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ROMILDO SANT'ANNA
As Invasões Bárbaras
 

“As Invasões Bárbaras”, do canadense Denys Arcand, constitui-se num dos mais sensíveis filmes que passaram por aqui. No enredo, o professor de história Rémy, abatido pelo câncer, reúne velhos amigos pra realizar as contas de si mesmos, sonhos e desalentos projetados na vida. Os diálogos são tragicômicos e devassos, como que a espantar a sombra da morte que avizinha. Em dado momento, no alívio da dor pela injeção de heroína, e diante do tumulto de 11 de setembro de 2001, Rémy dirige-se a uma freira que o atende: “Por que vivemos numa época terrível? Pensando bem, não foi tão terrível. Ao contrário do que se diz, o século 20 não foi tão sangrento”. Passeia pelo quarto e rememora com sarcasmo: “Admita-se que as guerras fizeram 100 milhões de mortos. Acrescentem-se 10 milhões nos gulags da Rússia... Nos campos chineses, digamos, mais 20 milhões... Um total de 130, 135 milhões de mortos”. E contrapõe, com humor-negro e cinismo: “No século 16, espanhóis e portugueses conseguiram, sem câmaras de gás, nem bombas, fazer desaparecer 150 milhões de índios na América Latina. Deu trabalho, irmã, 150 milhões de pessoas, a machadadas. Mesmo com o apoio da sua Igreja, foi um grande feito, não há como negar! A ponto de holandeses, alemães, ingleses e americanos se sentirem inspirados e massacrarem mais 50 milhões. Um total de 200 milhões de mortos! O maior massacre da humanidade foi aqui, ao nosso redor... Ah, irmã, a história da humanidade é uma história de horror!”

Não desejo questionar se exatidão da matança narrada por Rèmy reflete o escárnio do historiador agônico a seu conhecimento dos fatos históricos. Ironiza a vida e a morte no corpo existencial que falece, e na alma que definha. No lampejo cinzento de sua própria ironia, no entanto, fala de invasões sanguinárias como quem, tomado da angústia, contabiliza crenças destronadas, panfletos carcomidos pela traça ou quinquilharias inúteis. Somatizando na doença a decepção dos homens, remete à sanha devastadora dos “civilizados” diante de corações desarmados e generosos, em virginal pureza.

Consternado (sou bisneto de uma jovem restante da nação Pataxó), fui a reler relatos do achamento do Brasil. A famosa e comovente Carta a El-Rei D. Manuel, de Pero Vaz de Caminha, relata o encontro dos descobridores com os ancestrais viventes da terra, dando-se, após, início às bárbaras invasões. Entre as descrições geográficas e etnológicas, o cronista desenha o contorno dos costumes, crenças e temperamento dos indígenas por aqui nativos. Estima-se que havia no Brasil oito milhões de silvícolas orando e cantando em mais de 120 línguas distintas. Em qualquer trecho que na Carta se percorra, confirma-se a tese da “bondade original” do ser humano, de Jean-Jacques Rousseau, subvertida pelo afã de possuir ou, o que dá no mesmo, não querer compartilhar. Atesta o escrivão e navegador lusitano: “andavam muitos dançando e folgando, uns diante dos outros. E faziam-no bem... Passou-se então para a outra banda do rio. Diogo Dias levou consigo um gaiteiro com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos. Eles folgavam e riam, e andavam... sempre com os nossos, como se fossem mais amigos nossos que nós seus. Esta gente é boa e de bela simplicidade”.

Ainda que menos divulgado, outro testemunho de navegante é a “Relação do Piloto Anônimo”, escrito após a volta da expedição a Lisboa. Informa que “aqueles homens andavam pescando nas suas barcas. Um dos nossos foi onde eles estavam, e apanhou dois que trouxe ao Capitão-mor, para que ele soubesse que gente eram. Os naturais ficaram muito contentes e maravilhados das coisas que lhes haviam sido mostradas.” Repara que “eles entravam no mar até aos peitos, cantando e fazendo muitas festas e folias. No outro dia voltamos à terra em busca de lenhas, e os naturais vieram conosco para ajudar-nos”.

Por fim, busquei uma correspondência menos conhecida, de Joan Farás, físico e cirurgião da esquadra de Cabral. Nela, informações astronômicas esquadrinhavam aos interessados de Lisboa as sendas marítimas de chegada à Terra de Santa Cruz. Pela primeira vez é descrita constelação do Cruzeiro do Sul. Solta no espaço, a cruz magna e bela do Sul – cordão umbilical do amor, do suplício e da fé – seria o alento sagrado de um país e, por discórdia, o traçado a apontar do infinito outros enredos de infames histórias: as invasões bárbaras que se deram à terra ambicionada. Guiadas pelos luzeiros do céu, naus ambiciosas e lascivas penetraram planícies, florestas e montes. E, na rotina do massacre, sem bombas, nem câmaras de gás, dizimaram inocentes corações.

 
 
Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
   
   

 

 

 


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