REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências
ISSN 2182-147X
NOVA SÉRIE
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ROMILDO SANT'ANNA

Que mané-pinguim!

      Comovente o filme “A Marcha dos Pinguins” de Luc Jacquet. Até ganhou o Oscar. Narra a saga dos Pinguins-imperadores que vivem e procriam em colônias, nos cafundós glaciais do hemisfério Sul. Caminham eretos, mas aturdidos e desengonçados, e parece que se nos apresentam em trajes de gala. Velozes na água e insaciáveis, enchem a pança com seres marinhos; enquanto a fêmea vai à caça, o macho incuba os ovos e os protegem sobre os pés. Na trilha sonora, vozes de atores insinuam os sentimentos dos bichinhos e lhes atribuem humanitárias virtudes. “Ai, meu filhinho morreu!” – lamenta a mamãe-pinguim. Predadora voraz, nem se lembra das grávidas moluscas e pais-peixes que pouco devorou.

Ano passado, numa praia da Ilha Grande, Angra dos Reis, presenciei um movimento de pânico e gritos de socorro.  Alguém se afogou?  Não. Alguns desses patos-da-neve, como de ordinário acontece, se acharam por aqui. Não eram Imperadores, como os do documentário, nem Pinguins-duendes de baixa estatura e rude estirpe. Debatiam-se entre o calor dos seixos e o fervoroso cuidado de seus salvadores. Entre ondas e glamorosas lanchas, ambientalistas e misericordiosos em geral os amparavam com denodo singular. Em conversa com caiçaras do local, soube depois que alguma repartição do governo os acolheria em ambientes aclimatizados. E, em caixas especiais, os despacharia de volta em voo vip à Antártida.

Leio agora nos jornais que, em Gramado, o rigoroso inverno da Serra Gaúcha levou o zoológico a adquirir aparelhos de ar condicionado para aquecer sete pinguins da espécie Magalhães, que vivem na Patagônia, extremo Sul da Argentina. No ornamental “pinguinário” com isolamento térmico, tratadores com mestrado, veterinários plantonistas e dieta reforçada, as aves se refestelam a temperatura de 15ºC, compatíveis com o habitat de origem. Enquanto isso, do lado de fora, sem fraques nem paletós, sem eira nem beira e compaixão, muitos seres humanos tremem ao desabrigo e às vezes morrem de frio.

O que explica tamanha hipocrisia e essa ânsia de evasão da realidade? Que ultraje moral, que iniquidade, que desapreço a nossos semelhantes! Que religião nos interliga?  Como o Pai pode ser nosso se o pão nosso ofertamos a pinguins? No filme da vida, quantos infelizes padecem em boléias mendigas e jardineiras clandestinas pra fugir da fome? Quantos esquálidos e penitentes choram de angústia por filhos largados longe?  Por que também não os transportamos e os tratamos com a dignidade universal dos humanos direitos? A esses, as campanhas sazonais com pedidos de que se os esmolem com roupas boas e usáveis, e não com os despojos de nossos farrapos.

Que infâmia da comédia humana, que tragédia! É cômodo, incrivelmente fácil, remediar a dor da consciência sonhando com aves longínquas, de arribação, ou com sucedâneos que pacifiquem o espírito, quitem nossas dívidas nos prontuários da ética e nos deixem de bem com nossos fantasmas. Com respeito à nossa vida e ao que nos cerca, raios partam esses pinguins!

 

Romildo Sant’Anna, livre-docente, membro da

Academia Rio-pretense de Letras e Cultura

 

Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

 

 


 

 



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