ROMILDO SANT'ANNA

Esgueirada por venezianas

Era uma rosa largada no sofá, gélida e branquinha. A morte fez-lhe a visita na hora do show da vida. Vestia o algodãozinho puído estampado de florinhas apagadas que pareciam do avesso.  Olhar opaco, sorriso acanhado, foi casada com o mais febril dos pintores. Vivia assuntando o palavrório do marido, esgueirada por venezianas, como quem mira chispas dum canavial em chamas.  Em lampejos de memória, via-se quando, inda mocinha, saiu da roça espantada pela parentela dum rabo-de-saia que ele tinha. Seriam sonhos? Ele, ancho de si e de braços com a vida; ela, com dois filhos de través na cintura e o outro a puxar-lhe o vestido.

Em ausência do chefe, ouvia seu rompante na vitrola: “Eu disse à dona Rosinha que ia pintar três quadros pra exposição. Ela respondeu que eu não era artista, nem sabia nada e meu lugar era na roça com a enxada na mão”.  Pulsava-lhe no peito o desfrute do que nem podia sonhar: “Os artistas são queridos, e quando aparece uma mulher bonita e me beija, eu beijo também. Se não beija, não beijo. Minha mulher se esquece de que sou dela como marido, mas sou do mundo e vivo de acordo com as regras”. 

Clarinha, quase transparente. Certo dia o galerista aconselhou-a pintar arremedando o marido. Prometeu exposição na capital e até trouxe o botão de rosa enrolado em celofane. Põe aspirina na água, dura mais!  De tão fácil imitação, era pouco mais que nada. Campeou na memória jardins onde nunca estivera, postais que ninguém lhe mandara. E, bulindo à surdina em pincéis rejeitados, coloriu tímidas telinhas.  Por primeira vez sentira o prazer do cheiro de tinta fresca, só sua, ardendo-lhe os olhos!

Mas o onipresente marido farejou-lhe a façanha.  Só se amoitou em sonso para dar-lhe outra lição.  Ela nem percebeu diferença na indiferença.  Seria uma pintora com retrato no jornal, receberia visitas adoráveis e – quem sabe? – dispensaria o sofá de courvin em marrom craquelado no canto da sala. Mas, com a faca de cozinha pisando encima dos quadros, José proclamou de veneta: “Nesta casa basta um artista. Eu!”.

Permanecia no estofado, sentindo esfriar-lhe o colo e azularem-se trêmulas as pontas dos dedos.  Pensou em desligar a TV e ir-se à cama. Mas lhe convinha a preguiça, sem cobrança e hostilidade.  Recatada, quis ajeitar-se no vestido, mas o corpo se teimava, querendo aconchego no berço suado, seu sofá de toda hora. Explodindo no peito, sentiu-se liberta, tão real o desejo por coisa nenhuma, e nada a explicar, e nada a cumprir, num distúrbio sem culpa nem saudade.

Esvaía-se dos sonhos, dos afetos nas cartas que ninguém lhe escrevera e dos desenhos que jamais fizera a não ser em rabiscos da memória. Levitou serena, estiada e peregrina por suntuosas veredas com pessoas sorridentes a lhe dizerem “Oi!”. E, distraída pelo brilho duma outra tela, inda discerniu o coro de vozes a festejar aquele domingo frio de junho: “Olhe bem, preste atenção, nada na mão, nesta também. Nós temos mágica para fazer... É fantástico, da idade da pedra ao homem de plástico, o show da vida! (Rosa Soares, a mulher de José A. da Silva, 1915-1984).

Romildo Sant'Anna, escritor e jornalista, é professor do curso de pós-graduação em "Comunicação" da Unimar - Universidade de Marílía, comentarista do jornal TEM Notícias - 2" edição, da TV TEM (Rede Globo) e curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' e Pinacoteca de São José do Rio Preto. Como escritor, ensaísta e crítico de arte, diretor de cinema e teatro, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Mestre e Doutor pela USP e Livre-docente pela UNESP, é assessor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi sub-secretário regional da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

 

 


 

 



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