ROMILDO SANT'ANNA

Minha Final de ‘70

        No ano do tri, eu era um professor em projeto.  Fazia refeições e pernoitava numa república de futuros engenheiros, em Barretos.  Tudo camaradagem, não fora o Enrico, italiano mal-humorado, alto, loiro e dos cabelos militares. Era dele quase tudo, da geladeira à escorredeira de macarrão.  Ai de quem assoviasse em presença ou ligasse a TV na ausência dele!  Trouxera também um canário-do-reino que fazia questão de não cantar.  Por tácita obrigação e permuta pelas tralhas domésticas, revezávamos no alpiste, couve, água fresca e limpeza da gaiola, levando o pássaro ao banho de sol no galho da amoreira.  

No jogo final contra a azzurra, Enrico transportou a TV para o seu quarto. Iríamos assistir à partida no bar da esquina, tomando conhaque barato pra rebater o frio. E voltaríamos disfarçando a alegria e maldizendo o polenteiro fascista. Mas. Um dos colegas escalado pra limpar a gaiola, deixou o canário escapar. Pousou na cumeeira da casa vizinha.   Enquanto vinha a escada, voou desnorteado para o fio de luz e sumiu.  Foi o deus-nos-acuda, ai se o Enrico souber! Reapareceu no telhado, brilhando-lhe o peito amarelo.  Desceu no quintal, mas se assustou com a tarrafa de lençol que lhe atiramos.  Foi ao muro, mas não se deteve, assustado com gritos de gol.

A seleção canarinha vencia e nós, aflitos, perdíamos. Aninhou-se na sibipiruna da esquina, parecia divertir-se com nosso desespero.  Fingíamos distraídos, distantes e nos achegávamos. Mirava insolente, ia ao muro, após à trave do varal, à pérgula de buganvília e, de novo, descansava no fio de luz. Silêncio de tragédia. Os italianos empataram, pois Enrico soltou seu urro solitário e intermitente. Temendo que saísse à porta em menosprezo aos braziliani, nos abaixamos por detrás do muro.

Novos gritos, rojões. Aproximamo-nos do bicho ofertando-lhe dádivas.   Escutava hesitante aos nossos pedidos de trégua. Trinamos baixinho em seresta, mas logo voltou ao galho da amoreira. Rezamos o creio-em-deus-pai, fizemos promessa a São Longuinho inda que o que se perdera estivesse bem ali à nossa frente. Dissemos-lhe palavras doces. Supliquei-lhe de joelhos, desmantelado em pedidos. Invoquei meu padroeiro São Judas, mostrei-lhe a contrição por todos os pecados por pensamentos, atos e palavras.  Quatro a um! – um bêbado gritou.

Malquerido, o canário se rendeu a uma folha de almeirão deixada à porta escancarada da gaiola. Entrou altivo, bebeu água e cantou pela primeira vez. Aplaudimos e ele gritou mais alto, vangloriando-se do baile que nos dera, o fascistinha ordinário!  Decerto se decepcionara o inesperado indulto. No bar, torcedores roucos, amarrotados de alívio. No rebuliço, Carlos Alberto alevantou a taça e mil mãos se ergueram para tocá-la. A Copa do Mundo é nossa!  De repente, a TV se apagou. Que houve? – mil corações se entreolharam. Seria o desmancha prazer, um torturador da ditadura?  Não.  Era a força que acabou.

 

Romildo Sant’Anna, livre docente, membro

da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura

Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

 

 


 

 



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