REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências
ISSN 2182-147X
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ROMILDO SANT'ANNA

Millôr Fernandes

 

Humildemente ouso referi-lo, talvez pelas costas, já que se foi. A incansável e aguçada inteligência criativa superam em muito a maioria dos literatos, jornalistas e pensadores que têm merecido atenção da crítica. “Liberdade Liberdade” (1965, com Flávio Rangel) foi um marco de clarividência sociopolítica e engajamento artístico; suas peças originais e inúmeras traduções de clássicos e contemporâneos são incomparáveis contribuições à dramaturgia nacional; a produção gráfico-visual, prosa literária e poemas breves em livros, jornais e revistas revelam uma das mais instigantes e provocativas personalidades brasileiras do decênio de 1940 até hoje. Popular, anedótico e universal, Millôr era fora de série.

Confessava com amarga sinceridade: “não é que com a idade você aprenda muitas coisas; mas você aprende a ocultar melhor o que ignora”.  Até 1962, assinava “Vão Gogo”, em analogia ao grande pintor pós-impressionista. Depois assumiu “Millôr”, com “l” duplo e chapeuzinho no “ô”, aceitando as armadilha da caligrafia esgarranchada. Foi registrado como “Milton”.  Na escola, o “t” virou “l”, o corte mal posicionado da letra virou circunflexo e o “n”, “r”. Deu Millôr.

    Escrevia por aforismos, o mesmo artifício utilizado por Hipócrates para ensinar medicina. Expressava-se em breves, pensativas e agudas sentenças. Numa “lembrança genética” ao curandeiro grego, proclamava com malandrice que a “anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor”.  Seu método implicava o virtuosismo da arte de escrever, proficiência para os jogos de sentidos e ruptura com o psicologicamente esperado.

 Millôr mexia com o estabelecido e captava o leitor no contrapé dos conceitos.  Nessa linha, observou com desconcertante lógica que “de todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha que a abstinência”. Irônico, recomendou: “jamais diga uma mentira que não possa provar”. Lírico, fitava o humano com olhos fatalistas: “viver é desenhar sem borracha”.  Perspicaz, jogava em nossa cara quenão ter vaidades é a maior de todas”. E exclamava pessimista: “como são admiráveis as pessoas que não conhecemos bem!”.

     Outra joia de seu engenho criador foram os haicais e parábolas rimadas. Indagava: “Há colcha mais dura que a lousa da sepultura?”. E observava tragicômico: “Aniversário é uma festa pra te lembrar do que resta”.   

   Millôr foi recusa ao “espírito de rebanho”, o anticlichê flagrado no pulo do gato, o xeque-mate aos padrões usuais. Era um gênio antidogmático e que se anunciava comoum escritor sem estilo”. Sem estilo e paradoxalmente único. Não cabe nos escaninhos comuns dos grandes realizadores. Ano após ano, corporificou o maravilhoso atrevimento da criação, sensibilidade e intelecto. Antecipando-se à morte que agora se deu, assim se despediu: “É meu conforto: da vida me tiram morto”. (Millôr Fernandes, 1923-2012).

 

 
 

Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

blog: http://romildo-sant.blogspot.com/

 

 


 

 



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