ROMILDO SANT'ANNA

A onda bullying

Existem dores não expostas; futucam na alma. Tem gente que, talvez por mau berço, por inveja, atrevimento, deformação de espírito e comportamento opressivo, vive a atormentar os semelhantes. Espalham intimidações, comentários vis, depreciam o que podem, inventam apelidos maldosos, criticam a aparência física, o modo de vestir e a cor da pele. Se for um jovem com valores morais inconsistentes, pode estar na linha direta da prática de ações violentas no mundo que o rodeia, e mesmo de atitudes assombrosas quando adulto. Um velho provérbio espanhol nos alerta para o destino do praticante de bullying: “Cria corvos e te arrancarão os olhos”.

Se o ditado é antigo, a ação circunscrita pelo ditado o precede. O bullying sempre existiu e atesta o nosso lado torpe, o dragão da maldade que se aloja nos labirintos sombrios dos humanos. Mas o termo em inglês “bullying” é relativamente novo e sedutor. Como palavra da vez, entrou no vocabulário com o charme dos estrangeirismos e tornou-se moda. Só se fala em bullying, discutem-no em mesas-redondas e botecos, em ciclos de conferências, ensaios, nos programas de tevê, jornais e teses universitárias. Essa palavra exprime a nova onda das inventivas cosméticas, aproveitantes e “politicamente corretas”. 

Bullying deriva do inglês “bully” e alude ao brutamonte temido, valentão. Em nosso idioma, há o verbo “bulir” em cujo significado se inclui “causar incômodo, apoquentar o outro”.  Embora sem parentesco, aproxima-se no som e sentido com o termo anglo-germânico. Em sinonímia, dispomo-nos do verbo “mangar” (caçoar, expor ao ridículo por meio de ironias e atitudes maliciosas) bastante conhecido nos descontraídos versos do baião “Kalu”, de Humberto Teixeira: “com franqueza, só não tendo coração / fazê tá judiação / ocê tá mangando de eu”. Mas é mais charmosa, digamos, a palavra “bullying”.

Os dicionários nem o mencionam. Mas tanto se fala em bullying como fenômeno atual que o aluno da escola, aceso em melindres, fica encucado se é ou não um molestado por bullying. Ação e palavra são tão rotineiras e banalizadas que se voltaram contra nós.  Wellington de Oliveira, do massacre em Realengo (além de desatinado mental era um frondoso ignorante) disse-se vítima de bullying e conclamou “os irmão” atingidos por bullying a agirem como ele e saírem matando virtuais inimigos.

Quando vamos sair das atitudes hipócritas e ornamentais para chegarmos às raízes da questão? A violência de todas as épocas são manifestações reativas aos atos de violência? Trazemos na alma o sémen odiento de Caim? Hoje se dispara uma arma contra alguém com o desimpedimento moral com que calçamos um chileno. Com a palavra não os oportunistas que vagam na onda das palavras, inclusive da fastidiosa “bullying”. Mas os indivíduos discretos e proficientes em ciências das humanidades. Esses, sim, talvez colaborem para que saiamos do beco em que nos encantoamos. E aterroriza.

 

Romildo Sant’Anna, livre-docente, membro da

Academia Rio-pretense de Letras e Cultura

 

Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

 

 


 

 



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