Procurar textos
 
 

 

 

 







ROMILDO SANT'ANNA
De Modas e Caipiras
 

Se a música é desenho do sorriso mais inspirado de uma nação, revelando-a em sua força criativa, dramas, liturgias e devoções, a moda caipira de raízes é identidade consagradora das populações que habitam e revivem sentimentos ancestrais nas regiões mais populosas do país: o Sudeste e Centro-sul. Poesia lírico-narrativa irmanada aos ritmos e cânticos, atravessa doces ribeiros, campos e mares revoltos, nas malícias, premonições e afetos, de gerações em gerações. É a arte do cantar agregador e festeiro, mas também do recitar em silêncios, e situa-se entre as fundamentais expressões brasileiras de literatura oral-popular. Com versos em redondilha maior, as rimas geralmente em linhas pares de sextilhas e estrofes oitavadas - como fizeram muitos escritores clássicos -, as formas primordiais da moda caipira chegaram ao Brasil no coração quinhentista de invasores portugueses. Por aqui, esse dizer cantarolado se entrecruzou na mestiçagem com indígenas e escravos africanos, gerando seus gêneros mais reconhecidos: o cururu e o cateretê (os mais primitivos e nativos dos sons caipiras); o recortado, de origem indígena e traços de sons africanos; a toada melodiosa e lânguida, canto nacional de todos os recantos; o pagode, moda recente e ladina, enxerto repicado do recorte mineiro com o catira, e a famosa moda-de-viola que, pela fabulação romanesca e legendária, mais semelha aos cantares medievais ibéricos - literatura de tradição oral florescida no século 12.

A moda caipira de raízes é originalmente branca nas formas e meios literários de expressão, e mestiça no enlevo de legendárias histórias, medos e emoções. Não é fruto de uma raça genuína, mas da misturagem étnica nacional - "a geléia geral brasileira que o jornal do Brasil anuncia" -, poetizaria Gilberto Gil. É que no sangue caboclo se fez a travessia de costumes, idéias e sentimentos, enxerto num tronco avermelhado de brasil. Com uma alegria transpirada de melancolias, esse cantar possui a réstia de antigas louvações ibéricas, um fundo de desolação e amargor do escravo, a atmosfera lânguida e taciturna do indígena, ares de gravidade e compenetração existencial com que se ergue em tamanho o sangue sertanejo. São pulsares da tristeza de um camponês lusíada, degredado, exilado e saudoso, do índio espezinhado no desterro em sua própria terra e dos braços e corações africanos, amargurados em grilhões escravocratas.

Canção ponteada de efeitos sonoros, é bem possível que, nas primeiras caravelas, a brisa atlântica fizesse zunir cordas de violas - a antiga vihuela hispânica -, num cantochão cristiano de remembranças seculares. E, através desse instrumento, vibram a música e a pulsação dos sem-terras e sem-nada, dos ninguéns - como escreveria o antropólogo Darcy Ribeiro. Choram de saudade três raças e culturas, no conflito de amargos desterros. E, só por isto, o acinturado instrumento se derrame em notas que semelham choros.

Na cantiga sertaneja dos daqui, quem se faz ouvir é o nhapango que habita em nós, sentimental, romântico, passional, vergonhoso, intuitivo e místico. Desvalido pelas classes de cima e sendo forte, resgata a alma unificadora, no rito universal da fraternidade e benquerença. São violeiros-cantadores que, nas asas da tradição, exprimem o saber literário-musical que passou pelo mais severo recenseamento das artes: o tempo. São artistas populares que nos alembram da lida com a terra, do saber da própria terra e do que dela germina. Mantêm, com orgulho nato, a tábua rasa de mandamentos e a chama que brilha no lastro dos antepassados. Nesse rito magnífico e tranqüilo, a palavra empenhada vale uma escritura; a cordialidade, uma poesia ética; a honra, o pedestal que sustenta o próprio mundo. Nas modas de raízes revive o crivo de pertencimento ao berço, reside a seiva que sustenta o radical do que somos: hispano-americanos, brasileiros, caipiras. É expressão de valia na função utilitária de quem resiste, convive e faz, simbolizando a identidade em que se hasteiam o verdadeiramente culto, radical e sublime da nação. Se não valesse só pela querência de ser em estado de graça - que solidifica e engrandece a todos que vivemos nela -, recebe todo santo dia o referendo de um sábio avalista: o povo em seu discernimento e encantos. Saravá, singela moda; sua bênção, honorários cantadores; evoé, heróicos violeiros, donde este pedaço do Brasil tanto semelha com o que se chamou Brasil!

 
 
 
Romildo Sant'Anna, jornalista, curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva', é autor do livro "A Moda é Viola - Ensaio do Cantar Caipira".
   
   

 

 

 


hospedagem
Cyberdesigner:
Magno Urbano