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ROMILDO SANT'ANNA
Ginger & Fred
 

Em "Ginger & Fred" (1986), Giulietta Masina e Marcello Mastroianni interpretam Amélia e Pippo que, antigamente, nos palcos de variedades, faziam a imitação Ginger Rogers e Fred Astaire. Após muitos anos, envelhecidos, são convidados a participar de um programa de atrações insólitas da televisão e, em meio a personagens decadentes, relembrar o número musical sapateado mais famoso que encenavam: no cais, um casal se despede. O poético filme de Fellini enreda duas criaturas esquecidas no passado e que, no presente, vivem o reencontro por algumas horas. Suas fisionomias são máscaras da glória ilusória dos anos em que bailavam juntos e o estado atual de ambos, vincado por um oculto amor jamais realizado. Amélia era tímida, fina e submissa, hoje, uma avó rotineira; Pippo, machista, bizarro, espertalhão, persiste a exibir a exaltação do que nunca fora, dissimulando a melancolia da velhice. Corporificam a face de tantas maquiagens que, curtidas no tempo, não conseguem arrancar. Os espectadores, consternados, ficamos com a latejante indagação felliniana: acaso não seria esse o retrato simulado de nossa vida?

Mas vazemos do labirinto de existências pálidas e ressentidas, e ouçamos o burburinho das platéias e o sapateado de artistas como Ginger Rogers e Fred Astaire, no showbiz encantador de luzes, fama e melodias. Recordemos uma entrevista do velho Pippo. Em tom anedótico, explica que o sapateado era uma espécie de Código Morse com que escravos se comunicavam nos algodoais americanos. Se falassem entre si, os vigias arrancavam-lhes a pele a chibatadas. Então, tamborilavam com os pés as venturas e desventuras da vida. Didático, exemplifica batucando em dedilhados: "Cuidado, o vigia vem vindo!". "Eu tenho uma faca!". "Vamos liquidá-lo!". Volta-se para Amélia e encena uns toques delicados das mãos deslizando sobre a perna: "Eu te amo!".

O sapateado é a linguagem do amor, da dissimulação e da morte. É a diversão dos ritmos com os pés descalços dos indígenas, e dos sapatos europeus, no ritual do convívio. Muito antes dos palcos e cinemas, irlandeses faziam intrincados movimentos de pernas e tamancos, e africanos harmonizavam corpos e o repicado dos pés, na ciranda intermitente das gerações. Sapateios lúdicos e artísticos flamejam em toda parte do mundo. No Brasil, sobressai na empoeirada celebração indígena, dançando e cantando em roda, e no enfileirado e agregador catira ritmado em palmas. É o bailado flamenco, escultórico, viril e selvagem, um pouco cigano, um tanto judio, índio e meio árabe, no baque ritmado e enérgico dos tablados. Numa espécie de transe, bailadores inigualáveis como Antonio Gades e Cristina Hoyos encarnam a coreografia da paixão, da honra, da vingança e da morte. Não se dirigem ao público, mas à terra andaluz, com trejeitos que, centralizados nos arpejos da guitarra, começam e terminam na envergadura do corpo. Olê!

Das lavouras sofridas aos guetos noturnos de Nova Iorque, o sapateado subiu à ribalta dos grandes espetáculos. Savion Glover foi à Broadway a despeito de ser preto. Bill Robinson, proibido de apresentar-se com mulher branca, fez par com a menina Shirley Temple. E plantou as sementes dos filmes musicais que, até hoje, encantam platéias e aliviam corações. No improviso do jazz, vieram tantos geniais sapateadores: Eddie Rector, Eleonor Powell, Jonh Bubbles, Donald O'Connor, Sammy Davis Jr... E ninguém jamais esquecerá a melodia "Singin'in the Rain" e um Genne Kelly cantando na chuva. A voz rouca, a elegância dos passos forjados no balé, o talento pra conceber coreografias magistrais fizeram de Kelly a encarnação do esplêndido em matéria de baile. Fred Astaire é o gentleman flutuando no diálogo solitário com uma bengala ou no flerte delicado a sensuais companheiras de palco. No tamborilo dos pés, na trama obscura com que os escravos se comunicavam ao sol das plantações, sapateadores fizeram luzes num século permeado de trevas. A contraface e resumo dessa história é o pungente filme de Fellini. Faz lembrar que a vida é um show, no palco que se apaga. É o apito brusco de um navio atracado, alembrando a eterna despedida.

 
 
 
Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
   
   

 

 

 


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