangue do Crucificado. Diante de Pilatos, Jesus é despojado das suas vestes e revestido com a clâmide – Mateus nota: escarlate, Marcos e João falam de púrpura, assim como com uma coroa de espinhos. Figura da irrisão ao mesmo tempo que prefiguração do despojamento: será crucificado, trespassado, o sangue será o seu único vestido. O sangue de Cristo rega a terra do Gólgota e o seu corpo é como um véu que se rasga, enquanto os soldados, os seus algozes, tentam partilhar uma textura inconsútil, sem costura. Após o consumatum est, inclinando a cabeça, Jesus expira. O sol eclipsa-se, a terra treme e os túmulos abrem-se. O véu do Templo, tecido de um linho retorcido e tingido de três cores incluindo o vermelho, rasga-se. Púrpura dos sofrimentos por que Deus passou, carmesim da caridade e violeta da meditação das coisas celestes, diz S. Tomás. O sangue de Cristo aparece como o operador de visualidade e de “fim dos tempos”. É ele que rasga o véu do Templo. É ele que nos admite à visualidade do Santo dos santos, isto é, à verdade. O sangue de Cristo torna-se uma teoria. Não diz a escritura: “Hão-de olhar para que trespassaram”?

8. Dê-nos o Mártir desta tarde a paciência, uma inteligência amorosa, inseparável da compaixão do Homem-de-dor e que se confunde com o divino, para olhar este mundo dilacerado com as lágrimas com que ele próprio chorou o seu amigo Lázaro.Só é cristã uma prática cristã, uma vida como a que viveu aquele que morreu na cruz”, dizia Nietzsche. Tiago resume essa prática ao amor do próximo, ao descrédito da riqueza, á palavra verídica e decidida. É essa a perfeita lei de liberdade diante da qual nenhum tirano tem poder, nenhum algoz a glória.

9. Interroguemos o silêncio desta hora: que experimenta Cristo na Cruz senão o silêncio, a ausência daquele a quem chama Pai, antes de ir ao seu encontro na manhã da ressurreição? Que experimentam os discípulos no caminho de Emaús senão a ausência daquele que antes os guiava? Cristo salva-nos “quebrando o seu ceptro solar”. Retira-se na hora em que podia dominar. Também nós temos de experimentar este perigo da ausência de Deus, experiência moderna por excelência. Imitar Cristo é recusar impor-se como modelo, fazer tudo para não ser imitado. É no silêncio de Deus que Cristo nos convida a ver o novo rosto da divindade. Imitar Cristo não é adoptar um aspecto. É repetir um processo ao mesmo tempo ungir o Cristo, como Maria Madalena e ser lacerado, crucificado. O “parecer” cristão é a procura do contacto, da indicialidade, do testemunho carnal, do martírio. Não procureis outra Paixão nem outra santa Face.

José Augusto Mourão, dominicano, escritor, é professor na Universidade Nova de Lisboa, co-director do CICTSUL - Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa, presidente do ISTA - Instituto S. Tomás de Aquino, e coordenador do TriploV.
 

 




 



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