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ROMILDO SANT'ANNA
Das Flores Calmas do Ipê
 

Tantas vezes me pergunto: por que um sujeito escolado dá bola pra moda caipira. Não seria subcanção, subliteratura, expressão rústica duma gente subtudo? O que faz, ingenuamente, um passatempo simplório, legenda inacabada? Não. O que persiste nesses confins do asfalto - explica-me o cronista - é o descomunal desapreço e literal ignorância de burgueses acomodados. Neles pairam os comandos ideológicos e mandatários. Arrogantes, não só desacatam, como tripudiam sobre tudo do despossuído povo. Quase sempre, tais elites não o têm com seriedade ou, antes, fazem-lhe a guerra de desfeitas, exploração e caçoadas. Ao mesmo tempo, de costas para os eitos da nação, festejam o que se realiza no estrangeiro, não se importando se o que lá muita vez consagram seja uma espécie de "arte sertaneja" das estranjas.

Somente pra citar alguns artistas de nascença latina - argumenta o cronista, fazendo indagações -, que tal, só de maravilha, " Amarcord" de Fellini, ou um de seus ramais suburbanos em "As Noites de Cabíria" . Que tal Pirandello em seus contos da gente do Sul, no dialeto "errado" do povo. Que tal a ternura do pescador num mundo ágrafo, analfabeto, a ministrar lições enternecidas a Don Pablo Neruda em "O Carteiro e o Poeta" doutro poeta chileno Antonio Skarmeta . Será - novamente me indaga argumentando - que a distância, a sonoridade doutra língua, a ilusão das cochinchinas distantes levem à fantasia de um ser ideal, abstraído no espaço e no tempo, e só por isso admissível no campo fazedor e das criaturas da arte. E, sendo assim, o sertanejo se impõe como por demais concreto pra freqüentar a imaginação positiva? E o camponês calejado, tão desmascarado e rés-do-chão pra corporificar-se na primazia das majestosas artes, auditórios e galerias. Ou seria mesmo desprezo, asco, resquício imperial num país pobre comandado por uma casta insensível e bacana.

Acatando-se que alguns veios das consideradas belas artes sejam apropriação e superação do dizer, sentir e artesania do povo, que tal as tragédias aldeãs de Lorca, os filmes dos Tavianni, a árida narração de Juan Rulfo, o retilíneo brasileiro de Drummond, de Graciliano, criaturas soturnas de García Márquez e a lavra da palavra em tantas sagaranas de Rosa? Seriam eles artistas tão divulgados, que suas criaturas não pareçam sentidas na limpidez de um caboclo. Que tal a aspereza incomparável de Güiraldes, o vozeirio pantaneiro de Manuel de Barros, o solilóquio gauchesco de Borges, as confissões intimistas nos acordes de Manzanero, o tropicalismo percorrendo léguas em "Bye, Bye Brasil", a crueza colorida na teatralidade de Glauber e Tarsila. Que tal as sinfonias nativistas de Villa-Lobos, o piano de Jobim, e as cânticos de Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui na garganta crioula de Mercedes Sosa. Que tal o sopro singelo de Renato Teixeira e Gilberto Gil, as vozes dolentes de Pena Branca e Xavantinho, Zé Carreiro e Carreirinho, Vieira e Vieirinha e demais diminutivos portentosos? Que tal Roberto Corrêa, Paulo Freire, Pereira da Viola... tantos artistas de ornato ser tão sufocados.

Nesses artistas - argumenta -, quem canta é o sentir solidário, no dialeto de aldeias e lugarejos, com a limpidez desnuda e crua da linguagem. Condenam os erros gramaticais do povo e só os aceitam como "licenças poéticas" (ai, que tolice! - ele suspira). É que poetizam tão fácil que se tornam difíceis para os que esperam o intrincado das elucubrações herméticas, quase sempre narcisistas, esnobes e excludentes. Pra quem encontra dificuldade no simplesmente fácil - cita-me Mário de Andrade - " é só tirar a cortina que entra luz nesta escurez... todo difícil é fácil, abasta a gente saber!". E arremata o cronista: os que exprimem a sabença popular têm que ser fruídos com olhares intrínsecos do afeto e apurado senso de penetração social. Tudo considerado como se a voz do povo, em suas linhas tortas, fosse mesmo a voz de Deus. E a existência dominada por estranhos desejos e enigmas. Essa graça de afetos sobrepassa a fortuna de aguçados saberes, crepitantes na alma cabocla. Moda de raízes, textura, gosto e cor do inhame, lembra fortificante mantimento ancestral. Revive o passado, respira no presente, desperta pressentimentos do futuro. Nessa voz, um cantar solene. Reacende a centelha esquecida da fé, desentristece, embeleza e enche de esperança. Nessas alturas, o cronista me convida, doce e elegante: deitemos sob os ramos rarefeitos do ipê, pra que flores brancas nos vejam! Igualdade, igualdade é branca.

 
Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
   
   

 

 

 


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