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ROMILDO SANT'ANNA
Maravilhosos Retornos
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Vladimir Propp, expoente dos estudos da narrativa, ao investigar as raízes do conto folclórico russo descobriu que as histórias que vivenciamos ou que transformamos em ficção se reduzem a poucos símbolos primordiais. No tecido das artes, é interessante notar como certas situações se repetem, de forma distinta, mas numa linha de constância que as aproxima e as torna iguais em essência. Uma recorrência contínua é o tema do eterno retorno que se manifesta, entre outras narrações, na Parábola do Filho Pródigo. Conta que um jovem ajuntou o que era seu e partiu pra terras distantes. Lá, esbanjou tudo o que possuía. Sentindo-se abandonado e pobre, volta à casa e é recebido em festa pelo pai. O irmão mais velho, não compreendendo a atitude, se revolta. Tais criaturas representam, numa gama infinda de evocações e alegorias, a nostalgia do afeto, apego e necessidade da volta às origens, imprevidência do incauto ante os perigos do mundo, ambição, intolerância e redenção, amargor e ansiedade pelo regresso de quem foi.

Retornar é apanágio de quem tentou, avesso de quem fica, reencontro com o ninho e procedência. Escutemos o pulsar de tantas voltas em maravilhosas canções. Num ícone da bossa nova, o romantismo de Vinícius, na melodia delicada de Jobim, roga à própria tristeza que dê seu recado em forma de música: "Vai, minha tristeza, e diz a ela que sem ela não pode ser. / Diz-lhe numa prece que ela regresse, porque eu não posso mais sofrer" (Chega de Saudade). Na trajetória inversa ao êxodo rural, um filho pródigo de Renato Teixeira lamenta: "volto me carregando com minhas pernas / no peito só cansaço de viajante / na boca seca a sede que andou distante / da água nova que se bebe nas velhas fontes" (Invernada). Com semelhante vibração emotiva e procura do tempo perdido, um caboclo pródigo em tristeza redige uma carta: "o sonho de grandeza, oh, mãe querida / um dia separou vocês e eu / queria tanto ser alguém na vida / e apenas sou mais um que se perdeu" (Fogão de Lenha, de Colla, Duboc e Xororó).

O regime militar decretou desterros incitando o anelo do regresso. E, na perspectiva dos que ficaram, Bosco e Blanc escrevem que a nação: "sonha com a volta do irmão do Henfil, / com tanta gente que partiu / num rabo de foguete" (O Bêbado e a Equilibrista). Chico e Tom, decalcados no lirismo de Gonçalves Dias, compõem nova canção do exílio: "vou voltar, sei que ainda vou voltar, / para o meu lugar, foi lá e é ainda lá / que eu hei de ouvir cantar uma sabiá" (Sabiá). E outro exilado, no dionísico da paixão e erotismo, e euforia do encontro, pede à mulher que mande as crianças pra casa da avó e faça um cabelo bonito porque "eu quero mesmo é despentear / quero te agarrar, pode se preparar, / porque eu tô voltando" (Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro).

Ns variações do mesmo tema, outra canção vigorosa é "Cadeira Vazia", de Alcides Gonçalves e Lupicínio Rodrigues. Nela, há um transpasse sentimental a exprimir uma das mais agudas penetrações no machismo boêmio. No fingimento poético, seus versos dizem: "Tu és a filha pródiga que volta / procurando em minha porta / o que o mundo não te deu. / E faz de conta que sou teu paizinho / que há muito tempo aqui ficou sozinho / a esperar por um carinho teu". Noutro samba-canção, Lupicínio sussurra carente e sublime: "Volta, vem viver outra vez ao meu lado / não consigo dormir sem teu braço / pois meu corpo está acostumado" (Volta). E Chico Buarque, numa das mais belas representações da alma feminina, conclama entre o desespero e ternura: "vou voltar, haja o que houver vou voltar / já te deixei jurando nunca mais olhar pra trás, / palavra de mulher, eu vou voltar (...) vou chegar a qualquer hora ao meu lugar / e se outra pretendia um dia te roubar / dispensa essa vadia, eu vou voltar" (Palavra de Mulher). Em cada canto, um mote de nostalgia, um tropeço na armadilha da existência, enigmático entrevero humano, igual parábola evangélica. Juntas, enfeixam significados palpitantes, da literatura tradicional à literatura girante em canções. Melhor fosse que ninguém partira, que ninguém se perdera ou precisasse retornar. E, com toda ternura dessa vida, ressoaria o pedido redentor num Chico inda em botão: "fica, meu amor, quem sabe um dia / por descuido ou poesia / você goste de ficar" (Fica).

 
 
 
 
Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
   
   

 

 

 


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