ROMILDO SANT'ANNA
O mano Pelicano

Um dia, na redação do jornal Bom Dia, disse Pelicano que eu era seu mano. Não lembro se em sonho ou pesadelo. Senti-me lisonjeado e crescido em família, pois virei ainda irmão do Glauco, cartunista da Folha de S. Paulo. Na rua e como um Freud, busquei explicações. Decerto a irmandade provenha de uma facial coincidência. Num lapso, lembrei de um auto-retrato de Bocage: “ Magro, de olhos azuis, carão moreno, bem servido de pés, meão de altura, triste de facha, o mesmo de figura, nariz alto no meio e não pequeno”. Espinhela curva como uma interrogação, riscando em grisalho a tela do computador, salta-nos um perspicaz adunco nasal: “ Nariz, que nunca se acaba. Nariz, que se ele desaba, fará o mundo infeliz. Nariz que Newton não quis descrever-lhe a diagonal. Nariz de massa infernal, que, se o cálculo não erra, posto entre o Sol e a Terra faria eclipse total!”. Vale aduzir: o que evidencia os pelicanídeos, além da grande envergadura planando ligeiro sobre os lagos, é o comprimento do bico e a dilatável goela que funciona como rede de pesca. Daí, quiçá, em apelido amigo, o mano Pelicano.

No vívido artista dos rápidos desenhos, sua rede é jogada sobre o cotidiano em busca da graça repentina, dos pormenores de condutas, dramas e conflitos moldurados em quadrinhos. Lacônico, contundente, toca o fundo dos fatos palpitantes. Exemplos? Na recente espera da consagração do novo Papa, enquanto um cidadão de vila lê um jornal e comenta que “no Vaticano, nada de fumaça!”, seu interlocutor lhe responde: “No meu barraco também!”. Sua “ Vida Chic”, no tablóide RP aos domingos no Bom Dia,é uma chacoalhada nos costumes. Dia desses, flocos de fuligens da queima da cana cobriam a cidade tornando-a uma cinzenta silhueta. E um cidadão comentou: “ Neve brasileira! Você queria o quê?”. Em “Delivery – serviço de entrega”, um motoqueiro encapuzado pergunta ao cidadão à porta da casa se “foi daqui que pagaram um resgate?”. Como o crime é banal e corriqueiro!

Pelicano, há décadas no jornalismo, busca e consegue originalidade num panorama social que, segundo dizem, é uma piada pronta. Realiza a charge na essência da palavra: do francês “charger” – lançar ataque ou carga. Faz com desenhos uma sucessão de crônicas vincadas pelo contexto histórico e noticiário do dia. Na época em que Lula mais abusava de impertinentes verbetes e falatórios, ele aparece de costas tendo sua à frente uma extensa passarela. Pergunta: “ Pra que o tapete vermelho?” E o assessor lhe responde: “ Presidente, sua língua escapou novamente!”. Sobre nepotismo, o deputado discursa em plenário: “Estão pensando que o Congresso é a casa da sogra?” E alguém retruca: “Da sogra ainda não! Mas dos filhos, dos sobrinhos, dos primos...”.

O curto diálogo, a ironia, o subentendido e o irreverente, o superlativo e desvio do psicologicamente esperado, a caricatura dos fatos e pessoas, as reticências que dizem mais que frases explícitas são características do admirável cartunista. Invariavelmente, põe o leitor num malicioso e inteligente labirinto de conceitos. Quando, no natal, noticiavam-se as falcatruas dos postos de gasolina, foi incisivo. Enquanto uma rena vomita, Papai Noel reclama enraivecido: “ Combustível adulterado outra vez?”. Às vezes é lírico, emotivo: numa favela, uma criança pergunta por que não ganhou presente. E a mãe responde: “ Papai Noel não viu a chaminé!”.

Fatos recentes são-lhe um verdadeiro pote criativo. Durante a Copa do Mundo, numa entrevista de Ronaldo Fenômeno, os pés da mesinha de TV se arrebentaram não suportando o excessivo peso do jogador. Ou, após o campeonato e como que nos convidando a acordar para a vida real, um diálogo de torcedores: “ Que foi? Não gostou da vitória da Itália?”. “Tô chocado! Até a Copa acabou em pizza!”. Os ataques do PCC geraram agudas alfinetadas nas situações bandidas. Numa delas, o Presidente da República indaga ao ministro: “O Lembo recusou nossa ajuda? Por quê?” “O Marcola vetou!”. Ou, ante a liberação de verba para a segurança em São Paulo, o governador se encolhe aflito por detrás de sacos de dinheiro: “ Já tô me sentindo bem mais seguro!”. Sobre o escândalo das ambulâncias superfaturadas e os parlamentares envolvidos, um verme acalma o outro: “Fique tranqüilo. Já somos quase a maioria na Câmara!”. Há pouco, com o veto presidencial ao reajuste aos aposentados, um velhinho numa praça comunica aos pombos: “O Lula acaba de cortar a ração de vocês!”. Ironia, pura e sagaz ironia!

Pelicano faz da interação crítica com os acontecimentos seu jeito de raciocinar e exprimir. Satírico, não raro comovente e humanista, sorri com sarcasmo do nonsense da vida. Com elegância, espicaça a realidade em contornos, linhas, cores e palavras. Faz da profissão de chargista um caderno de anotações psicossociais e comportamentais. Nele, p instinto pedagógico conduz o leitor ao sorriso, reflexão e tomada de consciência. Coloquial e veloz, essa ave de vôos rasantes realiza com descortino um modo opinativo e arejado da comunicação moderna. Confirma, com luz e precisão, que o sugestivo da imagem às vezes diz mais que intermináveis palavras (César Augusto Vilas Boas – o Pelicano, engenheiro civil, premiado cartunista e, nepoticamente, meu mano).

 
Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
 

 


 

 



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